Sexta feira, 03 de setembro de 2010 Edição nº 12192 17/08/2008  










GUSTAVO OLIVEIRAAnterior | Índice | Próxima

Mestre Dorival Caymmi

Ontem quando me dirigia para o jornal pensava em escrever uma crônica sobe os nadadores Michael Phelps e César Cielo Filho, no carro ouvia Dick Farney cantando Marina, de Dorival Caymmi. Quando chego à redação recebo a notícia de que o grande Caymmi havia morrido.

Imediatamente lembrei-me de Chico Buarque que foi quem — há mais de uma década — deu o melhor diagnóstico: "contra fel, moléstia, crime, use Dorival Caymmi". Mestre dos mestres, o baiano Dorival Caymmi morreu aos 94 anos e deixando o país que acabara de ganhar uma medalha de ouro em Pequim mais triste. Todos reconheciam a amplitude da obra — como o mar que ele tão bem cantou — não pela extensão, mas principalmente pela consistência e pela perenidade.

Caymmi foi quem deu régua e compasso para todas as gerações posteriores. Antecipou a bossa nova de Tom Jobim, João Gilberto e do contemporâneo Vinicius de Moraes, foi tropicalista muito antes de qualquer definição lançada por Caetano Veloso e Gilberto Gil, e aproximou o samba baiano (mais dolente e cadenciado) do seu similar carioca (mais rítmico e percussivo). Sua interpretação impregnada de brasilidade serviu de passaporte para Carmen Miranda entrar nos Estados Unidos e conquistar o público americano ensinando o que é que a baiana tinha.

Nascido em Salvador, em 30 de abril de 1914, filho de Durval Henrique Caymmi e Aurelina Cândida Caymmi, Caymmi interrompeu os estudos aos 16 anos, indo trabalhar no jornal O Imparcial. Quando o jornal fechou, já arriscava algumas composições e se apresentava na Rádio Clube da Bahia. Em 1936, venceu o concurso de músicas para o carnaval, com A Bahia Também Dá e, dois anos depois - sem escutar o que mamãe dizia —, decidiu se mudar para o Rio, onde chegou de navio (um dos "Itas"). Em 1940, casou-se com Adelaide Tostes, a cantora Stella Maris, que conheceu num programa de calouros na Rádio Nacional. Tiveram três filhos músicos Dinair (Nana - 1941), Dorival (Dori - 1943) e Danilo Cândido (1948).

Apresentado por Almirante e Ataulfo Alves, lançou com Carmen Miranda seu primeiro sucesso, O Que É Que a Baia­na Tem?. Em setembro do mesmo ano, repetiu a dose com Rainha do Mar e Promessa de Pescador, passando a atuar como contratado da Rádio Nacional. Comporia logo a seguir outros dois clássicos: O Mar e O Samba da Minha Terra. Em 1941, foi a vez de É Doce Morrer no Mar, em parceria com Jorge Amado, a partir dos versos do romance Mar Morto. Dessa época são ainda as músicas Você já foi à Bahia?, Vatapá e Rosa Morena. Seus sucessos continuaram se acumulando nos anos 40: Dora, Marina e Sábado em Copacabana.

Em 1957, gravou Saudades da Bahia, por sugestão de Aloísio de Oliveira. O disco bateu recordes de vendagem e fez com que Caymmi se aproximasse da bossa nova. Em 1964, apresentou-se com Vinícius de Morais, além de ter sido gravado por Tom e João Gilberto. Entrou nos anos 70 retomando a parceria com Jorge Amado em Modinha para Gabriela, na novela Gabriela.

Passou as últimas três décadas compondo de maneira cada vez mais sazonal. Já era uma entidade, merecedor de todas as homenagens e admirado por fãs de várias gerações. Durante esse período, excursionou pela Europa, se apresentou em shows coletivos e participou de turnês ao lado dos filhos.

As homenagens se ampliaram em 2004, com as comemorações do 90º aniversário, ressaltando o talento de um artista que, por compreender as peculiaridades do samba, soube como tirá-lo do regional e sofisticá-lo. E aí a sofisticação não era aparente, ficando às vezes até imperceptível, fazendo de Caymmi um autor único, que conseguia criar uma obra que aproximava a tradição da modernidade.



GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de Redação do Diário



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