Domingo, 15 de setembro de 2019 Edição nº 11544 18/06/2006  










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Com o canudo na mão

Primeiros indígenas a concluir o curso superior voltam às aldeias com muito mais do que um mero pedaço de papel

José Luiz Medeiros/DC
Os novos profissionais da etnia Umutina, de Barra do Bugres, mostram com o orgulho os diplomas de graduado: desejo de intervir na realidade
RODRIGO VARGAS
Da Reportagem

Os diplomas estão todos muito bem guardados. Entregues dentro de um envelope plástico - para evitar que ficassem marcados pelas pinturas corporais de seus destinatários - muitos deles continuavam assim, intocados, quase quatro dias após a cerimônia de colação de grau. O mesmo se pode afirmar em relação às lembranças da bela festa, realizada em Cuiabá na último dia 7 de junho.

“Nunca vou me esquecer. Foi uma emoção muito forte, que não tem explicação”, emociona-se Edna Monzilar, um dos nove representantes da etnia Umutina dentre os 198 índios formados pela primeira turma do projeto Terceiro Grau Indígena, da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat).

Graduada em Ciências Sociais, ela retornou à Terra Indígena Umutina (localizada no município de Barra do Bugres, a 170 quilômetros de Cuiabá) com o diploma nas mãos e muitas idéias na cabeça. “Quero discutir a nossa história, antes e depois do contato, as mudanças, o conhecimento da terra. E espero conseguir envolver a comunidade”.

Pioneiros na América Latina, os novos professores indígenas têm a partir de agora a grande responsabilidade de fazer florescer, na prática, os objetivos que motivaram a implantação do curso em 2001. Mais do que uma oportunidade de formação superior, o projeto representa a oportunidade de mudança nas bases da educação indígena (ver matéria).

“Não nos tornamos professores para formar mão de obra para o mercado de trabalho fora das aldeias. Temos que assegurar uma formação voltada para a nossa realidade e a nossa cultura, para que as futuras gerações vivam e trabalhem aqui”, explica Filadelfo de Oliveira, umutina formado em Ciências Matemáticas e da Natureza e diretor da Escola Estadual de Educação Indígena Jula Paré.

O nome da escola é uma homenagem a um dos mais importantes sobreviventes do processo de contato que, ao longo das décadas de 1910 e 1940, reduziu a população Umutina a pouco mais de 20 indivíduos. Morto em 2004, Jula Paré era o último falante do idioma e um depositário de lendas e tradições que jamais serão recuperadas.

O trabalho dos novos professores, na opinião de recém-formada Maria Alice Cupodonepá, é assegurar que nenhuma outra destas conexões seja perdida. E mais: trabalhar para que as novas gerações ajudem a dar vida e a reatar os laços com o passado. “Durante o curso, aprendemos a valorizar as nossas características, nossa especificidade. Queremos que nossos alunos aprendam o mesmo”.

Neste processo, ensina ela, os idosos serão as principais fontes de pesquisa. Serão “livros vivos”, como ela gostar de qualificar. “Temos de buscar os ensinamentos dos mais velhos, estudar o que eles dizem, trazer o muito que sabem para dentro da sala de aula. Isso significará a revitalização da nossa cultura”.

Entre as mudanças já implementadas desde o início do projeto, está o uso cada vez maior de expressões e palavras recuperadas do idioma original umutina. Na escola que leva o nome do último falante, há cartazes por toda parte explicando o significado de muitas delas. “Já estamos percebendo a mudança. As crianças já não têm vergonha de usar pinturas, de dançar e cantar nossas músicas. A escola, por aqui, se tornou uma referência cultural para todos os umutina”.



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