Domingo, 18 de agosto de 2019 Edição nº 11913 09/09/2007  










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Zé Gomes e suas incríveis rabecas

Rabequeiro tem bela contribuição para com a música brasileira de raiz folclórica

Ney Arruda*
Especial para o Diário de Cuiabá

Certa vez, a convite de um amigo, permaneci em Curitiba após o Festival Nacional de Música Erudita da ‘Oficina do Barão’. Avancei um pouco mais e busquei contato com a fase popular do festival curitibano de música. Lá tive contato com o professor José Eduardo Gramani da Unicamp. Ele me ensinou a gostar da rabeca. Foi amor à primeira vista. Esse instrumento de origem árabe é como se fosse um violino rústico. A rabeca não conta com o sofisticado método de construção empregado pelo luthier. Isto é, os artesãos que mantém a técnica de confecção desde Nicola Amati, mestre de Antonio Stradivari do século XVIII. Mas o assunto hoje é rabeca. Ela é forte no litoral nordestino, interior de MG e chegou ao sul do país. Parece haver uma ligação dos primeiros grupamentos musicais vindos com o agente colonizador lusitano, holandês e francês e o caboclo colonial. É provável que este tenha feito a sua versão do violino europeu na rabeca para tocar em prol de seu próprio deleite, nas festas pagãs e religiosas. Um dos maiores rabequeiros do país na atualidade se chama José Bonifácio Kruel Gomes (Ijuí, 1935 – ). De forma mais simples, o nosso Zé Gomes contribui com a música brasileira de raiz folclórica desde os seus 17 anos de idade. Ele começou a vida como violinista clássico e chegou de tocar com a OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.

Nos anos 50, Zé Gomes atuou com o lendário grupo de música folclórica, nativista e gaúcha, “Os Galdérios”. Gravaram discos de 78 rotações e em 1958 participaram do Festival Internacional de Folclore na França. Talvez haja dúvida de quem seja este inegável personagem da música brasileira. Ele ajudou a notabilizar gente consagrada como os violeiros Almir Sater e Renato Teixeira. Mais recentemente atuou em performances musicais com o violonista Yamandú Costa. Com Almir, Zé Gomes tocou 20 anos. Sua marca está em quase toda a trajetória fonográfica daquele instrumentista tão querido pelos mato-grossenses. Há algumas semanas fiz contato o Zé. E qual não foi minha surpresa quando recebi quatro CDs de sua profícua arte musical. Destaque para o trabalho: “Palavras querem dizer”, outrora distribuído pelo selo Kuarup. Nesse CD Zé Gomes presta um tributo à viola de cocho. Ela aparece na interpretação do artista que além da rabeca, violino, violão também gravou obras com a viola de cocho. Nesse CD podemos encontrar toadas, hinos mineiros, música nativista gaúcha, milongas, chamamés e leituras prodigiosas do estilo de nosso rasqueado cuiabano.

Em 1983, Zé Gomes integrou a “Comitiva Esperança” junto com Almir Sater. Este foi um projeto da Funarte para pesquisar a música pantaneira. Daí o contato com a viola de cocho. Na década de 60, Zé foi co-fundador de uma escola, o ‘Centro Livre de Cultura’ que aliou a música à filosofia. A inovação foi duramente perseguida pela Ditadura Militar. Nos anos 70, o genial rabequeiro trabalhou como orquestrador e regente da TVs Record e Tupi. Outro trabalho de gravação interessante de Zé Gomes é o CD “Idade dos Homens”. Nele quem gosta de boa música vai encontrar de instrumentos de percussão indianos até a famosa Cítara tão divulgada pelo instrumentista Ravi Shankar. No CD “Rabecas” vão encontrar o delicioso diálogo entre Zé Gomes e outro rabequeiro Thomas Rohrer. Uma espécie de ‘desafio’ surge na faixa “Lampião fazia Guerra”. Na faixa “Reunião de Cúpula” a rabeca dialoga alegremente com a viola de cocho. É uma beleza de encontro musical com um cachorrinho latindo no fundo. A cena musical retrata coisa de fazenda no pantanal. Pena que a rabeca não faça parte das tradições musicais de nossa terra de forma tão expressiva.

Certa vez, disseram que Stéphane Grappelli, o famoso instrumentista francês do jazz internacional era um poeta do violino. Pois bem, o nosso Zé Gomes não deve nada a nenhum violinista do mundo. Dono de uma técnica autodidata, inventividade harmônica inesgotável e precioso dom melodista é o ‘maestro dos pampas’. No CD ”Tempos Interiores”, Zé Gomes demonstra sua incrível capacidade de múltiplo instrumentista quando gravou suas obras tocando violino, violoncelo e viola de arco. Destaque para as faixas “Encontro” e “Doma” da rabeca de Zé Gomes e a viola caipira de Almir Sater. Elas são os nossos ‘Grappelli e Django Reinhardt’ do Brasil 100% caipira. Sem dúvida, Almir e Zé representam um dos duos mais encantadores de toda a literatura musical brasileira sem contaminações do agente predador neo-colonial contido na música sem alma. Zé Gomes, hoje com 72 anos, disse em recente entrevista que está pensando o que fazer com toda música composta desde a década de 70. Meu amigo, é o seguinte: organize sua preciosa produção musical em “song books”, porque as futuras gerações de músicos deste planeta merecem conhecer a sua maravilhosa herança musical. Acredito que as editoras vão fazer fila diante de sua porta para essa publicação. Esse é o caminho para perpetuar o que vale a pena.

Serviço: O que é? CD: “Palavras querem dizer”, e outros – Autor: Zé Gomes – nas melhores lojas do ramo



*Ney Arruda é professor, músico e advogado cuiabano, e colabora com o DC Ilustrado (neyarruda@gmail.com)



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