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Cuiabá MT, Segunda-feira, 12 de Abril de 2021
ARTIGO
Segunda-feira, 05 de Abril de 2021, 15h:07

EDNA SAMPAIO

Pandemia: indignação e absurdos

A centralização da vacina é uma expressão do racismo estrutural: os mais pobres são negros e pardos

O Governo Municipal de Cuiabá, através da Secretária de Saúde, que coordena o combate à pandemia, veio a público por meio da imprensa expor sua indignação às minhas críticas contra a centralização da vacina e a morosidade na imunização.

Não, não foi uma indignação pelo fato de Cuiabá, dentre os 5.570 municípios brasileiros, ser a 15ª cidade com maior número de mortes no Brasil, superando municípios com população bem maiores como Ribeirão Preto/SP que tem mais 700 mil habitantes ou São Gonçalo /RJ, que tem mais de um milhão de habitantes!

A indignação do Governo Municipal de Cuiabá não é com o fato de fecharem as portas para a vacinação num feriado, mesmo que não tenhamos conseguido aplicar nem as doses que já foram recebidas.

Conforme Portal do Governo do Estado de Mato Grosso, menos de 70% das doses recebidas foram aplicadas. E, o que importa a aflição de quem espera pela imunização para não morrer?

Também não houve indignação quando a superlotação do Centro de Eventos do Pantanal levou à decisão mais fácil: fechar os portões e deixar à deriva quem tinha agendado, com muito custo, para vacinar seus idosos e, no dia seguinte, reduzir ao máximo a vacinação. Perdemos mais um precioso dia, nesta corrida da vida contra a morte.

Quanto isso vai significar em vidas?? A burocracia se impôs sobre a vida e, a meta diária de vacinas responde à capacidade dessa burocracia, não à urgência de preservar vidas.

Não houve indignação com a centralização da vacina que excluiu os mais pobres, que não têm computador, internet, email ou impressora para gerar e imprimir um QR Code ou dinheiro para ir quantas vezes necessárias a um lugar aonde o ônibus é difícil e a secretaria não hesita em mandar de volta para casa os que buscam vacina e o direito à vida.

A centralização da vacina é uma expressão do racismo estrutural, pois os mais pobres são negros e pardos, justamente os que mais morrem nesta pandemia e, os que estão tendo menos acesso à vacina.

Por isso, a “estratégia” do Governo Municipal contribui para ampliar as desigualdades sociais e raciais naquilo que é o direito mais fundamental de todos: a vida!

Para acrescentar: não há qualquer iniciativa de garantia de renda aos que clamam por comida no momento mais cruel da pandemia. E todos já sabem: a pandemia ainda demora a passar. E essas vidas ignoradas, não importam?

Não há indignação com a ausência de estratégia do Poder Executivo Municipal e o alinhamento com o negacionismo bolsanarista para o enfrentamento à pandemia, o que tem permitido que o vírus corra solto por aqui e, até o momento, essa política de morte conseguiu colocar o Brasil no topo de mortes no mundo com mais de 300 mil vidas perdidas e, Cuiabá como a 3ª capital com maior letalidade da doença.

Qual indignação será capaz solidarizar com a dor de tantas famílias cuiabanas e brasileiras??

Nesta pandemia, a inutilização dos poderes é visível: Quem é a autoridade com voz de convocatória para reunir todos os esforços para salvar vidas?? Salvar vidas, neste momento, exige contrariar interesses que sempre dominaram o Estado e o SUS. Não é a lógica do mercado que regula a compra de serviços privados que irá salvar vidas.

É preciso o Poder Público para salvar vidas, é preciso um SUS fortalecido em sua plenitude, não apenas onde interessa aos interesses privados.

Como vereadora, exijo respeito à institucionalidade e ao Poder Legislativo. Não vou me sujeitar à prática corrente que transforma os membros do Poder Legislativo em sócios menores do Poder Executivo. Fui eleita para ser vereadora, não para ser porta-voz da Prefeitura



Os interesses econômicos se colocam acima da vida e os governos a serviço do Mercado. Como se o Mercado pudesse funcionar normalmente numa sociedade que amontoa cadáveres. E, desesperadoramente para os cidadãos, nossos governos se mostram inertes e inventam toda forma de pirotecnia política para se desresponsabilizarem e responsabilizarem, exclusivamente, a própria população, vítima desses desgovernos.

O discurso do Governador lavando as mãos e entregando ao povo a responsabilidade de se “salvar” não é diferente daquilo que temos visto em Cuiabá. A verdade é que o povo está só e o Governo Municipal achando absurda minha crítica.

Não é preciso mostrar fotos sobre uma realidade que é amplamente conhecida não apenas dos cuiabanos como do Brasil inteiro: as vacinas são poucas e, mesmo poucas, não conseguimos aplicar nem esse pouco.

A teimosia negacionista do Governo Municipal tem imposto luto a tantas famílias cuiabanas e, é evidente a dificuldade de olhar para além do cotidiano imediato e tirar consequências dos ensinamentos da Ciência.

E assim se justificam em um rosário de lamentações sobre o quanto estão fazendo “tudo que podem.” Não é sobre o esforço (meio) que deveria incidir a avaliação de quem tem a responsabilidade de fazer, é sobre o resultado. E o resultado é a morte de tantos!

Faltam medidas realmente eficazes e decretos são editados sem ter por base qualquer estratégia que envolva todas as áreas do governo e, também, a sociedade para enfrentamento a esta guerra. Parece que a pandemia é problema apenas de uma pequena equipe da Secretaria de Saúde. Falta comando, falta estratégia, falta visão, falta governo! Faltam Estado e Município.

O Governo Municipal reproduz a lenda da avestruz que, numa situação de susto ou muito medo, enfia a cabeça num buraco e, de lá nada se pode ouvir, nada se pode ver ou fazer.

Fui eleita para representar e defender a população cuiabana e, não posso me calar diante da necropolitica que Cuiabá vem adotando, alinhada ao Governo Bolsonaro. O Governo Municipal embarcou tardiamente no bolsonarismo e temos pago em vidas o preço dessa escolha.

Como vereadora, exijo respeito à institucionalidade e ao Poder Legislativo. Não vou me sujeitar à prática corrente que transforma os membros do Poder Legislativo em sócios menores do Poder Executivo. Fui eleita para ser vereadora, não para ser porta-voz da Prefeitura. Que aprendam a conviver com as críticas, porque elas são necessárias e esta é a forma como uma vereadora petista e de oposição irá contribuir com a Gestão Municipal, num regime democrático.

Por fim, a indignação do Prefeito e da Secretária deveria ser com a dor causada a mais de 2 mil famílias que perderam seus entes queridos em Cuiabá por falta de vacinas e pela ineficácia das ações governamentais.

EDNA SAMPAIO é professora da Unemat, gestora governamental, doutora em Ciências Sociais e vereadora pelo PT em Cuiabá.


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