Segunda feira, 21 de maio de 2018 Edição nº 13067 23/07/2011  










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A arte da caligrafia

O termo, pouco usado, vem das palavras gregas, kalli,
que significa beleza, e grapho, que significa escrita


Martha Baptista
Da Reportagem

Num tempo em que a tecnologia domina e quase tudo é feito por computador, ainda há espaço para uma arte requintada e antiga: a caligrafia. O termo vem de duas palavras gregas, kalli, que significa beleza, e grapho, que significa escrita. A arte da escrita bela é praticada em Cuiabá pelo paranaense Abílio Mateus, 65 anos.

Muito sereno e gentil, seu Abílio, é funcionário da Prefeitura da capital mato-grossense desde 1992 e hoje é gerente de cartografia do Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (IPDU), recém transformado em Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. Técnico em agrimensura e georreferenciamento urbano, ele começou a trabalhar com cartografia aos 15 anos, graças à sua habilidade com a caligrafia e os cálculos.

Foi convidado a trabalhar na Sociedade Territorial Ubá Ltda., que colonizou o Norte do Paraná. “Fazíamos os mapas à mão livre”, recorda seu Abilio, que tomou gosto pela coisa e fez cursos de caligrafia. Em 1980, ele se mudou para Mato Grosso com a mulher Nair, trabalhando para outra colonizadora, e aqui teve seus quatro filhos.

Aos poucos, foi se adaptando à modernidade, ao uso do computador, mas nunca deixou a caligrafia, que considera mais que um hobby. “A caligrafia é uma arte, uma verdadeira terapia para mim. Quando estou escrevendo, eu me esqueço de tudo”, conta o calígrafo, que se dedica a essa arte geralmente à noite e nos finais de semana.

CONCENTRAÇÃO

No passado, quando ainda morava no Paraná, seu Abílio deixou sua marca em muitos títulos de cidadão honorário, porém hoje a maioria de seus serviços é prestado a noivos. Ele tem uma média de três casamentos por mês e cobra R$ 0,70 por convite feito. Gostaria de ter mais pedidos, mas faz questão de dizer que não trabalha pelo dinheiro.

“Eu faria os convites de graça para todo mundo se eu pudesse. Faço caligrafia porque gosto”, garante. Parte da renda cobre os gastos com materiais, principalmente com as tintas especiais (algumas importadas da Inglaterra). Seu Abílio tem várias canetas bico de pena, algumas mais grossas ou mais finas, nacionais e importadas. São escolhidas dependendo da letra que se quer fazer e o papel usado.

O tipo de letra mais usado é a Cursiva Inglesa (clássica), seguida pela Itálica, utilizada mais em diplomas e certificados. O calígrafo mato-grossense também sabe fazer a letra Gótica, que está em desuso. “Chegava a ficar quatro dias fazendo um título de cidadão honorário”, recorda. Seu Abílio está longe de ser um saudosista. Embora nenhum de seus filhos (um físico, duas biólogas e um universitário de Letras) tenha tomado gosto pela caligrafia, ele diz que capitais como São Paulo e Belo Horizonte têm escolas especializadas na arte da caligrafia. O próprio Abílio é procurado por pessoas interessadas em aprender essa arte.

“Eu ensino as técnicas, o jeito certo de pegar na caneta, os materiais e papéis indicados, como projetar a linha sem precisar fazê-la no papel”, conta. Nada disso adianta, entretanto, se o calígrafo em potencial não treinar e perseverar. “Para ser calígrafo são importantes três coisas: gostar do que faz, conhecer as técnicas e ter muita concentração”. Afinal, é proibido errar quando se dedica à caligrafia.

DOM

Várias vezes durante a entrevista, seu Abílio reforça a importância do amor à caligrafia. Ele acredita que recebeu um dom, que provavelmente é hereditário, porém insiste: “Mesmo que você tenha um dom, é preciso treinar”. Seu Abílio conta que um dia sua mãe encontrou uma carta de uma prima, dos idos de 1910, e reparou que a caligrafia era muito semelhante à do filho, o que reforça a ideia da hereditariedade.

Seu Abílio conta que com o tempo o calígrafo vai desenvolvendo sua própria letra e acredita que a caligrafia revela a personalidade de cada pessoa. Ele se lembra de um episódio ocorrido quando ainda era menino. “Eu tinha um professor que escrevia com as letras inclinadas para trás. Achei aquilo bonito e comecei a copiar. Aí uma professora, dona Janete, chamou minha atenção e disse que quem escrevia inclinado para trás não ia para frente”.

Advertido, ele abandonou o modelo e foi desenvolvendo o seu próprio estilo. Feliz com sua decisão, seu Abílio cita Lair Ribeiro, um dos papas da neurolinguística, e diz: “Sucesso é fazer o que você gosta e ainda poder cobrar por isso”. Os interessados em aprender essa arte ou utilizá-la podem procurar seu Abílio pelo telefone 9603-7932. Mas, atenção, não é fácil ser calígrafo. Esta repórter tentou escrever alguma coisa com a caneta de pena de seu Abílio e sequer conseguiu rabiscar o papel. Nem todo mundo nasce com o mesmo dom.



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