Sexta feira, 03 de setembro de 2010 Edição nº 11896 19/08/2007  











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A simplicidade enganadora de um livro

“Correio Litorâneo”, livro de estréia de Nereu Afonso da Silva, apresenta um sofisticado texto. Recebeu o Prêmio Sesc de Literatura

André de Leones*
Especial para o Diário de Cuiabá

Correio Litorâneo é o nome do pior jornal do planeta. O periódico marca presença, direta ou indireta, em todos os contos do excelente Correio Litorâneo (Record, R$ 25,00), livro de Nereu Afonso da Silva que venceu do Prêmio Sesc de Literatura 2006 em sua categoria. Na categoria romance, o vencedor foi Casa Entre Vértebras, experiência-limite de Wesley Peres, já resenhado neste espaço. Correio Litorâneo chega ao público graças ao aval dos membros da comissão julgadora, formada, na etapa final, por Flávio Moreira da Costa e Cristiane Costa, e com o selo de um dos maiores grupos editoriais do país. Nada mal para um livro de estréia.

Nereu Afonso da Silva desenvolve suas histórias com grande desenvoltura, alternando momentos de grande humor com outros, de gravidade nem um pouco forçada. O livro é dividido em duas partes. A primeira delas, Uns, tem uma levada agradável e bem humorada, mas o autor, volta e meia, pega o leitor no contra-pé. De fato, a aparente leveza e o bom humor podem dar a impressão de que, a princípio, o livro sirva apenas para uma leitura despreocupada. Felizmente, não é esse o caso, e a segunda parte, Outros, funciona como um balde de água fria no leitor que já se julgava em terreno seguro.

Logo no conto que abre o volume, Úngaro dos Passos, já se torna evidente que estamos diante de um contador de histórias de mão cheia, cuja sofisticação é perceptível graças à maneira como trabalha a ironia. O personagem-título é um ladrão com pompa de profeta, que cedo sente um “oco revolucionário aumentando em seu espírito” e, mais tarde, já “consagrado”, conta suas proezas aos seguidores (ele não tem cúmplices, mas fiéis) “mais por instinto pedagógico do que por vaidade.”

Sobre esse conto, um dos melhores do livro, Nereu disse, com exclusividade para o Diário de Cuiabá, o seguinte: “Apenas tive vontade de confrontar esse personagem infantil àquilo que socialmente, oficialmente e ‘psicanaliticamente’ representa a autoridade: o adulto, o pai, o policial. Recheei de sátira a questão da viagem iniciática daquele que se isola por anos para ‘aprender’, para ‘conhecer seu caminho’ e penso ter, também através do humor, transformado o ‘handicap’ em ‘algo mais’ com a questão da falta do dente incisivo superior.”

Ainda na primeira parte, o conto Leitão marca presença como uma sátira hilária do brazilian way de se fazer política. O tom oficialesco da narração e o fato de o protagonista ser homônimo do autor levam a extremos a comicidade da situação explorada ali, na qual, dentre outras coisas, um prefeito lavra um processo que não existe. Como não poderia deixar de ser, o autor se inspirou em um fato real.

O melhor conto do livro, entretanto, não prima pela hilaridade. Um Buraco na Tarde é a narrativa perturbadora, potente e rascante de uma tragédia. Essas mudanças de tom perpetradas ao longo do livro impressionam. De fato, a destreza com que o autor trafega pelos diversos elementos que compõem os contos do livro, sem que o mesmo soe irregular, esquizofrênico ou mal organizado, é mesmo exemplar. E é justamente o derradeiro parágrafo do conto Um Buraco na Tarde o que dá bem a medida do talento de Nereu Afonso da Silva e justifica, sobremaneira, o prêmio recebido por Correio Litorâneo:



“Os dentes apertam e já arranham o ferro da arma, a mão treme, o gatilho feito mola inicia sua trajetória. Lembrou-se muito lucidamente que esquecera de trocar a lâmpada de 60w da cozinha, mas agora, com o tambor do revólver girando, às seis em ponto, já era noite o buraco da tarde.”



*André de Leones é escritor e colabora com o DC Ilustrado (http://aleones.wordpress.com/ )



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