Quinta feira, 22 de agosto de 2019 Edição nº 9870 18/02/2001  










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ANTONIO CARLOS MAGALHÃES A dissecação de uma tirania

No livro “Memórias das Trevas”, o jornalista João Carlos Teixeira Gomes conta como ACM virou uma espécie de vice-rei da Bahia com o beneplácito dos generais da ditadura e de um poderoso esquema de mídia, ancorado pela Rede Globo

Do Observatório da Imprensa
Da Reportagem

O jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes, 64 anos, nascido em Salvador (BA), fez história na imprensa baiana também por ter ousado enfrentar, durante a ditadura militar, o todo-poderoso Antonio Carlos Magalhães, à época já uma espécie de vice-rei da Bahia com o beneplácito dos generais de plantão.

Entre 1969 e 1975, em plena vigência do regime de exceção imposto pelo Ato Institucional nº 5, o atual senador pelo PFL da Bahia – então prefeito biônico de Salvador e depois "eleito" governador da Bahia pelo voto indireto – fez das tripas coração para enquadrar Teixeira Gomes na Lei de Segurança Nacional e destruir o jornal que este dirigia, o Jornal da Bahia – de oposição ferrenha aos métodos escusos e ações truculentas do político baiano.

A história desse embate está contada no livro Memórias das trevas – uma devassa na vida de Antonio Carlos Magalhães, lançado na segunda quinzena de janeiro pela Geração Editorial e secundado por tênue repercussão na mídia. Nele, o autor baseia-se na trajetória política de ACM para desvendar o que chama de "essência perversa da opressão".

João Carlos Teixeira Gomes é professor de Literatura Brasileira e de Jornalismo na Universidade Federal da Bahia. Foi amigo do cineasta Glauber Rocha, sobre o qual escreveu uma biografia definitiva – Glauber Rocha, esse vulcão. Também poeta e crítico literário, é membro da Academia de Letras de Salvador e autor de oito outros livros, entre os quais Gregório de Matos, o boca de brasa (um estudo sobre a obra do poeta satírico baiano) e O telefone dos mortos (contos).

Na entrevista a seguir, concedida a Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, Teixeira Gomes fala da devassa que promoveu na vida de ACM e das razões que o levaram a escrever seu Memórias das trevas. ( L.E.)



- Você esperava esta reação relativamente branda por parte do senador ACM? Inicialmente ele ameaçou retirar o livro das livrarias por causa da foto da capa, agora diz que não o fará embora a foto não o favoreça... É uma estratégia para abafar a repercussão?

João Carlos Teixeira Gomes – Não há reação "branda" por parte do Antonio Carlos Magalhães. Em seu jornal e em várias entrevistas ele, bem a seu jeito truculento, me tem xingado de todas as maneiras. Mas até agora não pôde negar uma sequer das suas perseguições, a enorme lista dos agredidos, a tentativa de esmagar o Jornal da Bahia e de me pôr na cadeia – numa época de tortura e morte nas prisões militares. O livro é sobretudo a crônica fiel da sua trajetória de violências. Quanto ao processo, desistiu apenas porque foi alertado de que a explosão das vendas seria incontrolável. Mas já está sendo, com processo ou não. O livro chegou a 25 mil exemplares vendidos em menos de uma semana.

- Ele afirmou também que o teor do livro não feria a sua honorabilidade. Você concorda com isso?

J.C.T.G. – Depende do que ele entende por "honorabilidade". Eu estou convencido de que o livro é um espantoso registro da sua falta de ética e decoro político.

- Se ele não faz carga contra o autor nem contra o teor, por que investe contra o editor afirmando que o livro foi financiado pelos desafetos do PMDB?

J.C.T.G. – Eu tenho dito e repetido que o financiador do meu livro é o próprio Antonio Carlos Magalhães. Por um motivo óbvio: tal o número de inimigos e desafetos que ele fez ao longo da sua carreira. É sem dúvida o político mais detestado deste país. Essa verdadeira legião de agredidos é o público mais apaixonado da obra. A Geração Editorial apenas teve sensibilidade para percebê-lo e está muito feliz com o sucesso, da mesma forma que eu. Quanto ao mais, não preciso lembrar que o Antonio Carlos é um mitômano incurável.

- O livro foi efetivamente recusado por outras editoras? Pode citar algumas?

J.C.T.G. – O livro foi recusado por várias editoras. Umas, por medo; outras, bem poucas, porque queriam que eu o transformasse num ataque rasteiro, com o que eu jamais concordaria. Uma única, porque não teve recursos. Não lhes citarei os nomes porque considero que as acovardadas já estão suficientemente punidas pelo êxito do lançamento.

- Apesar da chamada de capa na IstoÉ, pela dimensão da sua investigação e a importância das revelações seria de esperar uma repercussão bem maior. A matéria que saiu em Valor (23/1) foi praticamente enterrada sem merecer sequer uma referência na capa do caderno de entretenimento. Não chamou a sua atenção o fato de que TODAS as matérias do caderno tenham sido destacadas na sua capa, menos a matéria sobre o seu livro? Isto também faz parte de uma estratégia muito sutil de não ignorar mas também não valorizar?

J.C.T.G. – A repórter de Valor, entusiasmada com o conteúdo do livro e muito competente, Mariluce Moura, entrevistou-me durante mais de uma hora. Se a matéria foi "sufocada", é óbvio que se tratou do expediente aludido, ou seja, "de uma estratégia muito sutil de não ignorar mas também não valorizar".

- Você acha que ACM tem efetivamente tanto poder sobre a imprensa ou isto é lenda? Além das relações empresariais e pessoais com as Organizações Globo, você consegue identificar laços de ACM com outros grandes empresários de comunicação? A Folha de S.Paulo, em geral tão inclinada a fazer barulho, por que razão está tão reservada?

J.C.T.G. – Antonio Carlos ganha no noticiário da mídia o espaço provocado pelas coisas estranhas. A sua obsessiva truculência tem para muitos leitores o mesmo apelo da mulher barbada, do bode de duas cabeças etc. É o fascínio da aberração e do insólito. Não podemos esquecer, contudo, de que há longo tempo ele vem mantendo com a chamada "grande imprensa" uma relação de troca de favores e beneficiamentos ardilosos. Às vezes, um circuito de corrupção que encontrou exemplo maior no caso NEC. Os jornais que controlaram o noticiário sobre o meu livro obviamente estão agindo contra os interesses dos leitores, pois a obra é um sucesso editorial e merecia acolhida bem maior. Uma coisa curiosa vem acontecendo: as rádios e as publicações pela internet me solicitam bem mais do que os jornais.

- E com jornalistas? Em Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti fala num "pacto de sangue" de ACM com o colunista Elio Gaspari. Você investigou esta questão? Nos anos 80, nas principais redações, sabia-se que ACM hospedava em hotéis de Salvador, nos finais de semana, jornalistas e suas famílias. Era uma "boca livre" muito conhecida e badalada. Você conseguiu dados a respeito?

J.C.T.G. – Quando o Conti publicou seu livro, minhas memórias estavam prontas e eu buscando editor. Desconheço, portanto, esse livro menor, uma mera codificação de fatos ultrapassados e já sabidos. Quanto à "boca livre" de jornalistas importantes de Rio e São Paulo na esplendorosa casa de veraneio do Antonio Carlos na Penha, em Itaparica, é bem conhecida dos baianos. Faço uma alusão ao fato em meu livro. Integrava um esquema de envolvimentos.

- Você poderia minuciar as relações pessoais e empresariais de ACM com o Grupo Globo?

J.C.T.G. – As pessoais ele próprio destacou, quando dirigiu uma carta aos filhos do Roberto Marinho, no momento em que a Globo divulgou a diatribe da Nicéia Pitta, ao insinuar que era conselheiro do jornalista-empresário em assuntos íntimos. As empresariais se tornaram notórias em todo o Brasil após o escândalo do caso NEC, quando beneficou a Globo para receber em troca a programação da emissora e usá-la na Bahia para esmagar adversários.

- O passado de ACM como jornalista deu-lhe este traquejo para lidar com a imprensa com tanta maestria?

J.C.T.G. – Antonio Carlos não é nenhum mestre em lidar com a imprensa, mas provoca interesse por ser uma fonte de notícias desde quando vive bisbilhotando a vida política para preparar seus dossiês contra desafetos. Jornalista, também, nunca chegou a ser, pois trabalhou pouco tempo nos Diários Associados em Salvador apenas para travar relações com políticos e bajular Antônio Balbino e Juraci Magalhães.

- Você vê algum perigo de cartelização no processo jornalístico brasileiro?

J.C.T.G. – Claro que há esse perigo e, aliás, já está em curso. Ainda é embrionário, mas o garrote dentro das redações, onde se pensa agora por ordem unida, é um caminho para facilitar o gigantismo empresarial em marcha. Lembremos que os jornais tradicionais estão deixando de ser das grandes famílias pela invasão de gente que não é do ramo – tendência nova na imprensa brasileira. Trata-se de um perigo enorme para a imprensa escrita.

- Paralela a esta cartelização você consegue identificar outros mecanismos de controle? Há reclamações – já veiculadas no Observatório – de pequenas "máfias" profissionais fazendo a ponte entre diferentes veículos e até escolhendo quem pode ser contratado e quem deve ficar no ostracismo. Por coincidência uma destas máfias – a maior – tem ligações profundas com o senador ACM.

J.C.T.G. – Tais mecanismos de controle começam a derivar-se dos interesses da globalização e do esquema neoliberal. A tendência é que somente sobrevivam entre os profissionais aqueles que capitulem e se acomodem. Esse processo obviamente interessa a um político ambicioso e sem escrúpulos como Antonio Carlos.

- E o relacionamento de ACM com jornalistas baianos? Alguns jornalistas e empresários baianos tentaram enfrentá-lo. Ocorre-me o nome de Paolo Marconi e João Falcão. O que lhes aconteceu?

J.C.T.G. – Restaurando métodos que empregou na ditadura, Antonio Carlos agora tenta esmagar A Tarde, como o fez contra o Jornal da Bahia. Paolo nunca teve expressão como oposicionista e João Falcão, que vendeu traiçoeiramente o Jornal da Bahia ao próprio Antonio Carlos, nunca teria existido sem a presença forte de João Carlos Teixeira Gomes, o líder da resistência. Fatos são fatos.

- E com você? Afinal, este seu livro não é obra de circunstância: como é que você tem conseguido enfrentar o "carlismo" há tanto tempo? E como será no futuro?

J.C.T.G. – Com efeito, meu livro não é obra de circunstância, mas um estudo denso e profundo sobre a tirania. Eu sou um rousseauniano e entusiasta do pacto social no seu mais alto sentido. A sociedade não delega poderes a déspotas, mas sim a líderanças que deseja esclarecidas e preparadas para promover o bem comum. A tirania é uma enfermidade social. Tenho encontrado uma enorme energia dentro de mim para enfrentar essa coisa odiosa e antinatural que é o "carlismo", ao lado de um quixotesco espírito de sacrifício. Isto se deve ao fato de que, além de rousseauniano, eu sou também um glauberiano e um gregoriano (não do papa Gregório, mas de Gregório de Matos – que, aliás, está fazendo muita falta hoje à Bahia).

- A imprensa baiana (que já foi uma das melhores) tem condições de desenolver-se enquanto ACM dominar o cenário local?

J.C.T.G. – Não tem. Tanto é assim que o pasquim do Antonio Carlos, o Correio da Bahia, não tem leitores, e A Tarde está sendo perseguida. Em relação ao Correio, acontece normalmente um fato incrível: publica a coluna da Dora Kramer, mas, quando ela critica a irracionalidade do Antonio Carlos, o que vem sucedendo com freqüência, passa o cacete na Dora, numa nota de pé de página. Quer dizer: um jornal agride e desmoraliza a colunista que ele próprio acolhe. Antonio Carlos entende isto como expressão da liberdade de imprensa.

- Como é que os artistas e intelectuais baianos se colocam frente ao "carlismo"?

J.C.T.G. – Existe uma aderência repugnante de alguns artistas bem conhecidos ao "carlismo", além das relações espúrias entre o carnaval baiano e o poder político, por interesse mútuo. O carnaval baiano deixou de ser há muito tempo aquela coisa espontânea e pura dos primeiros trios elétricos. Não cito nomes porque ainda acredito na recuperação moral dos colaboracionistas (ou, como diziam os franceses da França ocupada, os collabos).

- Será possível separar o orgulho baiano do "carlismo"? Esta é a arma de ACM para manter o seu poder?

J.C.T.G. – O orgulho baiano repudia o "carlismo". O Antonio Carlos só cresceu com a ditadura, quando não havia eleições, e, até a experiência fracassada de Waldir Pires, jamais ganhou uma eleição para a prefeitura de Salvador. Sua força na Bahia foi durante muito tempo uma criação irresponsável da mídia sulista. A arma que ele tem usado há anos para se manter no poder é a violência aliada à bajulação aos mais poderosos do que ele. Dessa simbiose retira sua força. Também da covardia dos adversários.

- Você menciona o marechal Castelo Branco como a pessoa que projetou ACM na cena política. Que papel o general Golbery desempenhou neste lançamento?

J.C.T.G. – Ele insinuava sempre ter muita intimidade com o Golbery, mas brigaram por causa do Paulo Maluf e Antonio Carlos acusou o general de ter criado a alcunha de "Toninho Malvadeza", o mais ajustado dos epítetos. Mas não foi Golbery: foram os baianos massacrados, numa vingança inspirada.

- O falecido Luis Eduardo operava do jeito do pai? Como era o seu relacionamento com a imprensa?

J.C.T.G. – Luís Eduardo Magalhães publicamente era um político cordial e – dizem – nos bastidores, um bom articulador. Não queria governar a Bahia, pois sua vocação era o Parlamento. Cedeu às fortes pressões emocionais do pai. Morreu cedo demais para que pudesse ter definido melhor seus caminhos.

- No livro você trata de questões ideológicas e conceituais. Como classifica ACM numa análise política mais ampla? Ele é um fascista, um caudilho populista, um conservador?

J.C.T.G. – Antonio Carlos é um instintivo político, com uma enorme sede de poder – fato que confessou à revista Playboy número 13l, de 1986. Conceitos teóricos ou refinamentos conceituais lhe são indiferentes. Já confessou ter ganho as eleições de 1982 na Bahia "com o dinheiro numa mão e o chicote na outra", conforme noticiou Ricardo Noblat no Jornal do Brasil. A frase o explica e define o seu papel político. É o único coronel urbano da política brasileira, em linha de choque com a tradição rural do coronelismo nordestino, que teve em Lampião o seu herói outsider. Lampião foi um coronel às avessas, portador da mesmo malignidade dos latifundiários do cabresto e do voto marcado. Muito mais autêntico, porém, do que todos eles.

- ACM encarna o PFL? Você o distingue politicamente de um Marco Maciel?

J.C.T.G. – Marco Maciel é um reacionário fino (sem trocadilhos ou ambigüidades). Antonio Carlos é um reacionário vaidoso e truculento



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