| SHOW Dunga Rodrigues, hoje no Museu do Rio
Da reportagem
O Museu do Rio Cuiabá "Hid Alfredo Scaff",
durante todo o mês de outubro realizou nos domingos, às
18h, o projeto Domingo no Porto - Ciclo de Música
Erudita e Instrumental, com entrada franca. Foram feitas
várias apresentações de grupos de Música de Câmara
da Capital, levando a música erudita à todos de uma
forma geral e tornando-a acessível, principalmente aos
que nunca tiveram oportunidade.
No dia 3 se apresentou no Museu do Rio Cuiabá o
"Duo de Violões "Brito/Mil Homens", dia
10, o grupo regional de choro "Chorando
Baixinho", no dia 17, a "Orquestra de
Violões", e no dia 24, o "Quinteto de Cordas
UNIC".
Neste Domingo, às 18h com entrada franca, quem
encerrará a temporada de Música Erudita e Instrumental,
é Dunga Rodrigues. O programa será dividido em duas
partes. Na primeira ela apresentará grandes Clássicos e
na segunda parte do programa, estará executando suas
próprias composições. No decorrer de cada música
explicará com detalhes, o significado de cada uma.
Também, fará duas homenagens especiais, à Dona Maria
Arruda Müller, que contará com a participação da
cantora Roma. E o outro homenageado, será o juiz
Leopoldino Marques do Amaral, recentemente assassinado.
Dunga nasceu em Cuiabá, no ano de 1908 e começou
seus estudos musicais aos 6 anos, no Asilo Santa Rita,
com a professora Irmã Marie Vicent. Ela teve seu
primeiro piano somente aos 16 anos. Se diplomou em 1972,
no Conservatório Musical de Mato Grosso, com a
professora Dalva Lúcia Duarte. Este curso foi feito em
convênio com o Conservatório Brasileiro de Música, do
Rio de Janeiro, onde concluiu sua graduação. No ano
passado enquanto comemorava 90 anos, fez uma
especialização em Música Brasileira, na Universidade
Federal de Mato Grosso.
Aos 18 anos, Dunga Rodrigues já lecionava piano e
francês. Sempre trabalhou com professora em escolas
públicas. Ministrava aulas de música em sua casa, no
"Centro Artístico e Musical de Cuiabá", no
"Conservatório Mato-grossense de Música", no
"Conservatório Musical de Mato Grosso" e no
Conservatório Musical "Dunga Rodrigues".
(box)
Programa
Parte I
1.Brasílio Itiberê
A Sertaneja
2. Fréderic Chopin
Valsa nº7
3. Fréderic Chopin
Valsa nº1
4. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Favorito
5. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Você Bem Sabe (Polca-Lundu)
6. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Sagaz(Tango Brasileiro)
7. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Escorregando(Tango)
8. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Remando (Tango Brasileiro)
9. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Odeon (Tango Brasileiro)
Parte II
10. Dunga Rodrigues (1908)
Serenata Sideral (Valsa) (uma homenagem à Dona Maria
Arruda Müller) Participação especial da cantora, Roma.
11. Dunga Rodrigues
Todos a la "Seu Jota"(Rasqueado)
12. Dunga Rodrigues
Seu Maurício ( Rasqueado)
13. Dunga Rodrigues
Maria Minha Filha (Rasqueado)
14. Dunga Rodrigues
Leopoldino Marques do Amaral (Valsa)
15. Peça montada por Dante Miraglia, Gastão Cunha e
Nilson Constantino
Pout-Pourry de Rasqueado
MÚSICA
Legião Urbana traz trabalho inédito
Rodrigo Dionisio
Da Agência Folha São Paulo
Chega às lojas no final da próxima semana uma
preciosidade: o CD e o VHS com a gravação integral do
"Acústico MTV'' do Legião Urbana. Gravado em 1992,
o show foi um dos primeiros acústicos produzidos pela
emissora e, até agora, não estava disponível para o
público.
"Nós gravamos tudo como um programa de TV, não
para lançar em disco. Na época, os acústicos nem eram
lançados em CD'', afirmou Dado Villa-Lobos, guitarrista
do Legião, durante a entrevista coletiva de lançamento
dos trabalhos anteontem.
O vídeo e o disco têm a mesma duração (76 minutos)
e incluem, além das canções que foram exibidas na
época e gravadas no CD "Música Para
Acampamentos'', como "Teatro dos Vampiros'' e
"Índios'', covers e comentários de Renato Russo
captados durante os "intervalos da gravação''.
Entre as canções estão "Hoje a Noite Não Tem
Luar'', de A. Monroy e C. Villa de La Torre, em versão
de Carlos Colla, que foi gravada originalmente pelo grupo
Menudo. "O Renato vivia dizendo que queria cantar
Menudo e nós dizíamos que não. No acústico, durante
um intervalo, sem saber que estava sendo gravado, ele
cantou essa música, que acabou virando 'single' do CD,
sete anos depois'', disse Dado.
Nas palavras do próprio Renato, se justificando antes
de cantar, a música "é cafona, mas é bonita''.
Mas, muito além do cafona, também estão registradas
"Head On'', do Jesus & Mary Chain, e "The
Last Time I Saw Richard'', de Jony Mitchell.
"Esse disco é uma espécie de polaróide da
banda naquela época. É uma polaróide do país, da MTV
em 1992'', disse Marcelo Bonfá, baterista do Legião.
"É um disco datado. Data de 1992'', complementou,
rindo, Dado.
"O CD e o VHS só estão saindo por causa da
falta do Renato. Se ele estivesse vivo nós estaríamos
fazendo outra coisa. Esse trabalho mesmo só demorou para
sair porque nós tínhamos coisas novas para trabalhar'',
disse Dado.
"Além disso, toda essa história do Legião, de
participar de tributo ao Renato, de ir a programa de
rádio, puxa a gente para trás, até porque não há
nada mais inédito do Renato para lançar, só versões
de trabalhos que já são conhecidos. Parece um velório
interminável'', afirmou o guitarrista.
Mas quem imagina que esse acústico relançado sete
anos depois é o canto de cisne do Legião se engana.
"Nós ainda temos muitas fitas de shows, gravações
ao vivo que precisam ser ouvidas e recuperadas. Era
idéia do Renato lançar uma caixa com todo esse
material, e agora nós pretendemos fazer isso'', afirmou
Bonfá.
"A gente conta para eles o nome da caixa?'',
perguntou Bonfá para Dado. "Não, ainda não, é
segredo'', respondeu o guitarrista, o que pode indicar
que a tal coleção deve ser um pouco mais do que um
simples projeto.
O CD e o VHS do acústico chegam às lojas no dia em
que a MTV leva ao ar a versão integral do programa, na
sexta-feira da próxima semana. A primeira exibição
acontece às 22h, com reapresentações no sábado (às
14h30 e às 20h30) e no domingo (às 16h30).
Crítica
O Legião Urbana sempre foi uma banda musicalmente
fraquinha. Parecia mais cover do Joy Division, em seu
primeiro disco, tanto na linha de baixo quanto nas
performances epiléticas de Renato Russo nos shows.
Mas o grande diferencial e tábua de salvação do
grupo sempre foram as letras cheias de poesia e raiva do
seu líder. E no CD acústico isso fica muito claro. A
música é pano de fundo suave para a verborragia de
Renato. Registro histórico de um dos grandes letristas e
intérpretes de suas canções dos anos 80, 90...
CONFIRA AS MÚSICAS DO ACÚSTICO DO LEGIÃO
"Braader-Meinhof Blues'' ("Legião Urbana'')
"Índios'' ("Dois'')
"Mais do Mesmo'' ("Que País É Este?'')
"Pais e Filhos'' ("As Quatro Estações'')
"Hoje a Noite Não Tem Luar'' (cover do Menudo)
"Sereníssima'' ("V'')
"Teatro dos Vampiros'' ("V'')
"On The Way Home''/"Rise'' (covers do Buffalo
Springfield e do PIL, respectivamente)
"Head On'' (cover do Jesus & Mary Chain)
"The Last Time I Saw Richard'' (cover de Jony
Mitchell)
"Metal Contra as Nuvens'' ("V'')
"Há Tempos'' ("As Quatro Estações'')
"Eu Sei'' ("Que País É Estes?'')
"Faroeste Caboclo'' ("Que País É Estes?'')
LIVROS
Sonoras leituras de Pixinguinha e Baden
Música brasileira invade as livrarias com
biografias e livros para as crianças
Especial para o DIÁRIO
Baden Powell, Pixinguinha, Bezerra da Silva, Nelson
Cavaquinho. Cada um a seu modo e a seu tempo
traçou ou vem traçando trechos consideráveis da
história da música brasileira. Pedaços dessa história
estão chegando às livrarias numa série de lançamentos
que vão do estudo científico caso de Bezerra da
Silva Produto do Morro ao texto para
crianças Pixinguinha para Crianças Uma
Lição de Brasil.
A prateleira reservada aos livros sobre música
brasileira também está sendo enriquecida pela história
do violonista Baden Powell O Violão Vadio de
Baden Powell, escrita por Dominique Dreyfus e deve
ganhar novos títulos até o final do ano. Flávio
Moreira da Costa escreve as últimas linhas da biografia
de Nelson Cavaquinho, prevista para chegar às livrarias
em dezembro, pela série Perfis do Rio, da Relume-Dumará
(a mesma que anuncia para os próximos dias lançamento
de título dedicado a Chico Buarque, escrito por Regina
Zappa).
Também antes do Natal, a Editora 34 dá
prosseguimento à Coleção Todos os Cantos
inaugurada com o livro sobre Baden Powell com
Música Sertaneja, de Rosa Nepomuceno, e Sepultura, de
André Barcinski e Sílvio Gomes (antes, a coleção se
estende à música internacional lançando New Jazz, de
Roberto Mugiatti, que chega ainda este mês às
livrarias).
Bezerra da Silva Produto do Morro é mais do
que a biografia do sambista. Embora se dedique
inicialmente a narrar a trajetória de Bezerra e a tecer
comentários sobre a obra do artista, a autora Letícia
C. R. Vianna estende-se à análise do universo do samba
as relações raciais, a malandragem, as origens
do gênero e seu estabelecimento como cultura de massa e
produto de mercado.
Enquanto Letícia tem como alvo principal o público
acadêmico, particularmente o interessado em antropologia
social, Carlos Alberto Rabaça volta-se para crianças em
idade escolar com Pixinguinha Para Crianças Uma
Lição de Brasil. Para narrar a história do compositor,
o livro organizado por Rabaça usa artifícios próprios
da literatura infantil texto leve com toques de
humor e ilustrações coloridas, elaboradas por Guto
Nóbrega.
A Petrobras tem um projeto, o Leia Brasil,
que leva caminhões-bibliotecas a todo o interior do
Brasil. Pesquisa feita por meio desse projeto mostrou que
os jovens desconhecem nomes marcantes da história da
música, da poesia e de outras áreas da cultura
nacional. Além de que não existem livros sobre essas
personalidades escritos em linguagem própria para os
jovens. Daí surgiu a idéia do livro, conta
Carlos Alberto Rabaça, dono da editora Multiletra e da
Strauz Comunicação e Marketing, encarregadas de
produzir e editar Pixinguinha Para Crianças. Rabaça tem
outros três livros prontos, sobre Braguinha, Noel Rosa e
Lamartine Babo, que serão lançados um a cada ano, a
partir de 2000. Todos seguem a linha didática.
Pixinguinha Para Crianças traz nas últimas páginas
pequeno dicionário de gêneros musicais que
inclui termos como maxixe, choro e foxtrote. Além disso,
vem acompanhado de CD produzido pelo violonista Henrique
Cazes, diretor da Orquestra Pixinguinha, que também
fará a produção musical dos próximos livros da
série. Entre as 12 faixas, clássicos do mestre do
chorinho, como Carinhoso, Gavião Calçudo e Um a Zero.
Mas o livro só chegará ao mercado daqui a um ano, de
acordo com contrato entre Rabaça e a Petrobras. A
primeira tiragem de cinco mil exemplares esgotou
em distribuição gratuita da companhia por escolas e
outras instituições antes mesmo de ser lançado
oficialmente, quarta-feira passada, no Rio de Janeiro.
COMO UM ROMANCE
Francesa que desde 1984 tornou-se especialista na
pesquisa de música brasileira (é autora de A Vida do
Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga), a jornalista Dominique
Dreyfus destrincha nas 350 páginas de O Violão Vadio de
Baden Powell a história do garoto que um dia roubou o
violão da tia que, sem saber tocar, mantinha o
instrumento pendurado na parede para se tornar um
dos mais respeitados instrumentistas e compositores
brasileiros.
Dominique passa pelas relações familiares, as
primeiras participações em programas de rádio e os
encontros artísticos que definiriam a trajetória
profissional de Powell. A riqueza de detalhes com que
narra certas passagens da vida do músico dá ao livro
sabor de romance e deixa transparecer a paixão da autora
pelo tema que se propôs a desvelar. Outro ponto
favorável na publicação é o rico material
fotográfico fac-símiles de matérias, capas de
discos, fotografias em família, com amigos e no palco.
O livro de Dominique Dreyfus é o primeiro de uma
série de 13 títulos sobre música popular, que serão
publicados sob o selo Coleção Todos os Cantos. O
jornalista e crítico musical Tárik de Souza coordena a
coleção, que tem patrocínio do Grupo Pão de Açúcar
e lançará ano que vem, entre outros, Do Frevo ao Mangue
Beat, de José Telles; Jovem Guarda, de Marcelo Fróes;
Vamos Bater Lata, de Jamari França; O Tempo e o Mar,
biografia de Dorival Caymmi escrita pela filha Stella, e
A Era dos Festivais, de Zuza Homem de Mello.
Antes, em dezembro, a Relume-Dumará publica a
biografia de Nelson Cavaquinho. Um livro que, segundo
Flávio Moreira da Costa mesmo autor de Modelo
Para Morrer, lançado recentemente pela Record, começou
a ser escrito há 30 anos.
Fiz contrato com a editora para escrevê-lo
em três, quatro meses, mas na verdade o livro existe
dentro de mim desde que conheci Nelson e mergulhei na
obra dele. Nesse tempo, a idéia foi
germinando.
Concretizada, a idéia não se limita a biografia
pessoal ou análise de obra. Nelson nunca se
dividiu entre vida e obra, o violão era uma extensão do
braço dele, afirma Flávio Moreira, que,
depois de três décadas acompanhado o sambista pelos
botequins do Rio, não precisou muito para escrever o
livro. Uniu o conhecimento pessoal a entrevistas com
figuras essenciais na história de Nelson Cavaquinho,
como Guilherme Brito e Beth Carvalho.
SERVIÇO
BEZERRA DA SILVA PRODUTO DO MORRO
Livro de Letícia C. R. Vianna. Lançamento Jorge Zahar
Editora. 165 páginas.
O VIOLÃO VADIO DE BADEN POWELL
Livro de Dominique Dreyfus. Primeiro volume da
coleção Todos os Cantos, da Editora 34. 380 páginas.
Preço: R$ 29,00.
PIXINGUINHA PARA CRIANÇAS UMA LIÇÃO DE
BRASIL
Livro organizado por Carlos Alberto Rabaça. Acompanha
CD com 12 faixas. Distribuído gratuitamente pela
Petrobras. Primeira edição esgotada. A empresa está
preparando segunda edição. Maiores informações no
telefone O(xx)21-512-0646
FOTOGRAFIA
Retratos do século
Tête à Tête revela 134 celebridades
fotografadas por Cartier-Bresson
Da redação
O fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson não
fotografa. Denuncia. E usa a expressão, os gestos e até
traços cunhados pelo tempo nos rostos para compor a
imagem que imortaliza modelos. E os perpetua porque
mostra exatamente quem são. Basta apreciar as 134 fotos
incluídas em Tête à Tête Retratos de Henri
Cartier-Bresson para entender esse fenômeno.
O livro, publicado pela Companhia das Letras, chegou
ao Brasil esta semana. Deveria ter sido lançado antes.
Mas problemas com a impressão, feita na Alemanha,
adiaram a publicação. Valeu a espera: Cartier-Bresson
fotografa o perpétuo de seus modelos. E que modelos:
Samuel Beckett, Albert Camus, Simone de Beauvoir, Robert
Doisneau, John Huston, Che Guevara, Henri Matisse,
Somerset Maugham, Paul Valéry, Jean-Paul Sartre, Carl
Gustav Jung, Edith Piaf.
Há mais nomes. Todos tão importantes quanto os nomes
citados. Apesar de nem sempre famosos, como um eunuco da
última dinastia imperial chinesa, fotografado em 1948.
É gente assim que Cartier-Bresson fotografa quando quer
sequestrá-las do anonimato.
Muitos fotógrafos adotaram como rotina
tirar um grande número de fotos aleatórias, que
posteriormente selecionam, escreve E.H.
Gombrich, na apresentação de Tête à Tête.
Tanto quanto eu saiba, Cartier-Bresson sempre
preferiu ficar à espera do momento
revelador, completa.
Mas Henri Cartier-Bresson preserva um anonimato: o de
sua própria personalidade, evitando expor o próprio
rosto. Não quer tornar-se conhecido, para não
atrapalhar seu trabalho de denunciar a vida, usando seus
modelos. Trabalho que ele define de maneira bem pessoal.
A fotografia é uma reação imediata, que
leva a uma meditação.
A programação gráfica de Tête à Tête foi
supervisionada pelo próprio Cartier-Bresson. Seu olhar
é notado nas afinidades entre as páginas. A da direita
dialoga com a da esquerda, em suas fotos. Tornam-se
íntimas pela unidade do olhar do fotógrafo francês.
EXPERIÊNCIA
Henri Cartier-Bresson completou 90 anos em 1998.
Nasceu em Chanteloup, Seine-et-Marme, França. A família
era ligada à indústria têxtil, mas, aos 15 anos, o
fotógrafo decidiu manter-se longe de panos e tintas.
Não conseguiu. Aos 17 anos, passava horas no Museu do
Louvre entre quadros de Cézanne, Van Dyke, Goya e
Velázquez.
Aos 23 anos, tirou as primeiras fotografias. Depois de
temporada viajando pela África, onde se sustentou com a
venda de carne da caça que conseguia. De 1936 a 1939
trabalhou como segundo assistente do cineasta Jean
Renoir. A vida agitada levou-o a ser preso pelo Exército
Alemão em 1940. Conseguiu fugir e fotografou a
liberação de Paris em setembro de 1944. Do começo ao
fim de sua carreira, zelou pela qualidade fotográfica de
seus trabalhos usando único modelo de câmera, a Leica.
Entre os grandes feitos está a fundação da agência
Magnum, cooperativa fotográfica que uniu também Robert
Capa, David Seymour e Georges Rodger. Mas Cartier-Bresson
ficou na Magnum até 1966. Em 1974, passou a se dedicar
ao desenho. Fotografia virou atividade bissexta.
Tête à Tête, inclusive, traz alguns auto-retratos,
esboçados a lápis. Cartier-Bresson odiava ser
fotografado. Sabia com que precisão a fotografia
revelava o íntimo do modelo. Optou, então, pela
fotografia que entendia certa: a das linhas tortas.
SERVIÇO
Tête à Tête Retratos de Henri
Cartier-Bresson
Livro com 134 retratos do fotógrafo francês. Companhia
das Letras. R$ 66,00.
MÚSICA-ERUDITA
Há 150 anos morria Frédéric Chopin
João Batista Natali
Da Agência Folha São Paulo
Há 150 anos morria, em Paris, o pianista e compositor
polonês Frédéric Chopin (1810-1849), personagem
típico, por sua biografia e por sua música, da primeira
fase do romantismo europeu.
Como o homem do século passado, contorceu-se por
paixões impossíveis. Era tuberculoso e fisicamente
frágil. Morreu cedo, com apenas 39 anos, quando por
certo tinha ainda muito a acrescentar à linguagem
musical "falada'' pelo piano.
Como compositor, foi quase ao lado de Franz Schubert
-e muito abaixo do patamar que se encontra Beethoven- o
autor de ousadias harmônicas e de peças de dificuldade
técnica que não estavam (nem estão) ao alcance de
qualquer instrumentista principiante.
Seus noturnos e prelúdios, valsas e baladas,
polonesas e mazurcas estão impregnados da busca de uma
subjetividade sofrida, com a qual o "homus
poeticus'' do início do século passado conseguia se
problematizar.
Sua produção é de rara homogeneidade. Não há nela
fases ou períodos que indiquem um processo de
maturação.
Aos 18 anos ele já possuía a técnica precoce de
exteriorização do pensamento musical que manteria
durante as duas décadas seguintes de sua vida.
Para o senso comum, Chopin é o compositor que fala ao
coração. Descreve o luto e a paixão amorosa com
equivalente intensidade. Suas peças -invariavelmente
curtas, quase sempre avessas à sonata e ao concerto como
formas de expressão- despertam e realimentam as
sensibilidades.
De certo modo, Chopin sonorizou uma Europa que já
havia se deixado comover pelo texto do "Werther'',
de Goethe, primeiro verdadeiro best seller literário da
industria cultural.
Foi também o compositor que irrompeu dentro de um
mundo em que as famílias alfabetizadas e urbanas, com um
mínimo necessário de poder aquisitivo, tinham, de um
modo geral, como grande ambição de consumo a compra de
um piano.
Chopin auxiliou, dessa maneira com suas composições,
na emergência da música pequeno-burguesa e doméstica,
rapidamente popularizada ao ser produzida e estreada nos
grandes salões de Viena, Paris e Londres, as três
grandes capitais da cultura européia na primeira metade
do século passado.
Não compôs sinfonias, balés ou óperas. Sua
incursão pela música de câmara é tímida. Surgiu sem
vínculos a uma corrente estética precisa.
Ele não fez escola, não deixou discípulos e não
despertou controvérsias na mídia.
Esse baixo teor de brilho na história da música é
acompanhado de um paradoxo: ele nunca saiu da moda.
Russos, alemães e franceses o executam há 170 anos como
passagem obrigatória do repertório.
Todo bom concertista já o gravou ou já o interpretou
em récitas públicas.
Com a indústria fonográfica, os entendidos se
dividem ao eleger o artista capaz de exprimir no teclado,
com maior ênfase e precisão, a "alma'' chopiniana.
Desfilam, numa longa lista de intérpretes, nomes como
Dino Lipatti (1917-1950), Artur Rubinstein (1887-1982),
Claudio Arrau (1903-1991) ou Vladimir Horowitsz
(1904-1989).
Há também, como paradoxal, a relativa dificuldade
que as grandes máquinas de produção cultural têm hoje
de comemorar os 150 anos da morte de Chopin.
Os seus trabalhos dispensam cenografia e figurinos,
utilizam só ocasionalmente uma orquestra sinfônica, o
autor incursionou muito pouco pelo canto.
Em suma, o intimismo de um piano e de um pianista não
combina com a lógica das superproduções atuais.
É mais fácil, em 1999, comemorar os 50 anos da morte
de Richard Strauss e preparar, para 2000, a comemoração
dos 250 anos da morte de um verdadeiro gigante: Johann
Sebastian Bach.
Compositor teve três romances
Da Agência Folha São
Paulo
Chopin foi "um tísico de olheiras profundas e
masculinidade vacilante, beirando com frequência o coma
e com igual frequência 'ressuscitando' para compor uma
nova e imortal polonaise''. É ao menos o que diz a
lenda.
Mas vejamos o contexto. Até o final do século 18,
nenhum compositor era um colunável, um personagem
público. Ninguém se importava com a vida sexual de
Haendel ou com a religiosidade do padre Antonio Vivaldi.
Chega o romantismo e com ele a curiosidade que associa
o produto cultural com a pessoa física de seu produtor.
Caso faltassem sobre ele informações mais detalhadas,
bastava dar um jeitinho e encaixá-lo em algum clichê.
Por isso mesmo, Chopin foi objeto de "biografias
romanceadas'' que oscilam entre a mentira e a
imprecisão. Elas invariavelmente batem na tecla de um
gênio melancólico e enfermo, nacionalista inconformado
com o domínio da Rússia sobre sua amada e escravizada
Polônia, mas aceitando, com passividade, e certo prazer,
a escravidão que lhe era imposta por sua masculinizada
namorada, a escritora George Sand.
De concreto, há em Chopin três amores
problemáticos, que trazem por nome Constance, Mari e a
própria Sand. É óbvio que essa última possuía uma
personalidade bem mais forte que a do amante. Nada que
contrariasse, no entanto, o equilíbrio dentro da neurose
que caracteriza outros casais plenamente realizados.
E era ainda bem que relativo o fato de se sentir um
polonês solidário com a opressão tsarista em
Varsóvia. Em momento algum o compositor se associou
politicamente aos grupos de exilados que militavam para
libertar a Polônia.
As biografias imprecisas só não conseguiram aplicar
em Chopin o clichê do artista que, miserável em vida,
beneficia-se de um tardio reconhecimento póstumo. Ele
teve uma vida material confortável. Ganhou dinheiro e
foi bem mais "capitalista'', em Paris, do que o fora
Beethoven em Viena.
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