Sábado, 15 de junho de 2019 Edição nº 9866 14/02/2001  










RENAN CALHEIROSAnterior | Índice | Próxima

O golpe da vaca louca

O Canadá, responsável pela certificação sanitária do Nafta – mercado comercial que reúne Estados Unidos, Canadá e México -, decidiu na última semana suspender a importação da carne bovina brasileira. O anúncio surpreendeu pela intempestividade e carência de fundamentação técnica.

Os canadenses tomaram esta posição argumentando tratar-se de uma medida preventiva contra o mal da vaca louca, que contaminou os rebanhos ingleses. Ocorre que o Brasil não tem e nunca registrou um caso sequer ou mesmo suspeita da doença. Os bovinos brasileiros se alimentam de ração vegetal e pastagem e, em nenhuma hipótese, poderiam ter sido contaminados por insumos de origem animal industrializados na Europa.

As autoridades canadenses tergiversam sobre os reais motivos do boicote. Alegam uma demora na prestação de informações brasileiras sobre as ações de controle da doença. O governo brasileiro reconhece a lentidão na prestação dos esclarecimentos, mas alerta, licitamente, que o governo canadense nunca expôs sua satisfação ou insatisfação com as informações prestadas.

Apenas no dia 31 de janeiro deste ano, dois dias antes de entrar em vigor a decisão de suspender a importação da nossa carne, o governo canadense se manifestou sobre a insuficiência de informações e, simultaneamente, anunciou a decisão de boicotar o Brasil. Fato mais grave é que a hostilidade precisa ser obedecida também pelos Estados Unidos e México.

A recente cronologia de contenciosos comerciais entre Brasil e Canadá ratifica a convicção existente, tanto no Congresso, quanto nos produtores, de que se trata de uma retaliação comercial e não uma precaução sanitária. Tem origem na crise entre a brasileira Embraer e a canadense Bombardier na disputa pelo mercado mundial de jatos regionais.

A retaliação canadense merece respostas duras do governo brasileiro e o repúdio da nação. O governo brasileiro deve abandonar seus manuais de contemporização e responder energicamente a este terrorismo comercial. O diálogo e a civilidade são sempre os melhores caminhos, desde que o interlocutor abdique da animosidade, o que não está ocorrendo.

Caso o governo canadense não suspenda o boicote, convém aplicarmos as represálias comerciais cabíveis. Afinal, na relação bilateral, o Canadá exporta mais do que importa do Brasil. A carne do Brasil – terceiro maior exportador do mundo – vai, com certeza, encontrar outros mercados.

O Senado vai ouvir os Ministros das Relações Exteriores e da Agricultura. Além de cobrar as explicações cabíveis, já sustamos a votação de dez acordos de cooperação com o Canadá, começando pelo projeto que cria a Frente Parlamentar. O país exige respeito e um pouco de coragem não faz mal a ninguém.



* RENAN CALHEIROS é senador pelo PMDB-AL e ex-ministro da Justiça



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