Sábado, 18 de novembro de 2017 Edição nº 12338 08/02/2009  










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Dom Quixote ganha adaptação em quadrinhos

Novo colaborador estreia analisando um dos maiores clássicos literários que foi adaptado para a linguagem das histórias em quadrinhos

Bendito Gonçalo
Especial para o DC Ilustrado

Seguramente dos maiores romances do cânone ocidental, para muitos críticos, inventor inclusive da forma e da técnica do gênero e, devido a isso, insuperável, Dom Quixote acaba de receber adaptação para a nona arte. E adaptação de alto nível, convém ressaltar. Em um volume poderoso, ao texto irrepreensível de Miguel de Cervantes Saavedra, uniu-se traços e roteiro de Bira Dantas; sua escolha por buscar referência e inspiração no francês Gustave Doré, maior ilustrador de clássicos do século XIX, e no espanhol Francisco de Goya – para muitos, os maiores precursores da atual linguagem pictórica aplicada às HQs – foi um tiro certeiro.

Dono de larga experiência em produção quadrinística – ele desenhou vários números da revista dos “Trapalhões” em sua primeira fase, produziu HQs para os sul-coreanos e adaptou “Memórias de Um Sargento de Milícias”, de Manoel Antônio de Almeida, entre muitos outros trabalhos ––, Dantas encarou o desafio de apresentar sua versão da história do cavaleiro da triste figura, sonhador contumaz que se perdeu ao dedicar parte considerável de sua vida aos relatos de cavalaria e feitos heróicos da mitologia. De traço exagerado habitualmente, desta vez preferiu se conter e adequar-se às suas principais sombras inspiratórias, talvez para distanciar-se da obra de Caco Galhardo (Editora Peirópolis, 48 páginas, R$ 26), que adaptou o mesmo romance para os quadrinhos em 2005. Vale a pena ler as duas, caro leitor, elas são absolutamente distintas entre si.

A história propriamente dita – caso você tenha cometido o crime de ainda não ter lido o livro (não, não é arrogância minha, é falha sua mesmo) – trata em primeiro plano da vida de um certo fidalgo empobrecido chamado Alonso Quijano e seu amigo e vizinho Sancho Pança. O primeiro é alucinado por muito ler e pouco comer e dormir, o segundo vive a tentar tirar o amigo desse labirinto pré-cognitivo. Completamente tomado por sua própria imaginação, Quijano elege como favorita a pobre, feia, analfabeta e desdentada Aldonça, de Toboso; para o agora Dom Quixote de La Mancha, uma princesa donzela e formosa de nome Dulcinéia Del Toboso. Como meio de tornar-se merecedor das boas graças de tão elevada senhora, resolve lançar-se ao mundo para combater monstros, tiranos e toda espécie de injustiça. Pouco se importando com o deboche e a negação de todos à sua volta, elege Sancho seu escudeiro e toma para si sucata a servir de armadura e um pangaré como corcel indômito.

E é a partir daqui que o livro mostra o motivo de ter se tornado clássico absoluto. Em um tempo em que psicanálise, subconsciente e outros conceitos hoje clichês não eram sequer sonhados, Cervantes opõe Quixote e Sancho sucessivamente como desvario e prudência, alucinação e raciocínio, descontrole e freio, coração e espírito. Como sonhar e não dormir é mesmo ofício de loucos, Quixote vive a trocar os pés pelas mãos e a desgraçar tudo o que se mete a realizar. E como dito anteriormente, isso é só o primeiro plano do enredo, pois há ainda várias histórias paralelas, todas eivadas de um sentido trágico ao mesmo tempo em que carregadas de tom cômico.

Após receber o tratamento habitual reservado por este mundo aos que ousam desafiar sua lógica de traições e vaidades feridas, Quixote é agredido repetidas vezes, inclusive fisicamente, e a dura lição a ser aprendida é justamente essa: se você vai se meter a ter ideais ou honra, é bom também acostumar-se a vê-los ruir. Todos, bons ou maus, falsos ou verdadeiros, intensos ou frouxos, vão ocupar a mesma vala comum e sufocar na mediocridade da rotina, este monstro que assassina individualidades e cria bestas ambiciosas. Assim sempre foi e assim sempre será, não importa o século ou milênio. A humanidade, meu amor, não vai mudar nunca.



SERVIÇO

“Dom Quixote em Quadrinhos”, adaptação do clássico de Miguel de Cervantes pelo roteirista e ilustrador Bira Dantas. Editora Escala Educacional, 85 páginas, R$ 23,90. Pode investir suas lascas numa boa, vale cada centavo.



*Benedito Gonçalo é cuiabano, funcionário público aposentado recentemente e colabora com o DC Ilustrado.



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