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Cuiabá MT, Terça-feira, 02 de Junho de 2020
ARTIGOS
Sexta-feira, 22 de Maio de 2020, 09h:32

ROBERTO BOAVENTURA

Terrivelmente cruéis

Somos um pouco disso tudo, com nítida perversidade arraigada em muitos de nós

O título deste artigo dialoga com a expressão “terrivelmente evangélico/cristão”, enunciada por Bolsonaro por conta de indicação que fará, em novembro, de um juiz ao Supremo Tribunal Federal.

Quando o presidente verbalizou a expressão acima, várias análises surgiram, como a de Reinaldo Azevedo que, em seu site (10/07/2019), registrou que “Bolsonaro tinha muitos advérbios para modificar o adjetivo "evangélico"; e citou “alguns que integram o paradigma ligado à força e à convicção: ‘profundamente’, ‘convictamente’, ‘serenamente’, ‘inquestionavelmente’ e, até, sob certo sentido, ‘generosamente’...”  

Na semântica, “terrivelmente” liga-se a: “aterrorizante, amedrontador, angustiante, apavorante, arrepiante, assombroso, assustador, atemorizador, aterrorizador, atroz, espantoso, hediondo, horrível, intimidador, medonho, pavoroso, temeroso, temível, terrificante, terrífico, torvo...”; ou seja, a tudo que um evangélico/cristão não deveria ser, pelo menos não, na perspectiva do Novo Testamento (NT).

Em que pese “terrivelmente” ligar-se a circunstâncias nada agradáveis, ou justamente por isso, Bolsonaro mantém coerência com sua forma de ser-e-estar.

Quando ele utiliza esse advérbio, o faz imerso ao mar de sangue que escorre de incontáveis páginas do Velho Testamento.

Estas, se espremidas, para o delírio de mentes belicosas, sangram mais do que as de jornais sensacionalistas; tudo porque, naquelas páginas, predomina a máxima do “dente por dente, olho por olho”, bem o oposto do que a Cristo é imputado nas páginas dos evangelistas do NT.

Em que pese 'terrivelmente' ligar-se a circunstâncias nada agradáveis, ou justamente por isso, Bolsonaro mantém coerência com sua forma de ser-e-estar

Mas por que falar disso?

De saída, pelo escárnio do pastor Waldemiro Santigo, que está vendendo “feijões que curam coronavírus”. Se isso não fosse trágico, seria digno de riso. Santiago pede às TVs que realizem reportagens sobre o “milagre do feijão”.

Contra essa aberração, o Ministério Público Federal pediu investigação, pois o referido pastor sugere R$ 1 mil dos fiéis pelas sementes.

Nisso, o órgão vê indícios de estelionato cometido por Santiago, que “praticamente debocha (aliás, há décadas) da boa-fé de seus seguidores” ao vender a falsa cura e ainda estampar nos feijões o slogan da Igreja Mundial do Poder de Deus: “Não se pode, a título de liberdade religiosa, permitir que indivíduos inescrupulosos ludibriem vítimas vulneráveis e firam a fé pública... valendo-se da crendice alheia, mediante sofisticados esquemas publicitários, psicológicos e tecnológicos”, diz um procurador do MPF.

Outro motivo para falar disso é complexo e surge por conta das considerações acima; ele recai no dilema de procurarmos saber quem somos como brasileiros: cordiais, como idealizou Sérgio Buarque? Solidários? Felizes? Macunaímicos, à lá Mário de Andrade, ou seja, sem nenhum caráter? Ou simplesmente “...batuqueiro, bragulheiro, baderneiro, bandoleiro...”, como cantou Gonzaguinha?   

Somos um pouco disso tudo e muito mais, mas com nítida perversidade arraigada em muitos de nós, principalmente nos que seguem determinados mitos, religiosos e/ou políticos.

Com respeito às divergências, e deixando de lado o empresariado da fé, que nada de braçada na onda da ignorância vigente, mas um ser humano não perceber manifestações odiosas, preconceituosas, perversas vindas do “mito” político da extrema direita brasileira é ser um seu igual: é questão de espelho. Pior: conforme pesquisas, há cerca de 30% desse tipo.

Portanto, o brasileiro, na proporção da belicosa cristandade de muitos, é também “terrivelmente” cruel.

E tudo em “nome do Pai”. Ai se não fosse...

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é professor de Literatura da UFMT, doutor em Jornalismo pela USP.
rbventur26@yahoo.com.br  


1 COMENTÁRIO:







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NILSON DAUZACKER  22-05-2020 12:15:03
Bom dia Roberto, o texto é longo, mas estou enviando apenas o início para ler e refletir! Autoria de Caio Copolla Essa será minha última postagem sobre o momento em que vivemos. Por mais que eu tente, não conseguirei ser curto nas palavras, mas se vc, assim como eu, deseja um Brasil melhor, creio que valerá ler até o final. Sabemos que esse país é dominado por uma elite política que, trocam as cadeiras mas não trocam a corrupção. Antes éramos roubados por Portugal e hoje, por essa elite maquiavélica. Não distribuem água no interior nordestino, não oferecem educação boa, inventam gastos e necessidades q sempre teve um único foco: manter o povo “preso” e devedor de favores para ganharem votos, além de não ter que enfrentar um povo estudado e inteligente. Sempre foi assim e em nossas mentes, tinham os mocinhos e os bandidos. PSDB e PT. Cada qual com seus aliados e com PMDB aliado de todos. Nada disso é novidade pra ninguém! Muito bem, nos últimos anos, graças a Lava Jato encabeçada por Moro, descobrimos o quanto éramos enganados. Ambos partidos nasceram de anistiados e hoje entendemos o porquê eles fugiram. Todos safados. Todos metidos em sujeiras. Todos! Aí aparece Bolsonaro que promete tirar os brasileiros do jugo dessa elite corrupta e, ou por acreditar nele ou por não haver outro que derrubasse o PT, ganhou as eleições. Por incrível que pareça, não é que ele cumpriu com o que prometeu? Tem tentado limpar ministérios, universidades, estatais, renovar a forma de se fazer política nesse país, acabar com a corrupção, enfim, fazer o que todos nós sempre quisemos. Nunca nossas estatais deram tanto lucro, nunca os políticos ladroes ficaram tanto tempo sem mamar, nunca tivemos ministros tão técnicos, nunca tivemos um governo sem nenhum escândalo de corrupção, nunca foi tentado moralizar tanto esse Brasil. Acontece que concomitantemente a esse sucesso, os que faziam parte do sistema, passaram a atacar Bolsonaro dia e noite, tirando o foco das coisas boas desse governo, desviando a atenção para coisas banais. Esse país sempre parou no Carnaval e Futebol. A política do pane et circus sempre funcionou que é uma beleza por aqui. Mas agora, discutimos que Bolsonaro dá entrevista de havaianas, que ele fala demais, que ele não tem postura de presidente, que ele aceita todas as provocações, que ele é tudo, menos quem está colocando o país nos eixos. Já pararam pra pensar nisso?

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