Quarta feira, 22 de maio de 2019 Edição nº 11919 16/09/2007  










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Como se fosse um casulo na garganta

Rakushisha, novo romance de Adriana Lisboa, viaja ao Japão e nos traz todos os pequenos milagres tão comuns à prosa da autora, que evoca o esteta do hai-kai, Matsuo Bashô

André de Leones
Da Reportagem

Na literatura de Adriana Lisboa, tem-se a impressão de que tudo se torna tangível, palpável, à medida que lemos e nos entranhamos em seus livros. Seu estilo pontua a narrativa com imagens que são quase-sustos, pequenos milagres de construção verbal, e em Rakushisha (Rocco, R$ 24,00), romance lançado há pouco, não é diferente.



Tudo, nesse livro notável, soa totalmente estranho e, ao mesmo tempo, totalmente familiar. Fiel à idéia de construir um texto que não precise falar demais, Lisboa dialoga com a obra de Matsuo Bashô (1644-1694), esteta do hai-kai, e parece estar sempre se referindo a algo que não está exatamente ali, mas alhures, ciente de que o texto, por si só, é incapaz de dizer e de abarcar tudo.



“Rakushisha”, a “Cabana dos Caquis Caídos”, era a casa do poeta Mukai Kioray, nos arredores de Kyoto, onde Bashô se hospedou por três vezes no decorrer de sua vida. Em uma dessas vezes, escreveu Saga Nikki, o Diário de Saga. Rakushisha, o romance, é construído sobre três eixos: o diário de Bashô e dois personagens contemporâneos, Celina e Haruki. Haruki, brasileiro de ascendência japonesa, ocidentalizado, mesmo desenraizado, é convidado a ilustrar uma edição do Diário de Saga. Em busca de inspiração para seus traços, viaja para o Japão. Num impulso, leva consigo Celina, uma mulher que acabou de conhecer.



Descrita como um “pedaço de céu recoberto pela fina epiderme humana”, um “pedaço de céu quase humano”, dona do sorriso mais triste vislumbrado por Haruki em muito tempo, Celina é uma mulher alquebrada, que sofreu duas perdas terríveis de uma só vez. Haruki, por sua vez, está na incômoda situação de se confrontar com suas raízes orientais, às quais nunca deu atenção, e de embarcar em um projeto por indicação de alguém (a tradutora do Diário de Saga para o português, Yukiko Sakade) com quem teve um envolvimento amoroso.



Trechos do diário de Bashô se alternam com passagens do diário de Celina e com um narrador em terceira pessoa. Fluida, a narrativa vai e volta no tempo, reitera passagens, conta a mesma coisa de diferentes maneiras, ou aos poucos e de forma descontínua, mas nunca soa hermética, travada ou complicada. Tudo está ali, ao alcance dos olhos e da sensibilidade do leitor, mesmo à flor da pele, e a sentimentalidade de Adriana Lisboa, sempre contida, na medida certa e viscosa de uma tristeza mais do que nunca ancestral, torna o romance de uma beleza ímpar.



Para citar um pequeno trecho do livro, a voz de Adriana Lisboa é como “um casulo de borboleta dentro da garganta, operando alguma espécie de transformação interna.” De fato, nada em Rakushisha é gratuito ou gritado, mas, sim, de um silêncio leve, melancólico, o “latido suave de um coração feito de palavras estranhas, estrangeiras” e, por isso mesmo, plenamente reconhecíveis – mesmo do outro lado do mundo ou no oco de cada um de nós.



*André de Leones é escritor e colabora com o DC Ilustrado (http://aleones.wordpress.com/ )



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