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Cuiabá MT, Terça-feira, 04 de Agosto de 2020
CIDADES
Domingo, 14 de Junho de 2020, 10h:06

TRADIÇÃO

Coronavírus se alastra pelo Alto Xingu e faz aldeias cancelarem o kuarup, pela primeira vez

Associação indígena local recorreu a organização britânica para garantir recursos para isolamento das aldeias durante a pandemia

JOANICE DE DEUS
Da Reportagem
Ritual kuarup, no Xingu

A pandemia do novo coronavírus alcançou até aldeias isoladas no Parque Indígena do Xingu, no interior do Mato Grosso. A região registrou recentemente os primeiros casos, e muitas aldeias foram obrigadas a cancelar do kuarup, o ritual para celebrar a memória dos mortos que ocorre anualmente nos meses de seca, entre julho e setembro. 

O evento, cuja preparação começa em junho, costuma reunir as nove etnias entre as 16 aldeias do Alto Xingu há séculos. Quando uma liderança importante de alguma aldeia morre, sua família entra em processo de luto e, após um ano, pode autorizar o início de seu kuarup. As demais aldeias são então convidadas para os rituais que envolvem fartura de comida, recolhida pelos "donos" do evento, isto é, as famílias em luto, e oferecidas aos demais participantes.

Neste ano, cada aldeia terá de ficar isolada. Nenhum de seus membros poderá visitar outras comunidades, a fim de evitar a disseminação da Covid-19. Algumas aldeias decidiram cancelar o evento, enquanto outras os postergaram para 2021, quando deve haver dois períodos de celebração num mesmo ano.

Yanamá Kuikuro, presidente da Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu, afirmou  que sua aldeia, Ipatse, tomou algumas providências para se precaver contra a doença. Segundo ele, a associação construiu uma espécie de "casa de quarentena", que deve abrigar os indígenas com suspeita e confirmação de Covid-19. Até o momento, os dois indígenas infectados pelo coronavírus, da etnia kalapalo, já estão recuperados.

Acostumados a viver em comunidade e sem muitas condições de praticar o distanciamento social, já que em diversas aldeias as famílias dividem a mesma residência, os povos do Xingu estão vulneráveis à Covid-19. A situação chamou a atenção da organização britânica The People Place Project, que realiza trabalhos relacionados a artes, direitos humanos e justiça social.

O grupo abriu uma campanha de arrecadação para ajudar os povos do Xingu com mantimentos, a fim de incentivá-los a ficar em suas aldeias e não precisar viajar até cidades próximas, onde o risco de contágio pelo coronavírus é maior.

"A gente sabe a situação do Brasil, como o governo trata os indígenas. Então a gente criou essa campanha, em parceria com a associação dos kuikuro, para comprar todo o material de higiene, combustível, medicamentos, máscaras, álcool em gel. Embora eles morem isolados no Xingu, eles vão muito para outras cidades para trabalhar, visitar parentes. A gente precisava arrumar uma maneira de fazê-los ficar isolados",  afirma Thiago Jesus, gerente de projetos da The People Place Project.

Segundo Jesus, a campanha foi veiculada a uma peça chamada O Encontro, o que ajudou a divulgar a ação. O filme foi produzido pelo artista e cineasta Takumã Kuikuro, outra liderança do Alto Xingu, mas já saiu de cartaz.

Em menos de três semanas, a organização arrecadou 28 mil libras, equivalente a aproximadamente R$ 180 mil, vindas de 998 doadores de diversos países. O dinheiro será direcionado para as necessidades das aldeias mato-grossenses.

"O material vai chegar a Cuiabá, e de lá o transporte vai entregar até a aldeia. Vai ser tudo higienizado antes de colocar no transporte. Quando o carro entrar dentro da área indígena, a gente vai higienizar o carro também. Se a gente esperar o governo... O governo está difícil, muito atrasado. Não está ajudando os povos indígenas", afirma Yanamá Kuikuro.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que "tem reforçado as ações de prevenção ao contágio da Covid-19 entre a população indígena no estado do Mato Grosso" e que "o trabalho é realizado em conjunto com a Secretaria Especial de Saúde Indígena e órgãos locais". O órgão governamental afirmou também que "já liberou cerca de R$ 20,7 milhões para ações de proteção aos povos indígenas em todo o país exclusivamente para combate à Covid-19".

Os kuikuro, assim como as outras etnias do parque, agora esperam ter as condições para se isolar e esperar a pandemia passar. Até lá, cada uma das aldeias ficará em quarentena própria.

"O kuarup é importante e sagrado para nós. Nosso Criador é que fez o kuarup. Mas tudo bem, tem gente que vai fazer uma celebração simples, sem gente de fora, sem as outras aldeias. Aí não tem perigo dessa doença. É melhor assim", diz Yanamá.


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