Sexta feira, 03 de setembro de 2010 Edição nº 11619 17/09/2006  










ANTIINFLAMATÓRIOSAnterior | Índice | Próxima

Uso exige cautela, diz estudo

Da Folhapress – São Paulo

A divulgação de uma pesquisa na semana passada sobre o risco de problemas cardiovasculares ligados ao uso de antiinflamatórios deixou a classe médica e pacientes em alerta. A notícia evidencia a necessidade de consumir medicamentos com prescrição médica, consciente dos efeitos colaterais.

Os antiinflamatórios são os medicamentos mais vendidos no mundo e, no Brasil, são tomados sem receita médica. Mas podem causar problemas renais, levando até à insuficiência renal, além de gastrites, úlceras e sangramentos no sistema digestivo. "O problema cardiovascular é um negócio que estourou agora, mas outros problemas são sabidos há muito tempo e a população não está alertada”, diz a reumatologista da Unifesp Evelin Goldenberg.

Os reumatologistas são, ao lado dos ortopedistas, os profissionais que mais prescrevem a droga, para, por exemplo, pacientes que sofrem de artrite reumatóide.

A médica acredita que os antiinflamatórios deveriam ser vendidos com receita médica pois há um exagero por parte dos consumidores. "O uso é totalmente indiscriminado. Esse é o problema. A pessoa toma porque tem dor de cabeça, cólica menstrual...”

Segundo Goldenberg, o principal risco de mortalidade relacionado à droga é a úlcera gástrica, enquanto muitos acreditam que uma dorzinha no estômago não é nada. "Não tem que se preocupar só com o coração. E o rim? E o estômago?”

Os médicos afirmam que, tendo conhecimento dos efeitos colaterais, prescrevem antiinflamatórios com cautela e segurança, para quem tem realmente necessidade e não possui histórico de doenças renais ou gástricas. Ou seja, é preciso que um médico decida quem pode tomar o remédio, para quê, por quanto tempo e em qual dose.

"O problema é a automedicação. Qual família não tem um Voltarem ou Cataflam em casa?”, questiona o presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia, Fernando Neubarth, que recebeu telefonemas e e-mails de pacientes assustados com a notícia. "Não existe medicação sem risco. Todas têm que ser prescritas e ver se o benefício é maior que o risco.”

META-ANÁLISE

A nova pesquisa, realizada pela Universidade de Newcastle, na Austrália, envolveu 1,6 milhões de pacientes ao analisar o resultado de 23 outros estudos. Apontou que o diclofenaco, presente em remédios como Voltaren e Cataflam, pode aumentar em 40% o risco de problemas cardiovasculares.

A história lembra o caso do antiinflamatório Vioxx, retirado do mercado em 2004, após estudo ter mostrado o aumento do risco da ocorrência de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais. No entanto, até o momento, não há informações de que a droga venha a ser proibida. O Vioxx fazia parte da chamada "segunda geração” de medicamentos. O diclofenaco é o princípio ativo de remédios que estão há décadas no mercado.

A Anvisa seguiu a posição da FDA (agência reguladora de alimentos e fármacos dos Estados Unidos), e divulgou nota na qual afirma que "até o momento, não foram detectadas evidências que levem à necessidade de qualquer mudança imediata com relação à prescrição e uso dos medicamentos derivados do princípio ativo diclofenaco no país.”

A Novartis, que produz Cataflam e Voltaren, diz que "não há evidência clínico-científica que justifique a interrupção do tratamento com a substância” e afirma que a meta-análise não considera outras causas de elevação do risco cardiovascular, como tabagismo e hipertensão.

PACIENTES

Não há consenso entre os médicos sobre se os remédios devem continuar a ser tomados ou não. A orientação é conversar com o médico de confiança.

Para o presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, Bráulio Luna Filho, os pacientes podem "procurar outra droga” e o melhor é não tomar o diclofenaco.

"Essa é a melhor informação que nós temos no momento e temos que nos adequar a ela. Na dúvida tenho que proteger meus pacientes e a melhor alternativa, até que os laboratórios apresentem novos estudos, é não usar.”

O cardiologista afirma que não há garantia de que as novas drogas sejam mais seguras, mas ele diz que o naproxeno, por exemplo, é uma opção.



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