Uma grande história
A maior bilheteria do cinema é o filme ‘Avatar’ (EUA, 2009), de James Cameron, que narra a luta dos Na’vi para proteger as suas terras, em Pandora, dos colonizadores humanos. Se trocarmos os Na’vi por caiabis ou calapalos e Pandora pela Terra, teremos na essência a mesma história, só que esta última é real e aconteceu bem aqui no nosso quintal, mas precisamente na parte nordeste de Mato Grosso. E é retratada no filme ‘Xingu’ (Brasil, 2012), de Cao Hamburger, em cartaz nos cinemas de Cuiabá.
O filme em si não é lá grande coisa, a história em si é bem melhor do que ele, mas para nós, mato-grossenses, é importante vê-lo, pois retrata a nossa história recente. Mostra a luta de três irmãos paulistas, que, como o mimoseano Candido Mariano Rondon, escreveram seus nomes na história ao desbravar o sertão de Mato Grosso e no contato com os povos indígenas.
A história desses três irmãos começa em 1941. Orlando, Cláudio e Leonardo Vilas-Boas moravam em São Paulo: o primeiro era escriturário na Esso, o segundo entregava avisos da prefeitura e o terceiro era funcionário de uma empresa distribuidora de gás para geladeira. Orlando tinha 27 anos; Cláudio, 25; e Leonardo, 23.
De uma família de onze filhos, pai fazendeiro de café, os três tiveram de interromper os estudos na adolescência depois que o pai ficou doente, vendeu a fazenda os levou para São Paulo. No ano de 1941 o pai morre e, cinco meses depois, a mãe.
Criados no interior, não viam futuro na cidade grande. À noite, liam e conversavam sobre o sertão, Cláudio abrindo grandes mapas do Brasil sobre os quais os três se debruçavam, deixando o sonho correr livre.
Até que em 1943 ficam sabendo que o governo federal acabara de criar a Expedição Roncador-Xingu, com o objetivo principal de “conhecer e desbravar as áreas que aparecem em branco nos mapas”.
Sem imaginar que iriam passar 40 anos na selva, Orlando, Cláudio e Leonardo decidem se inscrever. Procuram a Fundação Brasil Central, criada na mesma ocasião para orientar e administrar os trabalhos da Expedição Roncador-Xingu. São recusados. Por ordem superior, só eram aceitos “sertanejos”, porque “têm mais resistência que gente da cidade”.
Os três resolveram então ir diretamente para Barra do Garças, onde estava sendo montada a base da Expedição. Vão disfarçados de “sertanejos” e ganham o emprego: Cláudio e Leonardo, na enxada; Orlando, auxiliar de pedreiro.
O encarregado de montar a base da Expedição, único que não era sertanejo ali, não tinha com quem discutir ou dividir os problemas. Até que um dia um avião atola no campo da base e são chamados para ajudar no desencalhe os dois trabalhadores que estão mais próximos. Eram Cláudio e Leonardo. Na conversa, revelam-se educados e alfabetizados. No dia seguinte, Cláudio é nomeado chefe do pessoal; Leonardo, chefe do almoxarifado; e Orlando, secretário da base.
Daí em diante começará a epopeia, que Orlando e Cláudio narram num diário detalhado no livro ‘A Marcha para o Oeste’.
Essa aventura, sem paralelo na história do país, deixou números impressionantes: 1.500 km de picadas abertas, 1.000 km de rios percorridos, 43 vilas e cidades nascidas no roteiro da marcha, 19 campos de pouso, sendo que quatro se tornaram bases militares e pontos de apoio de rotas aéreas internacionais, e 5 mil índios contatados. E a criação do Parque Nacional do Xingu – que no ano passado completou 50 anos -, uma “Sociedade de nações”, como disseram os Villas Boas, onde vivem atualmente 6 mil índios falando dez línguas diferentes. Em suas 18 aldeias, o Parque abriga cuicuros, calapalos, nauquás, matipuís, meinacos, auetis, uaurás, iualapitis, camaiurás, trumaís, txicãos, suiás, jurunas, caiabis, metotires, mencragnontires e crenacarores.
Leonardo morreu em 1961; Cláudio, em 1998; e Orlando. em 2002. Deixaram uma grande história, digna de um filme!
* Gustavo Oliveira é diretor de Redação do Diário. Gustavo@diariodecuiaba.com.br
|