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Cuiabá MT, Segunda-feira, 12 de Abril de 2021
CIDADES
Terça-feira, 06 de Abril de 2021, 09h:15

CUIABÁ - 302 ANOS

1970: UFMT, BR-163 e asfalto para o Sul marcam avanço da Capital

A capital isolada no centro do continente recebeu ondas migratórias e uma matriz econômica rural, virando metrópole

EDUARDO GOMES
Da Reportagem
Diário de Cuiabá
Conquistas como a criação da UFMT foram decisivas ao crescimento de Cuiabá, nos anos 1970

Em 1970, Cuiabá iniciou o salto que a transformaria de pequena cidade em metrópole com 618 mil residentes.

Mato Grosso despertava atenção em todos os cantos do Brasil por suas terras à espera de colonizadores.

Naquele ano, a população da capital mato-grossense era de 100.860 habitantes e, no Estado, incluindo a área que agora pertence a Mato Grosso do Sul, 1.597.090 moradores.

Cuiabá carregava o título de “Portal da Amazônia”, rótulo que também foi dado a outras cidades amazônicas, para estimular a ocupação do vazio demográfico, como parte da política de integração nacional dos militares no poder alicerçada no bordão “Integrar para não entregar”.

A cidade não tinha acesso pavimentado. O asfalto para Campo Grande - agora, Capital de Mato Grosso do Sul -  pela BR-163), e Goiás, pela BR-364), somente chegaria em dezembro de 1972.

Essas duas rodovias têm trecho remontado rumo Sul até Rondonópolis (212 km ao Sul de Cuiabá).

Uma década depois, se iniciou a pavimentação da BR-070/174 para Cáceres e Rondônia; da BR-163 rumo Norte, para Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso, Sinop, Itaúba, Nova Santa Helena, Terra Nova do Norte, Peixoto de Azevedo, Matupá, Guarantã do Norte e Santarém (PA); e da BR-070 para Barra do Garças.

No começo dos anos 1970, Cuiabá tinha telefone interurbano, mas os demais municípios mato-grossenses, não.

Quem morasse no interior ou na fronteira e precisasse fazer ligação interurbana, vinha até a Capital e era atendido nos postos telefônicos da Telemat – a estatal que monopolizava o sistema regional de telecomunicação.

A energia elétrica era assegurada por conjuntos estacionários da, à época, estatal Cemat, agora privatizada, rebatizada Energisa.

Os linhões de transmissão entre Cachoeira Dourada (GO) e Cuiabá somente seriam construídos alguns anos depois, graças do Projeto Cyborg.

O ano de 1970 também foi de importante conquista universitária para Cuiabá.

Em 12 de dezembro, o presidente Emílio Garrastazu Médici e o ministro da Educação, Jarbas Passarinho, criaram a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a Uniselva.

O médico cuiabano Gabriel Novis Neves foi seu primeiro reitor.

Secom-MT

BR-163

A pavimentação da BR-163 rumo ao Sul contribuiu para a arrancada de Cuiabá, a partir dos anos 70

No campus de Cuiabá (há campi no interior), uma placa mostra a reverência da UFMT com seu primeiro reitor. Nela está escrito: “Cidade Universitária Gabriel Novis”.

Além disso, 1970 marcou o início da agricultura mecanizada do arroz de sequeiro em escala e, logo em seguida, em 1973, chegou a soja em rotação da cultura – e deu no que deu.

Cuiabá nasceu da busca pelo ouro e, à época, ganhou fama nacional pelas famosas Lavras do Sutil.

Porém, em 1970, quando a agricultura mecanizada deu o ar da graça no cerrado mato-grossense, com o cultivo do arroz de sequeiro, a Capital, mesmo sem cultiva,r se tornou polo agrícola, pois era no seu comércio que os produtores se abasteciam, e nos bancos do Brasil e da Amazônia que obtinham financiamento para custeio agrícola, investimento, retenção de matrizes e de outras linhas de crédito.

Além disso, aproveitavam a viagem à Capital para conhecerem as novidades dos tratores CBT, na concessionária Santa Carmem, que tinha um comercial na Rádio A Voz D’Oeste, que atiçava a vontade de comprar o famoso amarelão CBT 1090: “Na Santa Carmem comprei meu trator / Meu camarada meu trabalhador”.

Àquela época, em Cuiabá, se alguém perguntasse pelo veterinário cuiabano formado no Rio de Janeiro, João Celestino Corrêa Cardoso Neto, somente seus familiares saberiam dizer de quem se tratava.

Porém, se a pergunta fosse “quem é João Balão?”, todos saberiam, porque esse apelido é que o tornou famoso.

João Balão foi ousado investidor em hotelaria, restaurantes, casas noturnas e loteamentos, além de integrar o Conselho Diretor da Fundação UFMT.

Sua identificação com a noite começou quando abriu o Bataclan, que foi uma das maiores casas noturnas do Centro-Oeste.

À época, Mato Grosso era palco de importantes ciclos econômicos e o Governo Federal derramava dinheirama nos projetos agropecuários da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).

O garimpo do diamante movimentava o Vale do Garças, Poxoréu e a região de Diamantino.

No Nortão, garimpeiros de ouro faziam fortuna do dia para a noite; empresários e aventureiros formavam filas nas agências do Banco do Brasil e da Amazônia, em busca de financiamentos a juros baixos e com boa carência.

O destino dos homens que movimentavam altas cifras nos municípios mato-grossenses era Cuiabá e, mais precisamente, o Bataclan, de João Balão, onde as mesas eram disputadas quase a tapas e mulheres bonitas, perfumadas e decotadas, enfeitiçavam os frequentadores, fazendo a noite não ter fim.

A noite cuiabana respirava João Balão, mas não somente ele.

O advogado Nazir Bucair montou o Sayonara, uma famosa casa de espetáculo,s que viu em seu palco os maiores ídolos da música brasileira de então.

Sayonara nada tinha a ver com a palavra japonesa que significa adeus.

Era a junção da primeira sílaba dos nomes da família Bucair: SA (do irmão Samir), YO (do pai Yosef), NA (de Nazir, o proprietário) e RA (do mano Ramis). 

As conquistas com a criação da UFMT, com a pavimentação rumo Sul e a abertura da Cuiabá-Santarém foram decisivas ao crescimento de Cuiabá.

A cidade, até então acostumada ao tipo de vida pacato, foi sacudida com a chegada de levas e levas de novos moradores, procedentes dos mais diversos lugares e com pronúncias carregadas com sotaques diferentes.

Não houve choque cultural. Ao contrário, além da miscigenação, aconteceu a plena identificação entre os anfitriões ditos “tchapa e cruix” e os paus rodados.

O fotógrafo armênio Lázaro Papazian, o Chau, com sua câmara americana Speed Graphic, registrou as transformações da cidade.

‘Papadhian’, no linguajar cuiabano, é nome de difícil pronúncia. Daí a irreverência popular lhe deu o apelido mais perfeito possível: Chau.

Isso porque o bonachão fotógrafo a se despedir dizia ‘ciao’, que significa adeus em italiano – expressão adotada mundo afora.

Chau não era imigrante isolado. Gente do mundo inteiro e de todos os cantos do Brasil descobriu Cuiabá, na década de 1950, mas, sobretudo, a partir de 1970.

Essa legião foi decisiva ao desenvolvimento cuiabano e, dentre ela, o empresário Sango Kuramoti, paulista, que respondeu por uma das maiores concessionárias Volkswagen do Brasil, a Trescinco, vendendo o ‘Bom senso sobre rodas’; o engenheiro civil mineiro Domingos Iglesias Valério, famoso por sua atuação na Defesa Civil; o agrônomo paulista Rômulo Vandoni, que foi grande tocador de obras públicas; o sacerdote católico e educador cacerense padre Firmo Pinto Duarte Filho, que criou o movimento Vinde e Vede; o senador, governador, ministro, empresário e megaprodutor rural paranaense Blairo Maggi; o cirurgião dentista, cantor e compositor sul-mato-grossense Moisés Martins; a paulistana e primeira desembargadora do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Shelma Lombardi de Kato; o empresário nissei Iosihua Matsubara, chamado de Paulo Japonês, que colonizou a Gleba Rio Ferro, onde surgiram as cidades de Nova Ubiratã e Feliz Natal; a professora aposentada e ex-reitora da UFMT, Maria Lúcia Cavalli Neder; o jornalista paulista Benedito Donizeti de Morais, que é cantor e músico com o nome artístico de Pescuma; e tantos outros, incluindo o craque paulista José Silva de Oliveira, que, em campo fazia acontecer com seu faro de gol, adotando o apelido de Bife – simplesmente o maior artilheiro do Verdão, o estádio que foi demolido, cedendo lugar à Arena Pantanal, onde foram disputados quatro jogos da Copa do Mundo de 2014.

A rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) começou a ser construída em 1971, sendo entregue ao tráfego cinco anos depois, e foi decisiva para a interiorização mato-grossense, o que refletiu em Cuiabá, onde pioneiros das frentes de colonização matriculavam filhos nas escolas e na UFMT.

Com a chegada dos novos moradores, a cidade sofreu grande mudança nos conceitos residenciais.

Surgiram os edifícios – até então, raros e ocupados por escritórios e hotéis – e os condomínios fechados.

Paralelamente a isso, a Capital enfrentou uma onda de invasão urbana. 

De 1970 a 1990, com a balbúrdia agrária urbana, a população saltou de 100.862 para 402.813, registrando crescimento populacional de 299,37% no período.

Grilos surgiram num piscar de olhos.

Muitos bairros resultantes daquelas invasões ainda desafiam a regularização fundiária da Prefeitura e do Instituto de Terras do Estado (Intermat) e, com isso, Cuiabá tem milhares de imóveis habitados, mas na contramão da legalidade.

Essa situação também acontece com conjuntos habitacionais onde mutuários quitaram o financiamento, mas o terreno não tem matrícula registrada em cartório.

A explosão demográfica sufocou alguns dos costumes, mas a maioria permanece como parte das manifestações culturais seculares cuiabanas.

Os tradicionais Siriri e do Cururu atravessam gerações, mesmo acuados pelos programas nacionais da televisão e a música eletrônica.

No bairro São Gonçalo Beira-Rio, berço de Cuiabá, a artesã, líder comunitária e folclorista Dona Domingas Leonor da Silva dirige o grupo de dança Flor Ribeirinha, que, na prateleira de suas premiações, guarda o troféu de Melhor do Mundo, conquistado no Festival Buyukçekmece de Cultura e Artes de Istambul, na Turquia, em 2017.

Nos anos 1970, na Imprensa nacional, não faltavam reportagens narrando a identificação do cuiabano com o guaraná ralado.

Repórteres informavam que a cidade acordava ao romper da aurora com o ‘reque-reque-reque-reque’ da grosa ralando o pau do guaraná.

Isso é parte do folclore. Agora, Cuiabá ganha às ruas bem cedo para o trabalho rotineiro, ao som dos veículos, das buzinas e da vibração de sua gente, que tem pressa.

O silêncio do ‘reque-reque-reque-reque’ não impede que todos, independentemente de suas origens, sempre que possível, tomem guaraná ralado industrialmente, sob o calor humano que eleva a temperatura dessa cidade de céu azul de rara beleza e onde as águas do rio Cuiabá passam ficando, igual aos que aqui chegam e comem cabeça de pacu.

Leia mais sobre o assunto:

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Investimento na logística levou a Capital para o centro do continente


1 COMENTÁRIO:







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Dulce Lábio   06-04-2021 11:11:54
Grande jornalista Eduardo Gomes, nos presenteando c verdadeiras aulas de História! Aguardando já o artigo de amanhã!

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