Sexta feira, 03 de setembro de 2010 Edição nº 11734 04/02/2007  










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A literatura como sombra

Em seu extraordinário livro de estréia, Maira Parula compõe uma ficção escorregadia e lúdica

André de Leones *
Especial para o Diário de Cuiabá

A primeira coisa bacana sobre o livro de estréia de Maira Parula, Não feche seus olhos esta noite (Rocco), é que, bem, ele não se parece com nada, com nenhum outro livro. É único. Maira parece mesmo ter desenvolvido um estilo todo dela a ponto de implodir todas e quaisquer possíveis ascendências. Se a autora sofre de alguma “angústia da influência”, guardou para si.

A segunda coisa bacana (neste caso, bem entendido) é que a ficção de Maira Parula não tem compromisso com a linearidade. Tudo nela é escorregadio. A protagonista se transforma, é alguém diferente a cada passagem. A cada instante, o próprio livro se transforma. Prosa, poesia. Como em relação a um filme de David Lynch, a melhor coisa a fazer é relaxar, esquecer a obrigação de que tudo tem que fazer sentido (porque não tem) e aproveitar a viagem. É muito bom não ter que explicar nada.

Num livro em que noites transcorrem como um século e todos preenchem os espaços como podem, a imperfeição é cortejada porque não há nada além dela. Mesmo a metalinguagem está ali pelos desvãos, quase que acidentalmente (mas nunca acidentalmente, claro), às vezes como piada (página 143: “’O primeiro parágrafo de tudo é como um iceberg. Quem tem medo contorna. Quem tem pressa afunda.’”). Logo, Não feche seus olhos esta noite é um livro que se descola da própria literatura e passa a tratá-la como sombra.

Tal processo de descolamento deve ser percebido não como um vanguardismo mais ou menos estéril (até porque as vanguardas estão muito velhas ou apenas mortas), mas, sim, como a expressão de uma, por assim dizer, criatividade visceral que anima o livro todo e produz passagens brilhantemente sardônicas e auto-conscientes como esta, na página 11: “também é verdade que os leitores estão ficando cada vez mais educados e inteligentes na mesma medida em que os cães vão aprendendo a atravessar as ruas agitadas de uma cidade grande.”.

O caos narrativo desenhado por Maira Parula, por não ser repetitivo e por não pretender reinventar a roda, é coloridíssimo, instigante e, sim, divertido. Nesse sentido, Não feche seus olhos esta noite é produto de uma originalidade que nunca chateia o leitor porque é lúdica, rascante e dotada de uma melancolia assim bastante viva, dessas que riem chorando e vice-versa.



OBS.: Mais sobre Maira Parula em seu blog, um dos mais visitados da internet brasileira, o Prosa Caótica (http://prosacaotica.blogspot.com).





* André de Leones, goiano de 27 anos, é autor do romance Hoje está um dia morto (Record), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 e mantém, dentre outros, o blog Canis sapiens (http://canissapiens.blogspot.com)



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