Vida normal para superar deficiência
ALECY ALVES
Da Reportagem
A universitária Pâmela Juara Mendes de Oliveira, 23 anos, formanda do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), é uma jovem que pode ser considerada exemplo de maturidade, amor e dedicação.
Aos 21 anos, na metade da faculdade, ela se tornou mãe do pequeno Vitor Hugo Mendes da Silva, hoje com dois anos. O fato de ser mãe nessa idade e freqüentar uma faculdade não chamaria atenção ou a diferenciaria de tantas outras jovens brasileiras.
Acontece que o pequeno Vitor Hugo é especial, nasceu com microcefalia, deficiência cerebral grave que o manterá na condição de um recém-nascido e eternamente dependente dos pais durante toda sua existência terrena.
A gravidez por si só era suficiente para assustar a jovem, que morava em uma república de estudantes, sem compromissos ou horário para retornar, e tinha um namorado com o qual se relacionava há apenas seis meses.
Pâmela conta que somente aos cinco meses de gestação, por causa de dores pélvicas, descobriu que esperava um filho. Até então, diz, acreditava que a redução do fluxo menstrual era um efeito do contraceptivo que estava fazendo uso. Foi então que ela e o namorado, o policial militar Jocie Júnior Alcântara Silva, de 25 anos, decidiram morar juntos.
Menos de três meses depois, no final do sétimo mês da gestação, a bolsa (placenta) rompeu e teve de ser internada. No hospital, uma ultra-sonografia acusou que o cérebro do seu bebê era menor que o normal.
Uma semana depois, aos oito meses de gravidez, Vitor Hugo nasceu de parto normal e, com ele, veio a confirmação do diagnóstico da doença. A partir de então a vida dela mudou.
Ainda no hospital, Pâmela, com a ajuda do marido que pesquisava e a abastecia de informações, começou a conhecer a deficiência do filho. Paralelamente, acompanhava a luta do menino pela vida. Prematuro e com vários problemas de saúde, Vitor Hugo permaneceu 30 dias na UTI entre a vida e a morte.
Enquanto isso, a família se unia em torno do pequeno menino. Pâmela e o marido receberam o apoio dos pais, irmãos e outros parentes, e de amigos da universidade.
Mesmo com todo esse apoio, a universitária conta que teve muito medo de não dar conta de cuidar do filho. Entretanto, Vitor Hugo se recuperou e ao completar três meses, lá estava ele, na sala de aula com a mãe e rodeado pelas colegas da faculdade.
A partir daí, a presença do garoto se tornou comum na sala da UFMT, além das festas das famílias e amigos do casal, nos passeios no shopping, nos banhos de cachoeira e até nas pescarias.
Pâmela tem na sogra, dona Cirlene José de Alcântara, de quem é vizinha, seu principal ponto de apoio nos cuidados com o filho. Dona Cirlene chegou a sair do emprego para ajudar a cuidar do neto, para que a nora pudesse continuar na faculdade.
No auge da juventude, Pâmela e o marido decidiram tentar levar uma vida o mais próximo possível do normal com o filho, apesar das limitações da criança. Aos dois anos, Vitor sequer se senta sozinho, não fala, come somente papinhas (todos os tipos de alimentos, mas amassado ou batido no liquidificador).
Aos 12 meses, relembra a mãe, ele deu o primeiro sorriso, um momento de grande felicidade. Hoje, ao contrário da maioria das jovens de sua idade, quando retorna para casa só pensa em pegar o filho no colo e abraçá-lo.
“Ele entende, sorri porque sabe que quando chego ficará no colo”, diz, observando que nem imagina sua vida sem o filho Vitor. “Antes, eu não tinha outra razão para viver se não a minha própria vida, agora primeiro penso nele”, diz. A universitária e o marido planejam ter mais dois filhos.
ABAIXO DA MÉDIA - Na microcefalia, a cabeça da criança tem o tamanho (correspondente à distância ao redor da parte superior da cabeça) significativamente abaixo da média, quando comparada a crianças da mesma idade e do mesmo sexo. Isso significa que a cabeça é o equivalente a três desvios-padrão menores do que a média, ou seja, tem menos do que 42 centímetros de circunferência no crescimento completo.
A microcefalia se deve, com freqüência, à incapacidade de o cérebro crescer em velocidade normal. O crescimento do crânio é determinado pela expansão do cérebro, o que acontece durante o crescimento cerebral normal. Condições e doenças que afetem o crescimento do cérebro são responsáveis pela microcefalia. Na grande maioria está associada a retardo mental de grau bem elevado.
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