Terça feira, 19 de setembro de 2017 Edição nº 11763 13/03/2007  










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O que procuram os pacientes?

Muitas vezes o indivíduo com uma doença pergunta a si mesmo se existe, por parte do médico, conhecimento da diferença sobre o conceito daquilo que é doença e do que é saúde? O médico, do outro lado da mesa, acostumado com os sinais da doença como um fato biológico, olha exclusivamente para os indicadores da doença esquecendo o indivíduo. É comum encontrar pacientes totalmente desapontados com esta atitude inconsciente de alguns profissionais da medicina, prejudicando como um todo o conceito da classe médica.

A resposta pela qual procura o doente e, também, aquela que o médico procura encontrar, podem ser tão diferentes que muitas vezes se transformam em frustração para ambos. Situação difícil de solucionar, já que por um lado a doença pode ser muito mais daquilo reconhecido como tal pela medicina ou pelo conhecimento do profissional e, por outro, o paciente pode ter procurado o médico por motivos que não são derivados de uma doença específica. Parece que durante a consulta ambos os lados da mesa procuram pateticamente alguma coisa perdida em algum outro lugar e, provavelmente, estejam procurando no lugar errado.

Muitos elementos colaboram para formar um ambiente impróprio para uma correta relação entre o médico e o paciente. O paciente pode estar procurando o apoio não encontrado com um outro profissional de saúde, talvez uma explicação que sirva como consolo numa doença crônica ou explicações sobre como reparar um erro médico, um diagnóstico equivocado, mas a curta duração da consulta, a baixa remuneração dos médicos e, em muitos casos, a insatisfação com a falta de infra-estrutura nos hospitais faz com que a relação durante a consulta seja frustrante. Nas doenças crônicas, o intervalo entre a causa e o aparecimento de sintomas é prolongado. A relação entre o médico e paciente deverá permanecer por anos, mas o tempo reduzido das consultas não permitirá criar uma relação de confiança necessária para se encontrar as respostas necessárias.

Um olhar humano, uma conversa com palavras amigas, escutando o paciente, dedicando mais dez minutos, perguntando a ele sobre seus problemas e angústias poderia tornar mais fluída a consulta e estabelecer vínculos menos superficiais, aumentando a empatia e a confiança na relação com o médico. Atitudes deste tipo desarmariam o “impaciente”, transformando-o em um verdadeiro “paciente”, o qual passará a participar de forma mais ativa no seu tratamento sem exigir respostas ou soluções imediatas, com índices menores de abandonos no tratamento das doenças crônicas.

Um novo tipo de paciente existe atualmente. É o paciente “semi-especializado”, aquele que procura informações na internet ou freqüenta grupos de apoio formados por pacientes onde se discutem os últimos avanços da medicina. Um paciente complicado para médicos com pouco conhecimento atualizados ou para os que não gostam de dar maiores explicações. Somando a isto, o aparecimento de advogados especializados em dano moral ou por erro médico está ocasionando uma revolução na relação médico-paciente.

Uma relação estabelecida por séculos, mas que se encontra em processo de transformação com resultados altamente positivos para ambos os lados. Estamos caminhando para um atendimento mais humanizado e multidisciplinar, onde o médico vai compartilhar os pacientes com outros profissionais, dividindo responsabilidades, deixando de ser o sumo conhecedor de tudo aquilo que aflige o paciente. Deixaremos de ter um “Deus” único, soberano, e passaremos a ter um excelente grupo de “anjos” cuidando do paciente.

A palavra “paciente” é utilizada há mais de 2.600 anos, desde Hipócrates. Quando a população totalmente analfabeta dependia de poucos sábios para tratar suas doenças, assim, deviam ser “pacientes” para entender os conselhos e mudar sua forma de vida, praticamente a única terapia possível na época.

Já a palavra “consulta” é muito apropriada e deveria ser dada uma ênfase maior no seu significado, na sua compreensão pelos médicos. Consulta vem de “consultor”, ou seja, numa consulta o médico deve explicar detalhadamente a situação do paciente, da sua doença, mostrando o que pode vir a acontecer com seu estado de saúde tratando ou não. Deve, ainda, explicar que a intervenção cirúrgica, os exames ou os medicamentos a serem utilizados apresentam benefícios e riscos. Explicado tudo, detalhadamente, o paciente é quem deve decidir a estratégia que aceita seguir.

Entender que o médico é um “consultor” permite cobrar pela consulta, pois o serviço foi realmente prestado, independente de o paciente seguir ou não os conselhos recebidos. Já cobrar pela doença não apresenta o mesmo princípio. A antiga medicina tradicional chinesa entendia muito bem este conceito, onde os médicos não podiam cobrar do paciente se não conseguissem curar a doença. Na época atual seria mais ou menos como levar um eletrodoméstico ao serviço autorizado. A oficina cobra pelo orçamento, mas é o cliente que decide consertar ou não o aparelho.

Como paciente, olhando do outro lado da mesa, até que aplicar esta prática não seria uma má idéia. Tenho certeza de que os pacientes ficariam muito satisfeitos. Confesso que não tive coragem de consultar nenhum médico a respeito disso.



* CARLOS VARALDO é presidente do Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de Hepatite C



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