Segunda feira, 15 de julho de 2019 Edição nº 11913 09/09/2007  










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Enfim, um filme brilhante de Greenaway

Acertos e desacertos que pontificaram no badalado festival italiano, de acordo com a opinião de especialista da Agência Estado

Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado (Veneza)

Para quem desesperava de assistir a um filme palatável de Peter Greenaway, uma boa notícia - "Nightwatching", apresentado em concurso na última quinta-feira no Festival de Veneza, é um dos melhores trabalhos do diretor, nos últimos anos. A tentativa de Greenaway é de fazer uma suposta biografia do pintor holandês Rembrandt a partir da análise de uma de suas telas famosas, "Ronda Noturna" ("Nightwatching", em inglês), também conhecida como "Mudança de Guarda da Companhia do Capitão Frans Banning Cocq", de 1642.

A partir da análise das figuras da tela, tomadas isoladamente e em seu conjunto, Greenaway especula sobre um possível complô contra Rembrandt, que era já um artista famoso quando a pintou. Na visão de Greenaway, Rembrandt faria no quadro alusões ao pouco ortodoxo comando de Amsterdã por algumas famílias ricas na Holanda que, naquela época, século 17, era um dos países mais poderosos da Europa e, portanto, do mundo. As alusões, descobertas pelos poderosos, teriam custado caro a Rembrandt, que perdeu a mulher, passou a sofrer problemas e teria sido vítima de uma agressão física que visava a deixá-lo cego.

Realidade ou fantasia? Greenaway nem se altera para responder: "O que é a história senão uma reconstrução do passado?", admitindo que apenas analisou a obra e a biografia do pintor e construiu uma hipótese de trabalho, que segue no filme. Como outros trabalhos do cineasta, este também é uma brilhante construção pictórica, cabendo lembrar que Greenaway é artista plástico de formação. Mas, ao contrário de outros filmes recentes, neste, Greenaway não é dominado pelo formalismo vazio. Constrói planos com a inspiração do pintor, usa uma luz à la Rembrandt e não esconde a vocação teatral do que existe de enredo na história. Faz tudo em função do filme e não como exibicionismo estéril. Não se trata de dizer que "Nightwatching" seja um filme de fácil comunicação com o público. Mas é, de longe, o mais acessível dos últimos trabalhos do diretor. Foi bastante aplaudido no final da projeção.

Já o mesmo não se pode dizer de outros concorrentes. "Mad Detective", de Johnnie To e Wai Ka Fai, entrou a título de "filme-surpresa", aquele que não consta do catálogo e só se conhece no momento da projeção. Mas, com a atual curadoria do festival, surpresa mesmo seria se não fosse americano ou asiático. E até os pombos da Praça de São Marcos já sabiam, de antemão, que Johnnie To, que já concorreu ano passado com "Exiled", seria a tal "surpresa" anunciada. Acontece que esse amor desmedido por qualquer coisa que venha da Ásia é um traço da curadoria, talvez não partilhado de forma acrítica pelos jornalistas presentes. Tanto assim que, ao final da projeção, "Mad Detective" acabou vaiado, fato raro em evento marcado pela passividade da imprensa.

A história é a de um ex-detetive, que alguns dizem louco e outros, capaz de ler a mente alheia. O caso é o de um revólver desaparecido que parece ter disparado contra muitas pessoas. É preciso localizá-lo e um tira jovem pede ajuda ao detetive louco para encontrar a arma. Uma paródia do noir, gênero em que por definição nada é o que parece, mas agora extirpado de suas conexões sociais e de muito do seu encanto. Como todo bom produto pós-moderno, "Mad Detective" não se contém diante das citações e precisa referir-se a obras de prestígio como "A Dama de Shangai", de Orson Welles, para justificar uma força que não tem. O fascínio que esse tipo de filme exerce sobre parte da crítica deveria ser objeto de algum estudo sociológico. Talvez psicanalítico.

Também pouco convincente, mas por outros motivos, é o último dos três italianos em competição, "L’Ora di Punta", expressão que quer dizer o momento do máximo movimento em uma cidade grande. Algo como o nosso "hora do rush". Segundo consta, o diretor Vicenzo Marra estava sentado em um café quando observava esse período especial do cotidiano de uma metrópole. Teve então a idéia de que ele simbolizava a situação atual da Itália: de confusão, agressividade e perplexidade, segundo ele. E deu esse título à história de Filippo (Michele Lastella), jovem guarda da polícia financeira, ambicioso e disposto a subir na vida mesmo que não pelos meios legais.

Dirigido de maneira convencional, o filme traça um retrato raso da suposta malha de corrupção que incluiria policiais, banqueiros e empresários da construção civil. Como acontece com o cinema italiano contemporâneo, também este filme não decola. Indeciso entre focar o percurso pessoal de um personagem sem escrúpulos e relacioná-lo a um meio social tolerante com a corrupção, o filme fica no meio do caminho. Mas a timidez estética talvez seja o que mais incomode. No final, foi recebido com indiferença e mesmo com algumas vaias isoladas. Não é mau filme. Mas é daqueles que se esquecem de um dia para o outro. É pena que esteja representando a Itália num festival de prestígio como o de Veneza.

Não por acaso, os jornais, fora das páginas de cobertura dedicadas ao festival, andam debatendo a persistente crise que se abateu sobre o cinema italiano e discutem se ela se deve a uma crise geral da sociedade e da cultura ou se limita ao campo específico da arte cinematográfica. Difícil dizer. Mas é inegável a impressão de mediocridade no ar.



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