Quarta feira, 22 de janeiro de 2020 Edição nº 13086 14/08/2011  










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Arte problematizadora

“A arte é o que não é usual. O artista transforma o óbvio em alguma coisa que cria uma tensão. Quando ele reordena, ressignifica”

Martha Baptista
Da Reportagem

A arte contemporânea é problematizadora. Ela desconcerta, desloca as coisas de seus lugares habituais, para chamar atenção e provocar as pessoas, desconstruindo o conceito tradicional. Sua função não é trazer soluções. Essas ideias, colocadas aqui de forma simplificada, permeiam o trabalho da professora Maria Thereza Azevedo, coordenadora do Programa de Pós-graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e doutora em Artes pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).

No início da semana, ela começou a dar o Curso Livre de Artes Visuais no Pavilhão das Artes, no Palácio da Instrução – uma iniciativa da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso. Em cerca de 30 horas do curso, que terminará no próximo dia 30, Maria Thereza vai abordar o que chama de “pontos nós” da arte contemporânea, focando em alguns artistas considerados chaves.

São eles o artista plástico sergipano Artur Bispo do Rosário (1909-1989), cuja história está ligada à da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, uma instituição que abrigava doentes mentais; Lygia Clark (1920-1988), pintora e escultora mineira, que se auto-intitulava “não-artista”; Hélio Oiticica (1937-1980), artista plástico e performático carioca, que criou o Parangolé; Marcel Duchamp(1887-1968), pintor, poeta e escultor francês; e Stéphane Mallarmé (1842-1898), poeta e crítico literário francês que trabalhou a ideia do vazio. Cada um deles, a seu modo e usando uma (ou várias) forma de expressão, representa conceitos que Maria Thereza considera importantes para a compreensão do que é a arte e a cultura contemporânea.

“A arte é o que não é usual. O artista transforma o óbvio em alguma coisa que cria uma tensão. Quando ele reordena, ressignifica”, explica Maria Thereza. Ela cita o exemplo de Duchamp quando transporta um elemento do cotidiano (como um urinol) para o campo das artes, ou de Bispo, quando utiliza uma caneca usada para criar uma obra artística. “A arte implica um gesto (de deslocamento e/ou desconstrução de alguma coisa que está sacralizada) e numa intenção”, acrescenta.

Segundo a professora, a arte moderna trabalha com a ideia da unidade, de trazer o que é novo, original, enquanto a contemporânea trabalha com releituras, com os conceitos de efemeridade e heterogeneidade, mistura técnicas, sai das galerias, dos museus (o chamado “cubo branco’, conceito criado por Brian O’Doherty, escultor irlandês, em 1976) e está em qualquer lugar, principalmente nas ruas.

Ao mesmo tempo em que dá vazão às manifestações do inconsciente (um dos atributos da arte), o artista contemporâneo tem uma postura muito política, é quase um pensador, na opinião de Maria Thereza, que não acredita na possibilidade de pessoas conservadores fazerem arte. “A vida é movimento – isso é um pensamento contemporâneo. A cultura contemporânea também. A arte e a cultura contemporânea têm essa coisa da mistura de técnicas e das tradições com as questões do agora, num diálogo constante’, afirma.

INTERVENÇÕES

Fiel a essas ideias, Maria Thereza vem coordenando atividades de intervenção em Cuiabá, desde sua chegada à capital mato-grossense em 2008. Mineira de Alfenas, ela já morou em várias capitais e cidades do interior e acredita na capacidade dos cidadãos de interferirem e provocarem mudanças no lugar onde vivem.

“Desde que cheguei a Cuiabá fiquei muito incomodada com questões como o lixo nas vias públicas, a falta de mais arborização para criar sombras e sinalização. Percebo que tem um grupo de pessoas que veio de fora, que adora a cidade, percebe os problemas e quer mudar algumas coisas. Isso não quer dizer que a gente não goste de Cuiabá, muito pelo contrário. Hoje, a capital é uma cidade multicultural, uma verdadeira polis, e meu projeto de pesquisa, que me credenciou para a ECCO foi justamente sobre essa cidade”, conta Maria Thereza, que tem um blog propondo o plantio de 200 mil árvores para Cuiabá.

É importante entender o que a professora entende por “intervenção”. “São ações que chamam atenção para um lugar”, diz. A proposta é mapear lugares da cidade que precisam ser revitalizados. Nesse sentido, Maria Thereza liderou um projeto do Sesc de intervenções no tradicional bairro do Porto, intitulado “Porto à deriva”. Entre outras ações, foram plantadas na ocasião flores artificiais nos canteiros próximos ao Museu do Rio para mostrar a necessidade de mais arborização no local – um dos pontos turísticos da capital.

Em seguida, coordenou um projeto de Intervenção no espaço da UFMT, com a participação de estudantes e apoio da Fapemat. Agora as atenções se voltam para o Largo da Mandioca, no Centro Histórico. Sob a orientação de Maria Thereza e com apoio do Sesc, o grupo – que reúne profissionais de várias áreas – tem se reunido dois sábados por mês, sempre às 16h. Neste sábado, o encontro aconteceu no Sesc Arsenal e no próximo dia 27 será realizado no próprio Largo da Mandioca. O grupo já fez algumas ações no local, como um chá-com-bolo na Pousada Ecoverde que funciona no largo. Está em curso o planejamento de uma ação (em setembro ou outubro) na escadaria existente no largo.

“Estamos pensando em fazer uma lavagem da escadaria, com a performance de artistas, dançarinos, poetas, escritores e fotógrafos”, adianta Maria Thereza. Essa ação também deverá incluir algum tipo de plantio em canteiros que já existem no local. Outra intervenção será feita no terreno que abrigou a casa onde nasceu o poeta Silva Freire.

ARTISTAS EM POTENCIAL

Esses conceitos, que visam provocar um novo olhar e postura em relação à cidade em que vivemos, também estarão presentes no trabalho coletivo que está sendo realizado no Curso Livre de Artes Visuais. Já na primeira semana de aula, os alunos – pesquisadores, artistas e amantes das artes em geral – perceberam que muitas pessoas não conhecem o Palácio da Instrução, situado no Centro da capital, ao lado da Catedral. Ao longo do curso, os estudantes, divididos em equipes, vão fazer um mapeamento do espaço em torno do Palácio e, aos poucos, irão definindo formas de aproximar a população do Palácio da Instrução, onde funciona hoje o Pavilhão das Artes e a Biblioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça.

Além de aproximar as pessoas comuns de um ponto de cultura, promover a integração delas com a cidade, o projeto do curso trabalha com um conceito que é muito caro à professora Maria Thereza: o de que todo mundo é um artista em potencial (de Joseph Beuys, artista alemão do século XX). Isso vem de encontro à proposta da SEC-MT e do Pavilhão das Artes de estimular o processo criativo de artistas que já estão no mercado e de novos nomes, contribuindo assim para a produção artística mato-grossense.

MEMÓRIAS CLANDESTINAS

Além de professora, Maria Thereza Azevedo é jornalista e cineasta. Seu documentário “Memórias clandestinas” foi escolhido o Melhor filme Documentário do Festival Internacional Feminino (Femina 2007), realizado no Rio de Janeiro. Ele conta a história de Alexina Crespo, primeira mulher de Francisco Julião, advogado, deputado, líder e fundador das Ligas Camponesas, no período que antecedeu o golpe militar no Brasil, de 1964.



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