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Cuiabá MT, Quarta-feira, 21 de Abril de 2021
CIDADES
Quinta-feira, 08 de Abril de 2021, 06h:22

CUIABÁ - 302 ANOS

Na Capital de MT sem emprego, surgem as viúvas de maridos vivos

Cidade não tem programa de proteção infantojuvenil, e enfrenta falta de empregos do setor industrial

EDUARDO GOMES
Da Reportagem
José Medeiros
A cidade com imponentes prédios residenciais e comerciais, shoppings e condomínios fechados é a mesma dos bairros Dr. Fábio, São Joao Del Rey, Osmar Cabral e Jardim Florianópolis.

No final dos anos 1960, no auge da guerra fria, nos cafés e bares, o humor macabro em Campo Grande se manifestava com o questionamento: Por que os russos não lançam uma bomba atômica no centro da América?

Dispensável dizer que se referiam a Cuiabá.

Esse era o sentimento dominante naquela cidade em busca da divisão territorial.

Em Brasília, o influente senador cuiabano Filinto Müller segurava os militares pela manutenção territorial, mas a criação de Mato Grosso do Sul aconteceu após sua morte e deu uma guinada na Capital mato-grossense, que enfrenta a ferida social aberta com o surgimento das viúvas de maridos vivos.

A divisão era inevitável, pois não havia identidade entre Cuiabá e Campo Grande, e a região ao Sul era bem mais desenvolvida.

Porém, ela perdeu a oposição de Filinto, que, presidindo o Senado, morreu num acidente aéreo em Paris, no dia 11 de julho de julho de 1971, data em que completava 73 anos.

A porteira estava aberta politicamente.

No Senado, Italívio Coelho (suplente de Filinto), Saldanha Derzi e Fernando Corrêa da Costa eram sul-mato-grossenses tanto quanto o governador Pedro Pedrossian e o presidente da Assembleia, José Cerveira.

Em 11 de outubro de 1977, o presidente Ernesto Geisel criou Mato Grosso do Sul.

A Cuiabá restou vazios demográficos, municípios pequenos e uma economia calcada na pecuária extensiva com pequeno rebanho, e o garimpo de ouro e diamante.

Em 1977, quando da divisão, o governador era o sul-mato-grossense Cássio Leite de Barros e o presidente da Assembleia, seu coestaduano Paulo Saldanha.

Arquivo

Aecim Tocantins

Prefeito de Cuiabá, Aecim Tocantins defendeu os interesses de Mato Grosso na comissão especial criada para a divisão patrimonial

Os dois somente não foram mais generosos com Campo Grande na partilha dos próprios estaduais por conta do professor Aecim Tocantins, ex-prefeito de Cuiabá, que defendeu os interesses de Mato Grosso na comissão especial criada para a divisão patrimonial.

Dos políticos em atividade, somente dois exerciam mandatos quando da divisão: Carlos Bezerra (MDB) e Júlio Campos (DEM) eram deputados federais.

Júlio foi prefeito de Várzea Grande em 1972, e Bezerra, em 1974, deputado estadual.

Cuiabá precisava se modernizar, oferecer melhor condição de vida, gerar empregos aos seus habitantes e, ao mesmo tempo, promover políticas sociais e ações administrativas voltadas para a nova configuração de Mato Grosso.

Acontece que a cidade não tinha mais Filinto e os líderes políticos estavam envelhecidos.

A década de 1980 começou com a explosão da soja e a criação de um parque sucroalcooleiro na região de Barra do Bugres (168 km ao Norte de Cuiabá), graças ao Programa Nacional do Álcool (Proálcool), do qual nasceram grandes usinas, começando pela Barralcool, e a maior do mundo, a Itamaraty, do empresário Olacyr de Moraes.

Sentindo necessidade de participarem das decisões políticas, usineiros, produtores rurais, empresários madeireiros e pecuaristas entraram em cena nos polos de produção.

Exemplos: André Maggi e César Maggi, em Sapezal; Alviar Rother, em Campo Novo do Parecis; Roland Trentini e Júnior Pitucha, em Alto Garças; Solange Kreidloro, em Nova Bandeirantes; Hélio Goulart, em Guiratinga; Érico Pianna, em Primavera do Leste; Maurício Tonhá, em Água Boa; Raquel Coelho e Luiz Castelo, em São José do Xingu; Arnóbio Andrade, em Marcelândia; Francis Maris, em Cáceres; Ilson Matischinske, em Santa Rita do Trivelato; Dilceu Rossato, em Sorriso; Adriano Pivetta, em Nova Mutum; Marino Franz e Luiz Binotti, em Lucas do Rio Verde; Adilton Sachetti, em Rondonópolis; e outros.

No plano estadual, esse processo se destacou com o senador, governador e ministro Blairo Maggi; com Rogério Salles, governador; com Otaviano Pivetta, vice-governador; com Carlos Fávaro, senador e ex-vice-governador; com Neri Geller e Nelson Barbudo, ambos deputados federais, e outros.

A ocupação do espaço político por empresários acendeu luzes amarelas em Cuiabá, que não tinha como concorrer contra aquela tendência, que, eleição após eleição, se fortalecia.

Porém, a Capital guardava um trunfo na manga: infraestrutura urbana para receber a sede de grandes empresas, o que ocorreu.

Nisso, resultou o fortalecimento empresarial da cidade e a ampliação de sua base representativa.

Mas, a classe política cuiabana foi além: se articulou e elegeu governador o empresário Mauro Mendes, que foi prefeito da Capital.

A cidade soube se mobilizar para receber as sedes de grandes empresas do agronegócio, e se articulou para dar o tom político estadual, mas não conseguiu atrair investidores no campo industrial, nem criou um guarda-chuva social.

Sem empregos e com crianças e jovens desamparados socialmente, a criminalidade cresce.

O montante do Produto Interno Bruto (PIB) cuiabano, de R$ 23,71 bilhões, não traduz a realidade social da cidade com renda per capita de R$ 39.043,32, que nem de longe lembra o desempenho de Campos de Júlio (553 km a Noroeste da Capital), com R$ 206.666,65.

José Medeiros

Cuiabá vista 6

Cuiabá não recebe nova indústria há muitos anos e, além disso, deixa de ser atrativa para investidores

O volume do PIB, em parte, se deve ao fato de que as sedes administrativas das trades agrícolas se concentram em Cuiabá, o que, estatisticamente, incorpora valores à apuração desse indicador econômico.

Mas, a realidade representada pela geração de emprego por elas fica distante: em Canarana (Nordeste), Alto Taquari (Sul de MT) e outros municípios.

Daí a pequena renda per capita lastreada em empregos públicos e no comércio.

Cuiabá não recebe nova indústria há muitos anos e, além disso, deixa de ser atrativa para investidores.

Instalada em 1998, a Ball Corporation produzia latas de cerveja e refrigerante, no Distrito Industrial, para atender o parque cervejeiro mato-grossense, mas, em julho de 2018, baixou as portas, fechando 75 postos de trabalho.

A falta de emprego, segundo analistas, cria a figura da viúva de marido vivo – aquela que permanece na periferia com os filhos, enquanto o marido trabalha em lavouras, obras rodoviárias ou construção de pequenas centrais hidrelétricas, em outros municípios.

Essa viuvez social facilita a cooptação de meninas na puberdade para a prostituição, e de meninos para o tráfico formiguinha.

De um lado, as sedes de grandes grupos; e de outro, a miséria social. Em meio aos extremos, surge a dualidade.

A cidade com imponentes prédios residenciais e comerciais, shoppings e condomínios fechados é a mesma dos bairros Dr. Fábio, São Joao Del Rey, Osmar Cabral e Jardim Florianópolis.

No topo da pirâmide social, a fatia menor da população. Do outro lado, a massa social sem horizonte.

Não é difícil imaginar que parte do alto índice de violência resulte desse choque.

A matriz econômica mato-grossense, com perfil produtor e exportador de commodities agrícolas, não sinaliza para a agroindustrialização em Cuiabá, o que verticalizaria a cadeia produtiva.

Localizado no centro do continente, Mato Grosso tem saídas regionalizadas.

É assim com o Nortão, que escoa commodities para o porto de Miritituba (PA); com o Chapadão do Parecis, que chega ao mar pela Hidrovia Madeira-Amazonas; com o Vale do Araguaia, que sonha acordado com a chegada dos trilhos da ferrovia Fico, que o ligará ao Maranhão; com a região de Rondonópolis, que, pelo trem da Rumo, alcança o porto de Santos (SP); e com a fronteira, que tem a Hidrovia do Mercosul.

A espera pelo apito do trem da Rumo em Cuiabá se arrasta há décadas, o parque industrial não se expande e a cidade não pode viver de sonhos.

Enquanto isso novas, gerações alcançam idade para trabalhar, mas não há emprego.

A Capital precisa se abrir à realidade.

Não pode mais se prender ao ontem, quando sua Rua 24 de Outubro concentrava mais poderosos do que o restante de Mato Grosso, pois nela residiam os ex-governadores Frederico Campos, Júlio Campos e Jayme Campos; os ex-senadores Benedito Canellas e Antero Paes de Barros; o ex-deputado estadual Zanete Cardinal; os ex-prefeitos Roberto França e seo Fiote (de Várzea Grande).

Uma cidade com 302 anos, onde nasceu Dante de Oliveira, o autor da emenda das Diretas; e o embaixador Roberto Campos, que, na condição de ministro, se recusou a assinar o ato institucional que cassou os direitos políticos do presidente Juscelino Kubitschek, tem maturidade suficiente para rever sua realidade.

Nenhum programa municipal ou estadual deve ser levado adiante, se não contemplar o amparo à população invisível que vive abaixo da linha da pobreza, que enfrenta uma tragédia social e que é percebida apenas pelos números da estatística policial.

A população cuiabana é pequena para o padrão das grandes metrópoles brasileiras.

No universo de 612 mil habitantes, boa parcela tem a situação social definida. Aos demais, que se ofereça assistência.

A união dos governos em todas as esferas com o empresariado pode resultar na criação de mecanismos de capacitação e formação de mão de obra com visão abrangente, não somente para gerar empregos em Cuiabá, mas para outras cidades.

Não se trata de sugerir a reedição das viúvas de maridos vivos, mas de permitir que seus filhos se qualifiquem para o mercado profissional nas áreas mais promissoras em Mato Grosso, que são o agronegócio, agroindustrialização, transporte, geração de energia elétrica, construção civil e mecânica.

Além disso, lhes oferecer qualidade de ensino regular, preparando-os para a universidade.

Enquanto a ex-cidade Portal da Amazônia, e agora Capital do Agronegócio, for tratada administrativamente como tal e de igual modo apresentada, Cuiabá manterá sangrando a grande ferida social que rouba o amanhã de jovens residentes em sub-habitação, filhos de pais ausentes e mães viúvas de pais vivos.

Uma reforma administrativa que também pode ser chamada de rearranjo político faria bem ao que Cuiabá tem de melhor: sua gente e, certamente, de seu túmulo, Pascoal Moreira Cabral comemoraria.

COPA DO MUNDO – Em 2014, Cuiabá foi uma das sedes da Copa do Mundo.

Além da Arena Pantanal, o Governo Estadual construiu trincheiras e viadutos.

Essas teriam sido superfaturadas, e o Ministério Público acusa o então governador Silval Barbosa e secretários.

Silval por. sua vez. delatou dezenas de ex-deputados estaduais e conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. que teriam recebido mensalinho para fazerem vista grossas – todos negam. 

Se a cidade não ganhasse essas obras de mobilidade. hoje seu trânsito seria o caos criado por um nó com a movimentação de sua frota de 455 mil veículos. que se somam aos 182 mil de Várzea Grande.

Parte do que deveria ser construído não saiu do papel no Governo de Silval Barbosa, que entregou o cargo em janeiro de 2015.

Dentre as obras que não foram construídas, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), previsto para duas linhas com 22 quilômetros, ligando o aeroporto em Várzea Grande a Cuiabá, onde se bifurcaria.

O projeto VLT foi sustentado por um empréstimo federal de R$ 1,47 bilhão ao Governo Estadual.

Divulgação

VLT

O último operário trabalhou no VLT em agosto de 2014 e, desde então, nada mais se fez

Vagões e locomotivas foram comprados, os trilhos também, sendo que num pequeno trecho foram assentados.

O último operário trabalhou no VLT em agosto de 2014 e, desde então, nada mais se fez.

O Palácio Paiaguás quer transformar o VLT em BRT na sigla em inglês, que, em tradução livre, significa ônibus rápido em corredor exclusivo.

O amanhã da espinha dorsal do transporte coletivo em Cuiabá passará pelo distante projeto da Copa do Mundo de 2014.

O tempo dirá se nos trilhos do VLT ou nos pneus do BRT, mas, independentemente da escolha, a mesma será tardia nessa tricentenária cidade que teima em manter bolsões de desenvolvimento e de indecisões.

Leia mais sobre o assunto:

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1 COMENTÁRIO:







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Carlos Baptistao Filho  10-04-2021 14:43:25
A mais dura e pura realidade.

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