Sábado, 23 de março de 2019 Edição nº 12991 24/04/2011  










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A memória escorre pelos dedos e se esvai

Um grito de indignação lançado pelo O Globo ecoa apesar do vácuo que existe na memória negociada e leiloada sem respeito algum pelo patrimônio

Cristina Tardáguila
Agência Globo

A capa deste caderno deveria estampar hoje uma foto de Pelé comemorando, com um soco no ar, um dos gols da Copa de 70. Em segundo plano, estariam Tostão e Jairzinho, felizes da vida. Também deveria mostrar o momento exato em que índios caiapós, nitidamente emocionados, hastearam uma bandeira do Brasil como forma de celebrar a demarcação definitiva do território do Xingu, em 1961. Mais abaixo, deveria trazer a alegria de John Lennon no último show que o ex-beatle fez em Nova York, em 1980, o primeiro aceno de Karol Wojtyla como papa João Paulo II, em 1978, e a comoção em torno do caixão de Getúlio Vargas, depois de seu suicídio, em 1954.

Nada disso foi possível porque essas fotografias originais — assim como outras 12 mil que compõem o acervo de imagens da falida Bloch Editores — têm paradeiro desconhecido há quase um ano.

Em 4 de maio de 2010, depois de dois leilões infrutíferos, o advogado Luiz Fernando da Fraga Barbosa, originário de Teresópolis, arrematou das mãos do leiloeiro Fernando Braga a principal coleção de imagens que, por meio de fotografias, cromos e negativos, poderia recontar 70 anos da história do Brasil e do mundo. Uma joia da iconografia nacional.

Por ela, Barbosa e um sócio anônimo pagaram R$ 300 mil, um sexto do lance inicial previsto, e precisaram aguardar pacientemente até que o Ministério Público desse o leilão por válido, encerrando as discussões jurídicas sobre o “preço vil” (extremamente baixo) oferecido por eles.

Assim que o depósito caiu na conta da massa falida, que até hoje tem dívidas com os ex-funcionários da Bloch, Barbosa obteve uma autorização para enviar caminhões-baú ao antigo estúdio da TV Manchete na Estrada da Água Grande, em Irajá, e retirar de lá as 12 mil fotografias. Esta foi a última vez que o acervo de imagens das revistas “Manchete”, “Fatos & Fotos”, “Pais e Filhos”, “Ele e Ela”, “Desfile”, “Geográfica Universal” e “Amiga” — famosas entre os anos 1950 e 2000 — foi visto ao vivo, em cores e inteiro.

No auto de arrematação, documento que sela qualquer leilão, Barbosa registrou como sendo seu um endereço residencial que, na verdade, é de sua ex-cunhada. Valeu-se, talvez, do curioso fato de seu irmão mais novo, um comerciante de tecidos em Teresópolis, ter um nome muito parecido com o seu: Fernando Luiz, em vez de Luiz Fernando.

Os responsáveis pelo leilão, que não atenderam aos pedidos de entrevista feitos pelo GLOBO, não repararam na troca e deram o caso por encerrado com uma única martelada.

Numa abafada tarde de março, na portaria do prédio que consta nos autos do leilão, a ex-cunhada de Barbosa, um morena de origem libanesa, sorria de nervoso.

— Nunca vi foto nenhuma por aqui. Muito menos 12 mil — repetia a comerciante, que pediu para não ser identificada.

O síndico do prédio, sentado a seu lado, também balançava a cabeça em negação e apontava alternadamente para os elevadores que dão acesso aos apartamentos de quatro quartos e a área da piscina.

— Se algum caminhão tivesse descarregado fotos aqui, eu teria ficado sabendo — frisava o também comerciante Geraldo Lemos.

Quando Barbosa arrematou o acervo, disse aos repórteres que acompanharam a negociação que sua família tinha interesse particular nas fotos e que não comentaria o destino que lhes seria dado. O GLOBO conseguiu localizá-lo para uma curta entrevista por telefone.

Barbosa não soube explicar a confusão envolvendo o endereço da ex-cunhada e se negou a fornecer a localização do acervo da Bloch.

— As fotos estão num galpão no Rio de Janeiro, mas eu e meu sócio não estamos dispostos a levar ninguém lá. Parte do material já foi até vendida — disse ele.

A informação sobre uma possível revenda das fotos do arquivo caiu como uma bomba na reunião que a comissão de ex-empregados da Bloch Editores realizou no Sindicado dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro no último dia 12.

— Elas têm que ser guardadas a 15 graus, longe da umidade e da claridade — protestava o fotógrafo Orlando Abrunhosa, que dedicou 40 de seus 69 anos à Bloch e clicou Pelé na foto descrita no início desta reportagem.

— Eu deixava todos os negativos e todas as minhas fotos no prédio da Rua do Russel, na Glória — repetia, nervoso, o fotógrafo Henrique Viard, de 56 anos, seis deles de trabalho na editora falida. — Achava que aquele andar gelado de mais de 500 metros quadrados era o lugar mais protegido do mundo para meu trabalho. Olha aí no que deu...



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