A política brasileira vive um momento de revelação.
Durante muito tempo, o debate público foi organizado em torno da oposição entre esquerda e direita, como se essa divisão, por si só, fosse suficiente para explicar os conflitos do país.
No entanto, a discussão recente sobre a redução da jornada de trabalho mostrou que a questão central é outra: saber quem defende os interesses da maioria assalariada e quem protege os privilégios de quem lucra com a exploração da força de trabalho.
Historicamente, essa divisão entre “os de cima” e “os de baixo” foi disfarçada por discursos que prometiam conciliação, modernização ou neutralidade técnica.
Desde a 2ª Revolução Industrial, foi explicitado o conflito “capital” versus “trabalho”; porém, na prática, sempre que surgem pautas que tocam diretamente a vida do trabalhador — como salário, direitos previdenciários ou redução da jornada — fica evidente de que lado cada deputado federal e senador está.
Mais importante do que perguntar quem é de esquerda ou de direita é perguntar quem, de fato, se posiciona ao lado do povo trabalhador em suas lutas concretas
Os que se apresentam como defensores da eficiência econômica, muitas vezes, recusam qualquer medida que diminua a exploração ou distribua melhor o tempo e a riqueza produzida coletivamente.
Em 1917, durante a 1ª Guerra Mundial, os trabalhadores brasileiros vivenciaram uma dura realidade: alta de preços e aumento excessivo das jornadas de trabalho nas fábricas (16 horas).
Carestia nos gêneros alimentícios e maximização da mais-valia. Estava criado o cenário para a primeira greve geral do país.
Atualmente, o debate sobre a jornada de trabalho escancarou essa realidade porque colocou em confronto dois projetos de sociedade.
De um lado, está a defesa de condições mais dignas para quem trabalha, com mais tempo para descanso, estudo, convivência familiar e qualidade de vida (escala 5x2, a PEC da Humanização).
Do outro, aparece a lógica de que o lucro empresarial deve estar acima de qualquer consideração humana (escala 7x0, a PEC da Escravidão), assinada por 41 senadores da extrema-direita, inclusive por Flávio Bolsonaro.
Quando a redução da jornada é tratada como ameaça, o que se revela não é preocupação com a economia nacional, mas resistência em renunciar a um modelo sustentado pelo desgaste permanente do trabalhador.
Por isso, insistir apenas nos rótulos tradicionais da política já não basta para compreender o Brasil de hoje.
Mais importante do que perguntar quem é de esquerda ou de direita é perguntar quem, de fato, se posiciona ao lado do povo trabalhador em suas lutas concretas.
A jornada de trabalho tornou visível aquilo que, muitas vezes, se tentou esconder: em uma sociedade marcada pela desigualdade, toda escolha política revela, cedo ou tarde, se está com “os de cima” ou com “os de baixo”,
Afinal, como afirmou Bertrand Russell: "Uma das tarefas mais difíceis da humanidade é entender que o trabalho não é o fim da vida, mas um meio para ela."
SÉRGIO CINTRA é professor de Linguagens e servidor do TCE-MT.




