Quarta feira, 16 de janeiro de 2019 Edição nº 12300 21/12/2008  










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Egberto Gismonti na voz de Jane Duboc

Intérprete dedica álbum inteiro ao trabalho de fera da música instrumental brasileira

Lauro Lisboa Garcia
Da Reportagem

Embora tenha sido gravado por Elis Regina, Olivia Byington, Ná Ozzetti, Wanderléa e até Maysa, Egberto Gismonti é pouco conhecido como cancionista. Jane Duboc, que começou a carreira profissional com ele, agora dedica um álbum inteiro a essa parte da obra do músico, consagrado pela fenomenal produção instrumental. "Canção da Espera - Jane Duboc Canta Egberto Gismonti" (Biscoito Fino) é o primeiro de uma seqüência de outros projetos na mesma linha.

Gismonti prepara um álbum em parceria com Olivia Byington só cantando parcerias dele com Geraldo Carneiro que nunca foram gravadas. A cantora britânica de jazz Norma Winstone, outra colaboradora antiga de Gismonti, também está prestes a lançar seu songbook.

Enquanto isso, Jane, dona de um extenso currículo discográfico como Gismonti, também não pára. "Estou acabando o CD em homenagem a Ella Fitzgerald que fiz com Victor Biglione e já estou com idéia de fazer um outro", diz a cantora, que deve fazer os shows de lançamento de "Canção da Espera" só a partir de março de 2009. De cerca de 60 títulos que Gismonti reuniu para ela, Jane escolheu 12. "Nem os músicos que trabalham há muito tempo com ele sabiam que ele tinha tantas canções", diz a cantora, que lembra o início da carreira com Gismonti.

"Luiz Eça fez os arranjos de um compacto que gravei com Raul Seixas. A música era Pollution, e eu falava de poluição, de anestesia. O Dops (Departamento de Ordem Política e Social) ameaçou me prender, aí eu, muito rebelde na época, resolvi fazer scat singing, sem letra. Raul já era meio doido também, e a gente fez o trabalho tudo com compasso assimétrico. Aí Luiz Eça mostrou pro Egberto, que era seu amigo. Ele quis me conhecer e me chamou pra trabalhar com ele", lembra.

Na seqüência os dois fizeram shows juntos, que abriam com Jane cantando Sonho, do álbum "Sonho 70". "Não gravei agora, mas talvez faça nos shows. Era uma música linda", recorda Jane. "Quando resolvi fazer o disco, pensei em ´Água e Vinho´, ´Ano Zero´, ´Janela de Ouro´, ´Parque Lage´, músicas que marcaram minha vida", diz. A cantora pretendia até gravar o CD em dupla - como fez nos belos projetos com Zezé Gonzaga, Sebastião Tapajós e Arismar do Espírito Santo -, mas os dois chegaram a um acordo e decidiram pela não participação de Gismonti. "Quis colocar a minha impressão sobre a música dele, lá do fundo do meu coração. Como ele é muito forte, se fizesse comigo ficaria um disco dele. Pra mim ele é um dos monstros sagrados da música. É de uma musicalidade muito absurda, em termos de melodia, de harmonia", diz a cantora.

"O disco é uma beleza", elogia Gismonti. "E ela acabou entendo porque eu não quis participar. A razão era simples: sou viciado nessas músicas e se entrasse ali virava um trator. Ia passar em cima de tudo e atrapalharia as idéias dela", justifica. "Já tive essa experiência na vida, quando fiz produção e arranjo pra um monte de gente, como Marlui Miranda, Wanderléa, Johnny Alf. Não diria que estraguei os discos, mas tirei um pouco a individualidade de cada um deles. Por inexperiência, acabava não respeitando os limites que o dono do disco queria. As idéias que Jane tinha para o disco dela não eram as mesmas que eu tinha, mas eram muito boas e eu não iria fazer direito o que ela queria "

Jane chamou três arranjadores - Gilson Peranzzetta, Fernando Merlino e Lula Galvão - e conta com as participações dos amigos Pery Ribeiro e Olivia Byington e do filho Jay Vaquer, que fazem duos vocais com ela em "Janela de Ouro" (´A Traição das Esmeraldas´), "Sanfona" e "Ano Zero", respectivamente. O outro convidado é Hamilton de Holanda, que toca bandolim em "Memória e Fado".

A cantora montou uma espécie de roteiro sentimental para o CD, que começa introspectivo com a faixa-título, "Quatro Cantos", "Memória e Fado" (todas com letras de Geraldo Carneiro, que assina os versos de 10 das 12 faixas ) e "Sanfona" (letra de João Carlos Pádua). É uma seqüência de grande beleza e melancolia, que "vai ao fundo do poço, nas trevas de ´Água e Vinho´", como ela diz. "Mas a partir de ´auto-retrato´ as coisas caminham "para um futuro de esperança", encerrando o percurso com "Saudações" (versos de Paulo César Pinheiro) e a celebrativa "Feliz Ano Novo" (mais uma letra de Carneiro). É uma espécie de "retratos da vida" com seus altos e baixos.

As fotos da capa e do encarte foram feitas em Belém do Pará (terra natal da cantora), mais especificamente na Ilha do Mosqueiro. "É um lugar bucólico, cheio de quintais verdadeiros. Tem muito a ver com a solidão e com o que está dentro do disco", diz a cantora, que interpreta as canções com naturalidade e sutileza peculiares. "O que mais me deu alegria é que o Egberto gostou muito."



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