Terça feira, 18 de dezembro de 2018 Edição nº 11912 07/09/2007  










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Pavarotti

Eu tenho alguns quadros na minha casa. Tenho um em lugar de destaque na sala que amo de paixão e vez por outra empresto para ser capa de livros de temas regionais, capas de discos, cenário de programas de televisão etc. É uma pintura acadêmica retratando a presença humana numa paisagem pantaneira. Quando vai alguém lá em casa, desta turma que gosta de pintura, reparo bem, vai olhando detalhadamente salta ele. Diz a regra do mundo cult ou culto, ou seja lá o que for, que este tipo de pintura não tem importância, é sem rigor artístico etc.

Faz tempo que larguei destes preconceitos idiotas. Gosto do que me faz bem, do que me causa ternura, admiração, do que sinto a beleza. Do que dá prazer ouvir, ver, etc. Teve uma época que tinha uma conversa de dividir cinema em De arte e Comercial. Nesta eu não entrei não, sempre gostei de bons filmes e aí o papel de Tarantino teve alguma importância para quebrar este preconceito e mediocrizar os tais “filmes cabeça”. Arrepio ao lembrar daqueles filmes alemães horríveis que víamos no cineclube da universidade. Acho que o grande Scorcese resolveu isso no mundo do cinema. Misturou tudo e sintetizou com o nome de Bom Cinema. Luc Besson também fez isso bem, tem um filme que ele insinua Madonna, John Wayne, etc. Lindo.

Não sei por que a cultura tem este preconceito entre a sofisticação e o rigor com o popular, o intuitivo. Acho uma mistura espetacular. Parece que os salões do pensamento acadêmico não admitem a beleza na arte. Tem que ter aquela coisa enigmática, aquela falsa mensagem, aliás, características que acabaram gerando estas picaretagens chamadas instalações que bebem num falso abstracionismo, que por sua vez radicalizaram a desconstrução da forma do impressionismo. Tem hora que me dá uma vontade danada de esculhambar esta tal obra abstrata, mas deixa para lá. Mas é engraçado que este povo sofisticado gosta da autocompaixão do primitivismo. Mas isto será outro artigo.

Pavarotti foi o Scorcese da música, misturou tudo no rótulo Boa Música. Mesmo sofrendo terrivelmente nas mãos dos tais puristas, dialogou com o mundo da música pop sem pudor ou preconceito. Foi fundo nisso. Produziu belos encontros, como por exemplo, com a série de duetos para campanhas humanitárias. Aqueles duetos com Bono, Sting, etc. são de arrepiar. O com Brian Adams ficou lindo. Inclusive eu nunca escutei com Lionel Ritchie. Dizem ser maravilhoso.

Sempre encantei com esta mistura na música. Vila Lobos fazia isso. Aquelas peças sobre a Amazônia todas têm inspiração popular, daí ser de fácil compreensão e encantamento. Passou uma minissérie na Globo que tinha na abertura uma música do Mestre Vila que fez mais sucesso que a própria. Se bem que não anda difícil competir com estas velhas fórmulas globais. Sua bela canção e singela canção Trenzinho Caipira é reconhecidamente buscada no folclore brasileiro.

Tenho meia dúzia de CDs e LPs na minha casa. Dois não saem da agulha. Um da Orquestra Filarmônica de Londres com Frank Zappa e a outra da de Berlim com o Scorpions. O popular dá ao clássico o vigor que lhe falta e que lhe empresta, em troca, a técnica e a lógica.

Pavarotti fazia isso como ninguém. Num álbum da década de 90, ou antes um pouquinho, ele gravou só canções napolitanas. Chamado As Mais Belas Canções Napolitanas, o genial tenor tirou toda carga dos teatros e vestiu uma avental de cozinheiro napolitano e transportou para a música todo sentimento de um cidadão feliz consigo mesmo, com sua terra, sua música, sua gente e sua cultura popular.

Foi em Nova Iorque no ano passado que ele sentiu-se mal e recebeu o diagnóstico médico do tumor depois de um show no Metropolitan onde foi aplaudido por 11 minutos seguidos, recorde do teatro. Ali mesmo onde na década de 60 começou a bela carreira no mesmo teatro (acho, se algum dos meus 23 leitores souberem, me escreva) interpretando a mesma opera de Puchini. Repito, se não me engano, mas devem sair agora detalhes da sua vida na imprensa.

Como todo boa praça, amava futebol, e cantou nas finais das últimas copas anteriores à da Alemanha. Sofreu muito na final da dos EUA quando tinha acabado de ver sua Itália perder para o Brasil de Dunga e fez o concerto de encerramento. Seu amigo José Carreras não lhe deu trégua no palco.



* PAULO RONAN é economista

cpmpj@uol.com.br



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