Lucas, um menino levado e com ouro
Em passagem por Rondonópolis, Lucas Prado fala sobre cegueira, esporte, família, amigos e o futuro na vida esportiva
EVILÁZIO ALVES
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| | Lucas Prado, em coletiva concedida na sede da Amaggi, ao lado de Lúcia Borges Maggi e Pedro Jacyr Bongiolo |
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EDUARDO GOMES
Da Reportagem
Menino levado. Assim se intitula Lucas Prado ao recordar a infância em Rondonópolis, quando tinha visão perfeita. A adolescência também foi alegre. Em 2002 a felicidade cedeu lugar a um período de dor, revolta, sofrimento e indignação. Naquele ano o medalhista sofreu descolamento das duas retinas. Perdeu a visão. Entrou em depressão. Passou a beber. Sua força interior e o apoio familiar o devolveram à condição de levado, não mais de menino, mais de jovem, no melhor sentido da frase. Levado para vencer a vida, ganhar o mundo e ser o melhor atleta em sua modalidade esportiva.
“Quando estiver no pódio não vou poder falar, mas vou me lembrar de vocês”. Esse foi o recado deixado antes do embarque para a China, pelo velocista cego Lucas Prado ao Grupo André Maggi, que o patrocina. Essa revelação feita ontem, numa coletiva, pelo próprio autor da frase, mostra sua gratidão pelo apoio recebido e que lhe abriu caminho para três ouros nos Jogos Paraolímpicos de Pequim.
Lucas era funcionário de uma empresa terceirizada do Banco do Brasil em Rondonópolis. Uma semana antes de perder a visão ajudou um cego no caixa eletrônico de sua agência. Quando deixou de enxergar lembrou-se daquele deficiente visual.
Em 2004 Lucas conheceu o futebol de cegos em Cuiabá. Pegou gosto pelo esporte, mas descobriu que sua vocação apontava para as pistas de atletismo. Não hesitou. Antes, porém, freqüentou a Associação Rondonopolitana dos Deficientes Visuais. Na entrevista agradeceu ao governador Blairo Maggi pela sede doada pelo governo àquela entidade.
Quando tinha visão Lucas era cercado por amigos. Cego se viu com um grupo reduzido de pessoas a seu lado. Não guarda mágoa por isso, “conhecidos a gente tem muitos; amigos mesmo, poucos”, observa.
Superado o trauma da perca da visão, Lucas ironiza que agora conhece os dois lados da moeda. Quanto a seu guia, Justino Barbosa, o chama de amigo e companheiro de profissão. Destaca que graças ao patrocínio que recebe tem condições de pagar Justino. Revela que os dois discutem sempre que alguma coisa dá errado.
Para Lucas, o atleta deficiente é normal, mas reconhece que alguns exercícios são adaptados. Os treinamentos fazem parte do cotidiano do atleta e ele não se descuida fisicamente. Sabe que qualquer problema de saúde compromete o rendimento. “Quando fomos para Pequim passamos uma temporada de adaptação em Macau, onde peguei uma forte gripe, que batizei de “paraolímpica” e isso me abalou”, revela.
O futuro para Lucas é sempre a próxima prova. Com três medalhas de ouro em Pequim, principal campeão do atletismo nos jogos paraolímpicos do Pan no Rio de Janeiro, sua próxima escala será em Fortaleza para o Circuito Brasileiro Paraolímpico. Antes disso aproveita para curtir a vida em família ao lado da mulher Janaína, e dos familiares em Rondonópolis, onde fica até o domingo.
Ontem, Lucas Prado teve um dia de intensa movimentação em Rondonópolis. Percorreu ruas num caminhão aberto do Corpo de Bombeiros, conversou com jornalistas e ganhou mimos da avó Terezinha, da mãe Anália e de outros familiares que residem no Jardim Assunção.
A coletiva foi prestigiada pela presidente do Conselho Deliberativo do Grupo André Maggi, Lúcia Borges Maggi; pela presidente da Fundação André Maggi, Fátima Maggi; e pelo presidente do Grupo, Pedro Jacyr Bongiolo.
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