Sexta feira, 03 de setembro de 2010 Edição nº 11756 04/03/2007  










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Para se esconder da rotina num quarto escuro

Em “A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes”, a poeta Bruna Beber restitui graça a tudo o que há – inclusive ao que machuca

André de Leones*
Especial para o Diário de Cuiabá

Eu não me lembro de onde estava voltando, mas tenho certeza de que estava voltando de algum lugar, talvez Porto Alegre ou mesmo Curitiba. Não importa. Importa é que cheguei à casa dos meus pais carregando uma mala cheia de roupas sujas e dei com um envelope em cima da minha velha escrivaninha. Abri e era um livro. “A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes” (ed. 7Letras, R$ 20,00). A autora, Bruna Beber.

Alguém escrever um livro de poemas e ainda conseguir publicá-lo a essa altura do excremento circundante é algo mais subversivo do que fumar baseado em banheiro de colégio religioso, votar em candidato do PSTU, assistir a uma pancada de filmes iranianos com legendas em francês, escrever cartas obscenas para o Papai Noel ou prestar vestibular para Gestão Pública.

O mundo ficou sério e burro, feito o colega de sala apelão que não aceitava curtições mesmo sem entender direito do que é que se tratava. A poesia de Bruna Beber vem devolver graça e ironia às coisas, e falar de amor como se pela primeira (ou última) vez.

Logo de cara, há um poema com nome de gênio ( John Cage), no qual Bruna nos lembra que "morreremos / partiremos / surgiremos // num palco abandonado / para cantar uma música / e sair". A vida não é muita coisa além disso, chapas. Nem a morte. A vida é o lugar em que, como no tal Rio de Janeth, "chovem rios / mas aqui é o mar", e a poesia de Bruna vem nos arranhar por dentro cheia "de exagero / e corações roubados", aqui e ali "se escondendo da rotina num quarto escuro / e batendo a cinza do cigarro na janela".

Sentado à minha velha escrivaninha naquele dia, recém-chegado sabe-se lá de onde, ignorei minha mãe me chamando para almoçar e me senti vivamente triste, "cansado / de ouvir o coração / sobre ele mesmo", e, mesmo enquanto lia, lembro-me de ter pensado que, mesmo que o mundo seja um "aterro de babacas" (e é mesmo), "um abrangente / e resumido / aterro de sinônimos", coisas geniais como os versos de Bruna Beber ainda são viáveis e estão por aí, restituindo graça e beleza a tudo o que existe – inclusive ao que machuca.

Seja como for, é sempre o amor, e é sempre o amor que nos mata, porque "a sutileza do fare thee well / pelo telefone, a doçura dos ventiladores / não explica a origem da merda / do amor".

Bruna Beber pode ser lida também nos blogs Bife sujo (http://www.badtrip.com.br/bifesujo) e Cutelaria & Chapelaria (http://www.badtrip.com.br/cutelaria). E seu livro, encomendado nas melhores livrarias ou comprado diretamente de um desses sites bacanérrimos tipo Submarino ou coisa parecida, em que o livro sai baratinho e o frete, uma fortuna. Mas vale a pena. Ah, se vale. É Bruna Beber, tigrada. Uma das melhores coisas que a literatura desse país já produziu.



*André de Leones é escritor e autor de “Hoje Está um Dia Morto”, obra que conquistou o Prêmio Sesc de Literatura Nacional, e colabora com o Diário de Cuiabá



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