Sexta feira, 03 de setembro de 2010 Edição nº 11861 10/07/2007  










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Pétalas perdidas

O país está pagando um preço elevado pela tolerância histórica com o consumo e o tráfico de drogas. Agora, para recuperar a autoridade sobre áreas que os traficantes dominaram, o governo do Rio de Janeiro - com o apoio do governo federal - está travando verdadeiras batalhas nas favelas cariocas, inclusive com vítimas inocentes. Neste cenário, é ao mesmo tempo contundente e polêmica a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que "bandido não deve ser tratado com pétalas de rosa".

Não deve mesmo! Da mesma forma como inocente não deve ser executado sob o pretexto de que este é o preço para combater a criminalidade. Esta explicação pode ser confortável para quem está longe da zona de guerra, mas é trágica para os infelizes forçados pela exclusão social a conviver numa área comandada pela criminalidade. Por isso, chega em boa hora a decisão do governo federal de, às vésperas dos Jogos Pan-Americanos, complementar a repressão ao crime com investimentos sociais importantes e ações preventivas.

A ausência do Estado em áreas de sua atribuição está entre as razões do descontrole da criminalidade num dos Estados mais importantes do país, com prejuízos evidentes para a qualidade de vida da população e para os investimentos, incluindo uma importante fonte de renda como o turismo. Estimulado ao longo de décadas pela omissão de governantes, o vácuo de poder acabou sendo preenchido por líderes do crime. Nas próprias favelas ou de dentro das prisões, munidos sempre do que há de mais moderno em tecnologia e de armamentos freqüentemente superiores aos da polícia, os criminosos passam a se incumbir cada vez mais de encargos típicos da área policial e de assistência social, para faturar com atividades como o narcotráfico e o contrabando. Em conseqüência, transformam moradores de comunidades mais violentas em reféns, interferindo até mesmo no seu direito de ir e vir. Evidentemente, esse é um processo que precisa ser rompido de vez, para que o Estado possa recuperar o espaço perdido para a criminalidade.

O poder público tem, sim, o dever de restabelecer a ordem e o estado de direito junto a esta parcela da população que se julga acima da lei. Fundamentais num primeiro momento, porém, essas ações são insuficientes, por si só, para assegurar tranqüilidade a quem convive num meio urbano marcado pela miséria, pela ausência de infra-estrutura adequada, por serviços públicos nulos ou degradados, pela dificuldade de acesso e até mesmo pela falta de transporte coletivo. Daí a importância de o anúncio para o Rio ter incluído uma série de iniciativas na área de urbanização e de saneamento básico, como parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que contemplam inclusive as sempre preteridas favelas.

O desafio dos governantes - no Rio e nos demais Estados - é conjugar a repressão necessária ao crime com ações preventivas que evitem a formação de mais criminosos. Nem pétalas de flores para bandidos, nem balas perdidas para inocentes. A derrota do crime exige também uma guerra sem armas, que proporcione a todos os brasileiros oportunidades consistentes de dignidade e ascensão social.



“Nem pétalas de flores para bandidos, nem balas perdidas para inocentes”



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