Segunda feira, 18 de março de 2019 Edição nº 12758 11/07/2010  










GABRIEL NOVIS NEVESAnterior | Índice | Próxima

Queijo branco

Da Reportagem

Dentre as centenas de tipos de queijo o meu predileto é o queijo prato – aquele amarelo - além de ser, segundo ouvir dizer, um dos mais consumidos no Brasil. Todo dia retiro-o da geladeira antes de sair para a academia de ginástica, juntamente com a manteiga, para que na minha volta, com o calorzinho da nossa cidade, encontrá-lo com a consistência de pudim, e a manteiga quase líquida.

Ao retornar da academia, ou caminhada, faço o meu café da manhã reforçado. Ah, sim, esqueci de dizer que antes de sair para os meus exercícios matinais, como algumas frutas. Pois bem. Com o queijo e a manteiga no ponto, passo-os numa fatia de pão integral – que eu chamo carinhosamente de pequena pista maldita de carboidrato. O queijo é só uma laminazinha, é gostoso, mas não posso abusar. Acompanhando esta parte sólida do meu café da manhã, uma xícara de leite integral pingado com café e duas gotas de adoçante. Finalizando, um pequeno copo de suco natural, para ajudar a engolir os medicamentos próprios da idade.

Meu irmão, que é meu companheiro do café da manhã e tem diploma da Natasha de diabético, adora um café rico em carboidratos, geléias e sucos industrializados. Também é um admirador de goiabada com queijo amarelo, sorvetes, doces de maneira geral. Possui ainda no seu quarto, guardado a sete chaves – como se ninguém soubesse - generosa quantidade de chocolate. Perguntei ao meu irmão porque não segue a dieta da nutricionista. Ele me respondeu que a dieta era insuportável, e preferia aumentar a dosagem dos medicamentos, produto que não falta nesta casa, apesar dos seus preços proibitivos, a ter que se privar das guloseimas que adora. Tudo bem. Ele já é maior de idade né?

Hoje, após várias tentativas, consegui da minha irmã fazendeira o donativo de um queijo de minas, aquele branco. Não que nunca tenha sido agraciado com esta doação... Mas demoooora! Fabricado na sua fazenda, como-o com o maior prazer e segurança, além de ser uma delícia. Mais salutar que o queijo amarelo, é ideal para substituir o gostoso e gorduroso amarelinho e para fazer companhia à goiabada do meu irmão.

Como falei, a doação do queijo branco andou um pouco sumida. Diz minha irmã que é porque as vacas leiteiras foram vacinadas, o que leva duas semanas. Neste meio tempo, segundo ela, a produção de leite diminui, e consequentemente a produção de leite suspensa. Mas enfim, o queijo apareceu! E lá fui eu buscar o queijo, com apuro e precisão germânicos às dez horas, horário estabelecido por ela. O complicado não foi sair da minha casa para buscar o queijo, pois uni o útil ao agradável - ir caminhando até o local da doação. Complicado foi a volta.

Para começar tive que enfrentar na volta o sol de quase meio-dia, pois aproveitei para bater um papinho por lá. Mas, complicado mesmo foi enfrentar a curiosidade das pessoas conhecidas que encontrava pelo caminho.

- O que faz com este queijo na mão? Perguntou o primeiro curioso.

- Hein?! Exclamei meio espantado.

Não, não houve nem um bom dia, ou como vai. Foi assim mesmo, na lata a pergunta. E eu expliquei:

- É para a próstata.

- Ah! Entendi! - e sorriu marotamente.

Entendeu nada! Além de não ter entendido a brincadeira, ainda achou que era um substituto do comprimido azulzinho. Por conta disso alugou bastante o meu tempo querendo maiores explicações. E sol queimando!!

- Estou brincando meu amigo! - falei calmamente. O queijo é somente para a minha degustação. Não tem nada disso não! Entendeu?

- Entendi... – respondeu meio desiludido. Deu tchau, e me liberou.

Logo adiante encontro outro amigo. Este foi mais educado, até me cumprimentou.

- Oi, Gabriel, como vai? E este queijo? Foi à feira?

- Não, ganhei da minha irmã, é para gastrite – disse galhofamente.

Ele também não entendeu que eu estava brincando – esta minha mania ainda vai me colocar em apuros, mas enfim... Por mal dos pecados este meu amigo acabara de fazer uma endoscopia que acusou uma infecção por bactérias.

- Puxa Gabriel, bem a propósito, estou com problemas desta ordem – falou todo empolgado, e diante da minha resposta acrescentou com certa esperança: - O tratamento que estou fazendo é caro e longo. Quem sabe se eu comer queijo branco...

Nesta hora interrompi o amigo e expliquei quase que me desculpando:

- O queijo branco não é antibiótico. Pelo contrário, às vezes possui bactérias que produzem infecções. Continue com o seu tratamento.

Despedi-me do amigo e prossegui meu caminho. Estava quase chegando em casa quando um gurizinho esquelético e maltrapilho aproxima-se de mim e diz:

- Moço eu estou com fome. O senhor pode me dar um pedaço deste queijo?

O que fazer diante de uma criança com fome? Nem pensei duas vezes e entreguei o queijo todo ao guri. Sem o queijo, mas feliz, chego em casa. Minha primeira providência foi telefonar para a farmácia, tão minha conhecida, e pedir reforço de medicamentos.

- O “seo” Pedro abusou de chocolate no jogo do Brasil? Indagou o vendedor que sempre me atende – e que conhece o esconderijo dos chocolates do meu irmão.

- Não - respondo. Ele está abusando é do queijo amarelo.

Como todo bom atendente de farmácia, ele também se considera um pouco médico e me alerta:

- Doutor, fala para ele mudar para o queijo branco, é muito mais saudável.

- Pois é, também acho, acontece que eu estava com um nas mãos, mas tive que doar.

- Doou para um diabético mais grave, doutor? – ele perguntou sério.

- Não, foi para uma criança com fome.



*GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT



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