Segunda feira, 18 de novembro de 2019 Edição nº 11217 17/05/2005  










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Após confirmação, família de Jane Vanini prepara funeral

CLARICE NAVARRO DIÓRIO
Da Sucursal de Cáceres

Os restos mortais da militante de esquerda Jane Vanini serão sepultados em Cáceres, em data ainda não definida. Trinta anos após ser fuzilada no Chile, Jane será sepultada ao lado do lugar onde está o corpo de seu pai, José Vanini, no Cemitério São João Batista. É o final de uma longa espera.

Cacerense nascida a 8 de setembro de 1945, Jane estudou Ciências Sociais em São Paulo, onde trabalhava como secretária da editora Abril e militava no Movimento de Libertação Popular (Molipo), um grupo clandestino de esquerda. Por suas atividades políticas, Jane foi condenada a cinco anos de prisão, exilando-se no Chile, onde se ligou ao MIR (Movimento de Isquierda Revolucionário). Foi morta em Concepcion, no Chile, em 6 de dezembro de 1974.

De tradicional família cacerense e descendente de italianos, Jane Vanini teve sua história resgatada em 2002 pela professora do departamento de História da Universidade do Estado de Mato Grosso, Maria do Socorro de Souza Araújo. Sua dissertação de mestrado, denominada “Paixões políticas em tempos revolucionários: nos caminhos da militância, o percurso de Jane Vanini (1964-1974)”, resgatou sua trajetória.

Jane Vanini saiu de Cáceres com menos de 20 anos. Desembarcou em São Paulo entre 1964 a 65. Em 68, começou a prestar serviços de suporte para a Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização de esquerda armada de grande projeção política nas ações de guerrilha urbana, que enfrentou o regime militar no Brasil após o golpe militar de 64 até o ano de 1973.

Casada com o jornalista Sérgio Copozzi, também da Abril, entrou com ele para a clandestinidade em 1970. Para sair do Brasil, o casal embarcou no porto de Santos, em um navio italiano. Com os nomes de Mário e Adélia, chegam ao Uruguai, seguindo depois para Buenos Aires, Roma, Praga e Cuba. Na capital Havana, participaram da fundação do Molipo e, em 1971, voltaram ao Brasil se estabelecendo em Araguaína (GO), onde, no campo, recomeçaram a luta revolucionária. No mesmo ano, fugindo das perseguições da política ditatorial da época, Jane foi para o Chile, seguida pelo marido no ano seguinte. O casamento com Copozzi durou até 73.

Com o fim da relação, Jane seguiu na luta e se transformou em “Ana”, casando-se com o jornalista José Tapia Carrasco, o “Pepe”. O casal atuou no MIR no tempo de transição do capitalismo para o socialismo, no governo chileno do presidente Salvador Allende. Em setembro de 1973, com o golpe de estado no Chile, quando tomou o poder o general Augusto Pinochet, Jane Vanini se tornou clandestina pela segunda vez. Saiu de Santiago para se refugiar em Concepcion, onde na noite de 6 de dezembro de 74 foi assassinada pelas forças repressoras. Morreu lutando, resistindo, sem ceder a ordem de se entregar.

Por muitos anos, apesar de personagem importante da história da década de 70, ela foi pouco comentada. Nome de rua no Rio de Janeiro, de praça em Concepcion, ela hoje é nome do campus da Unemat em Cáceres. “Em 1993 comecei a pesquisar, com a autorização da família, a trajetória de Jane Vanini”, conta a historiadora Maria do Socorro. “Por medo e devido a grande dor, a família permaneceu calada por décadas”.

Há dois anos, a ossada foi descoberta em um cemitério clandestino em Concepcion, e removida para Santiago. Os irmãos doaram sangue para o exame de DNA. O resultado saiu há uma semana, e a família recebeu a notícia através da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, que está cuidando da remoção dos despojos para o sepultamento em Cáceres.

Tinha cinco irmãos. Hoje, Romano Vanini mora em Cuiabá. Dulce e Magali em São Paulo, onde, há três anos, morreu a mãe, Antonia. Seu outro irmão, Henry Vanini, vive em Goiânia. Todos estarão presentes no sepultamento da irmã.

Ricardo Vanini, 41, filho de Romano, conta que a tia era assunto proibido na família. “Era tabu. Só soube a verdade com 28 anos”, diz, contando que deu a uma de suas filhas o nome da tia Jane. “Soubemos da confirmação no final de semana. Foi uma mistura de tristeza e alívio por, enfim, sabermos de forma oficial. Agora, ele virá para perto de nós”.

Ricardo conta ainda que passou a infância e a adolescência ouvindo o nome da tia em conversas sussurradas. “Todos tinham medo. E nós, que achávamos que meus avós e tios não sabiam onde ela estava, já que era uma “desaparecida”, não sabíamos que eles se comunicavam por cartas”. O sobrinho diz ainda que, em uma carta recente, o ex-marido Sérgio Capozzi, hoje no Canadá, disse que Jane era corajosa, rebelde, com propósitos definidos na luta pela democracia. “Todos na família contam que ela tinha personalidade forte, e, apesar de ser uma garota do interior, fascinada por leitura, Cáceres era pequena para seus sonhos, seus anseios”, diz o sobrinho.

Quando foi assassinada, ela era “Gabriela Fernandez”. Tinha 29 anos e morreu lutando, depois de quatro horas acuada, sozinha na casa em que morava. Pepe Carrasco já estava na prisão. A família de Jane foi comunicada de sua morte em 1975, através de uma carta enviada por Pepe, que acabou sendo assassinado em 1986, também pela ditadura chilena.



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Comentários Deixe aqui sua opinião sobre esse assunto

· gostaria de saber se Jose Vanini era esc  - Sebastião Apparecido Buck
· OLÁ! MORO EM CÁCERES, E RECEMTEMENTE EM   - ADSON. VILASBOAS
· OI EU QUERIA MUITO SABER MAIS SOBRE A   - ELIZEU VANINI




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