Sexta feira, 03 de setembro de 2010 Edição nº 12099 29/04/2008  










JOSSILENE SILVAAnterior | Índice | Próxima

Tenho vergonha de mim

Faço do título acima as minhas palavras iniciais para fazer jus ao desabafo proferido pela escritora Cleide Canton que utilizou a célebre frase de Rui Barbosa ao sentenciar que: “de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude; a rir-se da honra; a ter vergonha de ser honesto!”.

Conduz-nos a uma reflexão por demais contemporânea e que nos toca profundamente a alma, pois deságua no sentimento mais profundo de repugnância e insensatez que predomina em toda parte, e principalmente nos porões de nosso cotidiano e que precisa vir à baila para demonstrar que esse desabafo fez eco em muitos omissos e mentirosos que grassam a rodo nos dias atuais, principalmente por presenciar inverdades nos arraiais religiosos onde jamais poderia eu, na minha santa ingenuidade, imaginar existir! Diz ela:

“Tenho vergonha de mim! Por ter sido educador de parte desse povo; por ter batalhado sempre pela justiça; por compactuar com a honestidade; por primar pela verdade; por ver este povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim! Por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser; e ter que entregar aos meus filhos simples e abominavelmente a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez, do julgamento da verdade. A negligência com a família, célula-mater da sociedade. A demasiada preocupação com o Eu que visa a qualquer custo buscando a tal felicidade em caminhos eivados de desrespeito para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim! Pela passividade em ouvir sem despejar meu verbo a tantas desculpas ditadas pelo orgulho, vaidade, para reconhecer um erro cometido. A tantos floreios para justificar atos criminosos. A tantas relutâncias de esquecer antigas posições de sempre contestar, voltar atrás e mudar o futuro.

É, tenho vergonha de mim! Que faço parte de um povo que não reconheço. Enveredando por caminhos que eu não quero percorrer. Eu tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho pra onde ir, pois eu amo, eu amo este meu chão, vibro ao ouvir meu hino, Jamais usei minha bandeira para enxugar o meu suor, ou enrolar o meu corpo da pecaminosa manifestação de nacionalidade. Ao lado da vergonha de mim tenho pena, tanta pena de ti povo brasileiro!”

Fico a pensar por que O Mestre Nazareno fixou a sentença que é citada a toda hora por qualquer cristão: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Mas que verdade está a falar, ó, Mestre? É sabido que podemos enganar por um bom tempo as pessoas e encobrir determinados fatos e sentimentos, mas um dia a máscara cai, posto que a verdade não tem prazo de vencimento, principalmente por já entendermos que quando apaixonado e desmedido, o zelo obscurece a razão. Toda imposição e mentira em matéria religiosa revelam fanatismo, daí porque o ilustre Codificador, transmitindo o pensamento de Erasto, sentenciou que “é preferível rejeitar nove verdades, do que aceitar uma mentira”. Mas isso parece não fazer eco nos corações daqueles que deveriam honrar suas vidas doutrinárias e pessoais, jungindo a prática com o discurso a fim de tornar um só elo, um só proceder.

Mas já aprendemos, a duras penas, que isso não importa quando temos os nossos procederes leal e altaneiramente atentos com os ensinos religiosos e que venham a coadunar com a real prática, em busca de valores que o ladrão não rouba e a ferrugem não corrói.

Não importa se muitos, ou a maioria não queira enxergar a verdade, mas o que conta, o que importa, realmente, é a paz de espírito, a consciência tranqüila e a vontade de permanecer imune à chamada mosca azul, que trás a cegueira e o cabresto.

As preocupações superficiais do mundo chegam conosco - quando nascemos, educam - quando palmilhamos a nossa jornada na verdade, e passam - quando a desencarnação nos arrebata, posto que as ações são de nossa responsabilidade e o julgamento não nos pertence, e de outro lado ninguém irá nos perguntar que cargo ocupamos, que religião professamos; mas com certeza irão nos perguntar, quantas mentiras foram perpetradas posto que o testemunho continua sendo individual e eterno!



* JOSSILENE SILVA é advogada, mediadora e voluntária da Associação Médica-Espírita de Mato Grosso



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