Fernando, o turista
A volta do narcotraficante Fernandinho Beira-Mar ao presídio de segurança máxima de Presidente Bernardes, em São Paulo, e os elevados custos de sua manutenção na carceragem da Polícia Federal de Alagoas, estimados em R$ 400 mil num prazo inferior a 40 dias, confirmam o despreparo do poder público para lidar com o crime organizado. De que adianta os governantes insistirem na retórica de que não vão tolerar o avanço do narcotráfico se o país não dispõe de uma única prisão federal em condições de impedir que os criminosos continuem a comandar suas organizações de dentro das celas? A peregrinação do traficante mais conhecido do país primeiro de Bangu 1, no Rio de Janeiro, para Presidente Bernardes, daí para Maceió e, agora, de novo para o interior paulista, apenas no período de fevereiro até agora, é reveladora de uma situação que o país não pode mais permitir.
É significativo que o líder da facção criminosa Comando Vermelho, acusado até mesmo de ligações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), tenha feito o caminho de volta porque o governo não conseguiu levar adiante a idéia de federalizar um presídio do Piauí. Apesar das reiteradas promessas da criação de prisões federais, o país não dispõe de uma sequer até hoje. Mesmo a prisão de Presidente Bernardes, considerada a única do país em condições de impedir que um criminoso de alta periculosidade continue se constituindo numa ameaça para a sociedade, só está em funcionamento há pouco mais de um ano. Enquanto isso, o narcotraficante que nenhum Estado se dispõe a abrigar chega a mobilizar um aparato de até 140 agentes e delegados da Polícia Federal e duas aeronaves, consumindo recursos públicos até mesmo para uma atividade distante do cotidiano da maioria dos brasileiros como ir ao dentista.
O turismo de um narcotraficante pelo país, portanto, bancado pelos contribuintes, revela a ineficiência oficial frente ao crime. Fomentada pela leniência de sucessivos governos nos últimos anos, a criminalidade encontra terreno fértil em períodos de maior dificuldade financeira devido à facilidade com que o dinheiro do tráfico de drogas e de armas encontra para corromper até mesmo instituições. O enfrentamento do crime organizado de forma eficaz exige níveis de agilidade e de investimentos que o setor público, burocratizado e carente de recursos, não dispõe.
É mais do que hora, porém, de os governantes superarem essas adversidades, demonstrando na prática a capacidade de se estruturarem com recursos humanos e materiais para enfrentar os criminosos, incluindo os mais notórios. A sociedade só poderá ser convencida desta determinação quando as soluções incluírem até mesmo prisões adequadas para os diferentes casos, pondo fim a dispendiosos deslocamentos como os presenciados agora.
O turismo de um narcotraficante pelo país, bancado pelos contribuintes, revela a ineficiência oficial frente ao crime
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