Sexta feira, 24 de novembro de 2017 Edição nº 12572 20/11/2009  










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Chegam songbooks de Pixinguinha e Altamiro

O aspecto mais louvável e interessante do trabalho da Choro Music é de desprender um trabalho de pesquisa incansável em busca da maior fidelidade possível

Lucas Nobile
Agência Estado

Quase sempre trabalhos de resgate da música brasileira têm seu ponto de partida no exterior. Seja por falta de recursos ou de interesse mesmo. O fato é que estrangeiros - ou brasileiros radicados lá fora - voltam olhos e ouvidos para o acervo musical nacional com muito mais respeito do que nosso próprio País. Enquadrada nesses moldes está a Choro Music, editora que acaba de lançar songbooks com partituras de dois monstros sagrados: Alfredo da Rocha Viana, o Pixinguinha, e Altamiro Carrilho.

A editora surgiu em 2007, idealizada pelo flautista brasileiro Daniel Dalarossa, que mora na Califórnia desde 1995. Na época em que se mudou para lá, ele descobriu um verdadeiro mundo de playalongs, que consistem em nada mais do que partituras acompanhadas de discos para os ouvintes poderem ter referências e tentar ‘solar’ as melodias das músicas.

Encantado com aquele universo, Dalarossa encampou uma cruzada para comprar todo material que encontrasse pela frente do gênero aficionado pela obra de Bach e Vivaldi - de cujos compositores o flautista tem diversos playalongs editados -, Dalarossa constatou que as coletâneas disponíveis encerravam basicamente três gêneros, erudito, jazz e bossa nova. Depois de forrar suas prateleiras com os songbooks destinados a seu instrumento, a flauta, ele começou a comprar as edições para estudantes de violino e oboé, que não lhe eram ideais.

Como uma das grandes paixões da vida de Dalarossa sempre foi o choro, não demorou muito para que ele pensasse em fazer a mesma coisa com o gênero brasileiro. "Precisamos gerar material de estudo para a música brasileira, não só para nós, mas para o mundo. Outro dia fui a um concerto nos Estados Unidos e, para minha surpresa, a Orquestra Sinfônica de San Francisco tocou Piazzolla. E fiquei pensando, por que da mesma forma não tocam Pixinguinha? Quem sabe, num futuro não muito distante, poderemos ouvir Carinhoso executado pela Orquestra Sinfônica de São Francisco", diz Dalarossa.

O projeto decolou no fim de 2006, vingando no ano seguinte. Até chegar nos atuais lançamentos, com Pixinguinha e Carrilho, em pouco tempo a Choro Music palmilhou longo caminho, deixando como legado volumes das obras editadas de nomes como Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, Zequinha de Abreu, Chiquinha Gonzaga, o maestro Severino Araújo (da Orquestra Tabajara) e o flautista Joaquim Callado, o "Pai do Choro".

E os anseios de Dalarossa podem não soar como mera utopia ufanista, já que projetos como este tornam possível não apenas a divulgação, mas a compreensão da música brasileira no exterior. Mesmo com as partituras sendo universais, a Choro Music, por exemplo, consegue uma abrangência ainda maior ao disponibilizar um material completo bilíngue (português e inglês) contendo breve biografia dos compositores, histórico do choro e comentários adicionais sobre a execução, a concepção das músicas e a origem dos nomes de cada faixa do songbook.

Um trabalho de pesquisa que, nos casos de Altamiro Carrilho e Severino Araújo, contemplados pela editora, tudo se tornou mais prático, já que os organizadores do projeto puderam contar com a ajuda dos próprios compositores, que estão vivos. "O projeto sobre o Altamiro Carrilho foi muito especial. Porque ele mesmo participou das gravações, determinou como as músicas deveriam ser tocadas, os arranjos, os andamentos, todos os detalhes. Se eu tivesse vivido há 50 anos, provavelmente teria feito o mesmo com Pixinguinha, Benedito Lacerda, Jacob do Bandolim, e muitos outros. O fato de termos feito o trabalho com o próprio autor participando é o que mais me toca", conta Dalarossa.

O aspecto mais louvável do trabalho da Choro Music, além da disseminação da música brasileira no exterior, é de desprender um trabalho de pesquisa incansável em busca da maior fidelidade possível. Como se sabe, os chorões nacionais têm como característica marcante a espontaneidade, tendo criado ao longo dos anos uma cultura de interpretar clássicos do gênero nas rodas de ouvido e de improviso.

Algo que soa bonito e extremamente criativo, mas que em muitas das vezes - em uma espécie de telefone sem fio - faz com que a composição seja modificada com o passar do tempo, afastando-se cada vez mais da partitura original. Lutando justamente pela transmissão de um tema da mesma forma em que ele foi concebido, a Choro Music corre atrás de manuscritos das obras ou das primeiras edições.

Trabalhos como esses levam vez ou outra a gratas surpresas. Foi o que aconteceu com o songbook de Pixinguinha. Durante o processo de levantamento dos originais do compositor em instituições como a Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles, Dalarossa descobriu dois temas inéditos, "Gorjeando" e "Grilando". "Eu não consigo entender por que essas partituras nunca sequer foram impressas. Por que 80 ou 90 anos depois de terem sido compostas, alguém como eu, que nem moro mais no Brasil, vai achá-las intactas, e se dispõe a gravar e editar? Por que ninguém fez isso nos últimos 90 anos? Nem a própria família?", questiona o flautista.

Antes tarde do que nunca. Comemoram o Brasil e os grandes centros consumidores desse material, como Estados Unidos, Europa e Japão, ainda com a perspectiva da Choro Music não se ater apenas aos ícones do choro, mas de publicar também obras de novos compositores. "Queremos fazer esse diálogo entre clássico e contemporâneo", diz Isabella Moura Leite, diretora e produtora executiva da editora.



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