Terça feira, 18 de dezembro de 2018 Edição nº 11919 16/09/2007  










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A arte de Wander Antunes

Quadrinista mato-grossense fala de sua trajetória, suas preferências e avalia as dificuldades para se produzir cultura no contexto estadual

Lorenzo Falcão
Da Editoria

O roteirista e desenhista Wander Antunes, que veio para Mato Grosso aos dezesseis anos já se julga no direito de se dizer mato-grossense. E cuiabano. Nasceu em Jataí (GO), mas sua folha de serviços prestados por aqui já justificam a adoção.

É o tipo de sujeito que nunca se cansou de correr atrás. “Vôte” e “Estação Leitura” são publicações de sua autoria que fizeram sucesso por aí. Essa última era distribuída massivamente nos pontos de ônibus e outros locais públicos e oferecia ao povão opções de leituras de autores regionais, além de poesia e histórias em quadrinhos também. Dava gosto ver a galera lendo a Estação Leitura nos pontos de ônibus ou dentro dos coletivos.

Atualmente, o artista vem abrindo espaço nos mercados nacional e internacional, já que as coisas por aqui nem sempre acontecem como se espera. Vem publicando com algumas editoras européias nos últimos anos e também fechou há pouco tempo com a editora brasileira, Ediouro, que publicou várias estórias de Zózimo, personagem criado por Wander. Na entrevista abaixo Wander fala um pouco de sua trajetória e dá alguns pitacos em torno do contexto cultural mato-grossense. Com a experiência que tem e a rica contribuição cultural que vem oferecendo nos últimos anos, Wander Antunes é um cara que merece ser ouvido.







Com quantos anos Wander Antunes começou a se interessar pelas artes e como foi que a HQ entrou em sua vida?



Na minha idade, tenho 41, já não dá pra lembrar de como as coisas começaram. O fato é que os quadrinhos sempre estiveram por perto. Como a escola do meu tempo era radicalmente contra as HQs, elas tinham mesmo que se transformar num objeto de desejo da criançada, né? Não sei qual o mecanismo mental, mas acho que a gente pensava que se a escola, essa coisa tão chata e castradora, diz que algo é ruim, que algo é errado, que é coisa do cão, então esse negócio deve ser muito bom!! E lá íamos nós atrás das revistinhas.



Imagino que da HQ para a literatura foi um processo natural...



Sim. Mas a HQ não deve ser vista somente como um passo inicial, um treinamento para experiências mais nobres como a literatura – há histórias em quadrinhos muito boas, com uma qualidade literária que não está presente em qualquer livro não. Mas elas podem ser um bom passo inicial sim.



Sua produção atual parece ter uma pegada mais literária do que visual. Você escreve mais roteiros e ficção do que desenha. Será que Wander Antunes estaria migrante para a literatura? Escrever tem lhe dado mais prazer do que desenhar?



Estou onde sempre estive: contando histórias. Me é indiferente se o recurso é só a palavra ou se ela vem acompanhada de imagens seqüenciadas. Tudo dá prazer e tudo dá um trabalho danado.



E seu tesão pela literatura, aliás, nunca foi segredo. Fale sobre suas preferências, obras, autores, poesia, prosa etc...



Vivo muito na órbita da prosa, não sou um apaixonado pela poesia. O que não quer dizer que não aprecie um Carlos Drummond de Andrade, um Mário Quintana, um Walt Whitman ou os nossos Aclyse de Mattos e Lucinda Persona... Agora paixão mesmo é pela prosa. Acho que tudo do Nelson Rodrigues merece ser conhecido, ele mostra claramente quem somos e o que somos. Rubem Fonseca, nos contos, também é incontornável. Mas a lista e longa: Ernest Hemingway, Ricardo Guilherme Dicke (autor da melhor cena da literatura que eu conheço, tá lá no final de Caieira), John Steinbeck (o autor da segunda melhor cena, a que aparece no final de Vinhas da ira. Tão boa e tão ampliadora da idéia do que seja família que condenou muitas cópias do livro à fogueira), Jack London, Mark Twain e tantos outros.



Você está publicando já há algum tempo na Europa. Recapitule aos nossos leitores essa trajetória internacional: como ela começou e como a gente faz pra obter essa publicação?



O negócio é rodar a bolsinha. Tem, falando sério, que ter produção e oferecer essa produção. É que nem vender soja. Basicamente o que fiz foi traduzir minhas histórias e enviá-las para editores de tudo quanto é lugar. O editor europeu, sobretudo o francês, parece muito interessado em ler as propostas que lhe são enviadas. Então foi assim. Um editor disse sim, outros disseram que talvez, quem sabe mais adiante. Simples assim. O material que saiu fora dá pra comprar pela Internet, acho.



Há poucos meses seu trabalho despertou também o interesse de uma editora paulista. Detalhe essa empreitada pra gente.



A Ediouro tem um selo dedicado aos quadrinhos, Pixel Média, e publicou todas as histórias do Zózimo que saíram seriadas na Estação Leitura num livro chamado ‘O corno que sabia demais’ e outras aventuras de Zózimo Barbosa. As críticas têm sido boas, o que não é garantia de sucesso de vendas. Até o final do ano a Desiderata lança um outro: A boa sorte de Solano Dominguez.



Esse êxito nacional e internacional me levam a crer que Wander está vivendo a sua “hora da estrela”. Será mesmo?



Ficou maluco, Lorenzo? Não tem nada de hora da estrela, nem de êxito, quem me dera algo assim. O espaço que me cabe nisso tudo é, tanto aqui como na França, muito periférico. Cada contrato parece ser o último. O mercado brasileiro é o negócio mais volátil do mundo, numa hora tem e no momento seguinte não tem mais. A coisa vai melhor na França, mas é complicado pra um cara como eu porque tem a distância, a língua – sorte que tenho um bom portunhol e o pessoal de lá me entende. O espanhol é uma língua importante no mundo dos quadrinhos. Minha primeira editora, Editions Paquet, era pequenininha, mas foi bom pra começar. Diz a lenda que ano que vem vou publicar por uma editora maior, com um desenhista do primeiro time – que nesse negócio a estrela é o desenhista, roteirista é um mal necessário -, então o negócio é esperar, sofrer com a expectativa... E torcer pra o sonho não acabar.



Você é um artista mato-grossense (por adoção) que consegue visibilidade e abertura de mercado fora daqui. Mas por aqui... Os milagres são mais difíceis para o santo de casa?



Mato Grosso parece não saber o que fazer com seus talentos. Nem falo de um cara mediano como eu, que sou só um bom artesão, falo de artista de verdade, de gente que vai ficar na história, como um Ricardo Guilherme Dicke, uma Lucinda Persona e tantos outros. É preciso ter claro que – como não temos mercado ainda – cultura aqui é assunto de estado, de governo. E todo homem público logo ao acordar, ainda na cama, deveria se perguntar: “Como é que pode um negócio desses?... O autor mato-grossense não ser conhecido em sua própria terra?”. O melhor dos mundos vai ser o dia em que isso acontecer, desde que no momento seguinte o cara se levante, tome seu café e vá editar uma puta revista – com grande tiragem, distribuída por todo o estado. Puxa, é simples. É só fazer. Não vai ser bom só para os autores não, vai ser bom para todos os mato-grossenses.





Sua militância na cultura mato-grossense, acredito que já se vão duas décadas ou quase isso, lhe conferem experiência de mercado. Não há dúvidas (ou há?) de que nosso Estado vive uma efervescência cultural sem precedentes. Na sua opinião, o que pode e deve ser feito para que toda essa produção tenha visibilidade e os investimentos sejam direcionados de forma mais justa?



Não sei se essa efervescência é um fato novo, essa gente esteve sempre aí, o que acontece já há um bom tempo é que o estado, bem ou mal vem assumindo seu papel de apoiador dessa produção, então as coisas vão ganhando corpo. E o papel do estado é mesmo o de apoiar essa produção - apoiar bem, tendo a como único critério a qualidade dos projetos que lhe são apresentados. Quando o estado apóia algo bom, que fica de pé, o estado acertou. Quando o estado apóia algo ruim, o estado errou. Agora, não vejo a literatura como uma preocupação primeira. Só pra efeito de comparação: Estação Brasil, um programa de televisão, recebeu R$ 110 mil da Lei de Incentivo à Cultura. Estação Leitura recebeu R$ 20 mil. Com esse dinheiro só dá pra fazer duas edições da revista, com 15 mil exemplares cada uma. E não estou dizendo que o Estação Brasil não deva receber os R$ 110 mil. Estou dizendo que é triste uma publicação como Estação Leitura, um projeto coletivo, que se propõe a ampliar a base de leitores, se ver condenado a apenas duas edições por ano, a dois encontros com o leitor. Eu acho que Estação Leitura merece um apoio maior. E acho que o projeto tem tantas qualidades que o estado devia copiar a fórmula e fazer algo parecido – só que muito maior. Formar público para a literatura mato-grossense, para a arte mato-grossense de um modo geral, é uma questão de estado. Exatamente como saúde e segurança.



Vou te pedir pra citar alguns aspectos positivos que você percebe em nosso panorama cultural de hoje. Se quiser mencionar eventos, artistas, iniciativas..., está na hora.



O bom, o positivo, é que tem gente boa escrevendo, tem gente boa cantando, tem gente boa fazendo teatro, tem gente boa fazendo cinema, tem gente boa pintando e por aí vai. Todo mundo que está produzindo está certo, errado está o contexto em que elas vivem se essa produção não é abraçada, cuidada e levada para o maior número de pessoas.



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