Sábado, 20 de abril de 2019 Edição nº 9792 26/11/2000  










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Dez anos depois, Matupá tenta esquecer chacina

Após uma década e 2 mil páginas de processo, ninguém foi punido


Moradores observam os três bandidos sendo queimados ainda vivos: 15 minutos de agonia sob as chamas
JOANICE PIERINI LOUREIRO
Da Reportagem

É curto o tempo que separa a vida de um homem da morte. Você vai levar aproximadamente 15 minutos para ler esta matéria. Este foi o tempo que Osvaldo Bachinan, 32 anos, agonizou sendo queimado vivo em Matupá (686 quilômetros ao norte de Cuiabá), no dia 23 de novembro de 1990, há 10 anos. Você lê esta matéria com tranqüilidade, e não é capaz de sentir o que ele passou. Quem assistiu as cenas da morte – gravadas em parte numa fita de VHS - também estava tranqüilo antes de ver as imagens de Osvaldo pedindo perdão. Será que as pessoas que atearam o fogo e não o socorreram estão tranqüilas agora?

Os 15 minutos finais da vida de Osvaldo e dos irmãos Ivacir Garcia dos Santos, 31 anos, e Arci Garcia dos Santos, 28 anos – que também foram queimados vivos – são o início de um episódio jurídico que continua esperando por solução. A “Chacina de Matupá”, como ficou conhecida a tragédia, completou 10 anos essa semana sem que ninguém tenha sido punido até agora. Na cidade de Matupá é coletivo o sentimento da população que não fala sobre o linchamento e prefere enterrar, como cinzas, este episódio que chocou o país.

“Deste assunto a gente não gosta de falar. A cidade já sofreu demais e agora está superando. Seria muito bom se vocês (jornalistas) ignorassem esse assunto”, disse Heleni Mazzonetto, por telefone, essa semana. Heleni, juntamente com outra mulher que estava grávida e mais quatro crianças, ficaram sob a mira dos revólveres dos assaltantes cerca de 15 horas. Jornais da época descrevem que Ivacir, Arci e Osvaldo entraram na casa da família Mazzonetto por volta das 18h do dia 22 de novembro, na tentativa de roubar ouro e jóias.

O caso até poderia ter caído no esquecimento não fosse uma fita de VHS gravada pelo cinegrafista amador Lenon José Durrewald, que registrou parte das negociações com os seqüestradores, e o linchamento. A fita correu o Brasil e o mundo em 1990. Parte das imagens foram veiculadas na Rede Globo. Cópias foram distribuídas para a Anistia Internacional e a rede americana CNN também as veiculou. O Diário teve acesso a uma cópia que faz parte do arquivo do Centro de Defesa dos Direitos Humanos Henrique Trindade, de Cuiabá.

Um processo civil, na Comarca de Peixoto de Azevedo (692 quilômetros ao norte de Cuiabá) e outro militar, em Cuiabá, tratam do assunto. São três os denunciados no processo militar, e 18 no civil. Este número, considerado acima da média dos processos normais, acaba por tornar a tramitação lenta. Com mais de 10 volumes, o processo já conta com 2 mil páginas. Entre os denunciados está José Antônio Correa, atualmente vereador em Matupá. O Diário tentou contactá-lo por telefone, mas não conseguiu.

No dia 9 de fevereiro de 1998 a Justiça determinou que estes 18 denunciados devem ir a júri popular. Uma parte dos acusados protestou contra a decisão, impetrando recurso no Tribunal de Justiça. Outros aguardam que o Ministério Público arrole testemunhas, para que depois a defesa também o faça. Em seguida deve acontecer o julgamento.

Entre os denunciados do processo militar, que tramita no Fórum Criminal de Cuiabá, está o coronel Edyr Bispo dos Santos, principal negociador do seqüestro que antecedeu o linchamento. Edyr foi promovido três vezes nestes últimos 10 anos, e hoje é diretor de Ensino no Comando Geral da Polícia Militar. Essa semana, em entrevista ao Diário, Edyr disse que o linchamento aconteceu porque a polícia não tinha estrutura para conter a população.

“Já tínhamos entregue os assaltantes à Polícia Civil. Só estávamos fazendo a escolta”, lembra. O coronel afirma ainda que o episódio acabou por sujar a sua imagem, assim como a da PM. “Também fomos vítimas. Foi um crime de multidão, e nesses casos não há um responsável”, acredita.

TESTEMUNHAS - Testemunhas-chaves da chacina já morreram, ou não podem ser localizadas facilmente. O cinegrafista Lenon José Durrewald, que fez as imagens, já não mora mais de Matupá. O então prefeito, Adálio Martins – que foi trocado pelos reféns durante a negociação – já não mais na cidade. A irmã Adelis Schoan, uma alemã que veio participar de projetos missionários no Brasil e também negociou com os assaltantes, morreu há cerca de dois anos. O delegado titular do caso, Osvaldo Florentino Leite Ferreira, também morreu, há sete meses.

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Leia trechos do depoimento do cinegrafista


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· OLA eu acho que foi feito o certo porqu  - antonio silva de sousa
· Deixa queimar.  - Deabo
· Nem sabia que isso tinha ocorrido, mas n  - André Luiz
· A vingança só pertence à Deus.  - Kurumin
· Você que colocou gasolina e tacou fogo,   - Ventania
· Foi um crime monstruoso, talvez naquele   - Werley
· Gostaria de saber se os familiares das t  - Yunes
· E se fosse o contrário, será que teria t  - Cláudio
· eu teho essa fita,é horrivel,so assisti   - keven
· O coronel Edyr mentiu ao dizer que a pol  - Arnaldo Vidigal




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