SHOW

Dunga Rodrigues, hoje no Museu do Rio

Da reportagem

O Museu do Rio Cuiabá "Hid Alfredo Scaff", durante todo o mês de outubro realizou nos domingos, às 18h, o projeto Domingo no Porto - Ciclo de Música Erudita e Instrumental, com entrada franca. Foram feitas várias apresentações de grupos de Música de Câmara da Capital, levando a música erudita à todos de uma forma geral e tornando-a acessível, principalmente aos que nunca tiveram oportunidade.

No dia 3 se apresentou no Museu do Rio Cuiabá o "Duo de Violões "Brito/Mil Homens", dia 10, o grupo regional de choro "Chorando Baixinho", no dia 17, a "Orquestra de Violões", e no dia 24, o "Quinteto de Cordas UNIC".

Neste Domingo, às 18h com entrada franca, quem encerrará a temporada de Música Erudita e Instrumental, é Dunga Rodrigues. O programa será dividido em duas partes. Na primeira ela apresentará grandes Clássicos e na segunda parte do programa, estará executando suas próprias composições. No decorrer de cada música explicará com detalhes, o significado de cada uma. Também, fará duas homenagens especiais, à Dona Maria Arruda Müller, que contará com a participação da cantora Roma. E o outro homenageado, será o juiz Leopoldino Marques do Amaral, recentemente assassinado.

Dunga nasceu em Cuiabá, no ano de 1908 e começou seus estudos musicais aos 6 anos, no Asilo Santa Rita, com a professora Irmã Marie Vicent. Ela teve seu primeiro piano somente aos 16 anos. Se diplomou em 1972, no Conservatório Musical de Mato Grosso, com a professora Dalva Lúcia Duarte. Este curso foi feito em convênio com o Conservatório Brasileiro de Música, do Rio de Janeiro, onde concluiu sua graduação. No ano passado enquanto comemorava 90 anos, fez uma especialização em Música Brasileira, na Universidade Federal de Mato Grosso.

Aos 18 anos, Dunga Rodrigues já lecionava piano e francês. Sempre trabalhou com professora em escolas públicas. Ministrava aulas de música em sua casa, no "Centro Artístico e Musical de Cuiabá", no "Conservatório Mato-grossense de Música", no "Conservatório Musical de Mato Grosso" e no Conservatório Musical "Dunga Rodrigues".

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Programa
Parte I
1.Brasílio Itiberê
A Sertaneja
2. Fréderic Chopin
Valsa nº7
3. Fréderic Chopin
Valsa nº1
4. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Favorito
5. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Você Bem Sabe (Polca-Lundu)
6. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Sagaz(Tango Brasileiro)
7. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Escorregando(Tango)
8. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Remando (Tango Brasileiro)
9. Ernesto Nazareth(1863-1934)
Odeon (Tango Brasileiro)

Parte II
10. Dunga Rodrigues (1908)
Serenata Sideral (Valsa) (uma homenagem à Dona Maria Arruda Müller) Participação especial da cantora, Roma.

11. Dunga Rodrigues
Todos a la "Seu Jota"(Rasqueado)
12. Dunga Rodrigues
Seu Maurício ( Rasqueado)
13. Dunga Rodrigues
Maria Minha Filha (Rasqueado)
14. Dunga Rodrigues
Leopoldino Marques do Amaral (Valsa)
15. Peça montada por Dante Miraglia, Gastão Cunha e Nilson Constantino
Pout-Pourry de Rasqueado


MÚSICA

Legião Urbana traz trabalho inédito

Rodrigo Dionisio
Da Agência Folha – São Paulo

Chega às lojas no final da próxima semana uma preciosidade: o CD e o VHS com a gravação integral do "Acústico MTV'' do Legião Urbana. Gravado em 1992, o show foi um dos primeiros acústicos produzidos pela emissora e, até agora, não estava disponível para o público.

"Nós gravamos tudo como um programa de TV, não para lançar em disco. Na época, os acústicos nem eram lançados em CD'', afirmou Dado Villa-Lobos, guitarrista do Legião, durante a entrevista coletiva de lançamento dos trabalhos anteontem.

O vídeo e o disco têm a mesma duração (76 minutos) e incluem, além das canções que foram exibidas na época e gravadas no CD "Música Para Acampamentos'', como "Teatro dos Vampiros'' e "Índios'', covers e comentários de Renato Russo captados durante os "intervalos da gravação''.

Entre as canções estão "Hoje a Noite Não Tem Luar'', de A. Monroy e C. Villa de La Torre, em versão de Carlos Colla, que foi gravada originalmente pelo grupo Menudo. "O Renato vivia dizendo que queria cantar Menudo e nós dizíamos que não. No acústico, durante um intervalo, sem saber que estava sendo gravado, ele cantou essa música, que acabou virando 'single' do CD, sete anos depois'', disse Dado.

Nas palavras do próprio Renato, se justificando antes de cantar, a música "é cafona, mas é bonita''. Mas, muito além do cafona, também estão registradas "Head On'', do Jesus & Mary Chain, e "The Last Time I Saw Richard'', de Jony Mitchell.

"Esse disco é uma espécie de polaróide da banda naquela época. É uma polaróide do país, da MTV em 1992'', disse Marcelo Bonfá, baterista do Legião. "É um disco datado. Data de 1992'', complementou, rindo, Dado.

"O CD e o VHS só estão saindo por causa da falta do Renato. Se ele estivesse vivo nós estaríamos fazendo outra coisa. Esse trabalho mesmo só demorou para sair porque nós tínhamos coisas novas para trabalhar'', disse Dado.

"Além disso, toda essa história do Legião, de participar de tributo ao Renato, de ir a programa de rádio, puxa a gente para trás, até porque não há nada mais inédito do Renato para lançar, só versões de trabalhos que já são conhecidos. Parece um velório interminável'', afirmou o guitarrista.

Mas quem imagina que esse acústico relançado sete anos depois é o canto de cisne do Legião se engana. "Nós ainda temos muitas fitas de shows, gravações ao vivo que precisam ser ouvidas e recuperadas. Era idéia do Renato lançar uma caixa com todo esse material, e agora nós pretendemos fazer isso'', afirmou Bonfá.

"A gente conta para eles o nome da caixa?'', perguntou Bonfá para Dado. "Não, ainda não, é segredo'', respondeu o guitarrista, o que pode indicar que a tal coleção deve ser um pouco mais do que um simples projeto.

O CD e o VHS do acústico chegam às lojas no dia em que a MTV leva ao ar a versão integral do programa, na sexta-feira da próxima semana. A primeira exibição acontece às 22h, com reapresentações no sábado (às 14h30 e às 20h30) e no domingo (às 16h30).

Crítica

O Legião Urbana sempre foi uma banda musicalmente fraquinha. Parecia mais cover do Joy Division, em seu primeiro disco, tanto na linha de baixo quanto nas performances epiléticas de Renato Russo nos shows.

Mas o grande diferencial e tábua de salvação do grupo sempre foram as letras cheias de poesia e raiva do seu líder. E no CD acústico isso fica muito claro. A música é pano de fundo suave para a verborragia de Renato. Registro histórico de um dos grandes letristas e intérpretes de suas canções dos anos 80, 90...


CONFIRA AS MÚSICAS DO ACÚSTICO DO LEGIÃO

"Braader-Meinhof Blues'' ("Legião Urbana'')
"Índios'' ("Dois'')
"Mais do Mesmo'' ("Que País É Este?'')
"Pais e Filhos'' ("As Quatro Estações'')
"Hoje a Noite Não Tem Luar'' (cover do Menudo)
"Sereníssima'' ("V'')
"Teatro dos Vampiros'' ("V'')
"On The Way Home''/"Rise'' (covers do Buffalo Springfield e do PIL, respectivamente)
"Head On'' (cover do Jesus & Mary Chain)
"The Last Time I Saw Richard'' (cover de Jony Mitchell)
"Metal Contra as Nuvens'' ("V'')
"Há Tempos'' ("As Quatro Estações'')
"Eu Sei'' ("Que País É Estes?'')
"Faroeste Caboclo'' ("Que País É Estes?'')


LIVROS

Sonoras leituras de Pixinguinha e Baden

Música brasileira invade as livrarias com biografias e livros para as crianças

Especial para o DIÁRIO

Baden Powell, Pixinguinha, Bezerra da Silva, Nelson Cavaquinho. Cada um — a seu modo e a seu tempo — traçou ou vem traçando trechos consideráveis da história da música brasileira. Pedaços dessa história estão chegando às livrarias numa série de lançamentos que vão do estudo científico — caso de Bezerra da Silva — Produto do Morro — ao texto para crianças — Pixinguinha para Crianças — Uma Lição de Brasil.

A prateleira reservada aos livros sobre música brasileira também está sendo enriquecida pela história do violonista Baden Powell — O Violão Vadio de Baden Powell, escrita por Dominique Dreyfus — e deve ganhar novos títulos até o final do ano. Flávio Moreira da Costa escreve as últimas linhas da biografia de Nelson Cavaquinho, prevista para chegar às livrarias em dezembro, pela série Perfis do Rio, da Relume-Dumará (a mesma que anuncia para os próximos dias lançamento de título dedicado a Chico Buarque, escrito por Regina Zappa).

Também antes do Natal, a Editora 34 dá prosseguimento à Coleção Todos os Cantos — inaugurada com o livro sobre Baden Powell — com Música Sertaneja, de Rosa Nepomuceno, e Sepultura, de André Barcinski e Sílvio Gomes (antes, a coleção se estende à música internacional lançando New Jazz, de Roberto Mugiatti, que chega ainda este mês às livrarias).

Bezerra da Silva — Produto do Morro é mais do que a biografia do sambista. Embora se dedique inicialmente a narrar a trajetória de Bezerra e a tecer comentários sobre a obra do artista, a autora Letícia C. R. Vianna estende-se à análise do universo do samba — as relações raciais, a malandragem, as origens do gênero e seu estabelecimento como cultura de massa e produto de mercado.

Enquanto Letícia tem como alvo principal o público acadêmico, particularmente o interessado em antropologia social, Carlos Alberto Rabaça volta-se para crianças em idade escolar com Pixinguinha Para Crianças — Uma Lição de Brasil. Para narrar a história do compositor, o livro organizado por Rabaça usa artifícios próprios da literatura infantil — texto leve com toques de humor e ilustrações coloridas, elaboradas por Guto Nóbrega.

‘‘A Petrobras tem um projeto, o Leia Brasil, que leva caminhões-bibliotecas a todo o interior do Brasil. Pesquisa feita por meio desse projeto mostrou que os jovens desconhecem nomes marcantes da história da música, da poesia e de outras áreas da cultura nacional. Além de que não existem livros sobre essas personalidades escritos em linguagem própria para os jovens. Daí surgiu a idéia do livro’’, conta Carlos Alberto Rabaça, dono da editora Multiletra e da Strauz Comunicação e Marketing, encarregadas de produzir e editar Pixinguinha Para Crianças. Rabaça tem outros três livros prontos, sobre Braguinha, Noel Rosa e Lamartine Babo, que serão lançados um a cada ano, a partir de 2000. Todos seguem a linha didática.

Pixinguinha Para Crianças traz nas últimas páginas pequeno dicionário de gêneros musicais — que inclui termos como maxixe, choro e foxtrote. Além disso, vem acompanhado de CD produzido pelo violonista Henrique Cazes, diretor da Orquestra Pixinguinha, que também fará a produção musical dos próximos livros da série. Entre as 12 faixas, clássicos do mestre do chorinho, como Carinhoso, Gavião Calçudo e Um a Zero.

Mas o livro só chegará ao mercado daqui a um ano, de acordo com contrato entre Rabaça e a Petrobras. A primeira tiragem de cinco mil exemplares esgotou — em distribuição gratuita da companhia por escolas e outras instituições — antes mesmo de ser lançado oficialmente, quarta-feira passada, no Rio de Janeiro.

COMO UM ROMANCE

Francesa que desde 1984 tornou-se especialista na pesquisa de música brasileira (é autora de A Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga), a jornalista Dominique Dreyfus destrincha nas 350 páginas de O Violão Vadio de Baden Powell a história do garoto que um dia roubou o violão da tia — que, sem saber tocar, mantinha o instrumento pendurado na parede — para se tornar um dos mais respeitados instrumentistas e compositores brasileiros.

Dominique passa pelas relações familiares, as primeiras participações em programas de rádio e os encontros artísticos que definiriam a trajetória profissional de Powell. A riqueza de detalhes com que narra certas passagens da vida do músico dá ao livro sabor de romance e deixa transparecer a paixão da autora pelo tema que se propôs a desvelar. Outro ponto favorável na publicação é o rico material fotográfico — fac-símiles de matérias, capas de discos, fotografias em família, com amigos e no palco.

O livro de Dominique Dreyfus é o primeiro de uma série de 13 títulos sobre música popular, que serão publicados sob o selo Coleção Todos os Cantos. O jornalista e crítico musical Tárik de Souza coordena a coleção, que tem patrocínio do Grupo Pão de Açúcar e lançará ano que vem, entre outros, Do Frevo ao Mangue Beat, de José Telles; Jovem Guarda, de Marcelo Fróes; Vamos Bater Lata, de Jamari França; O Tempo e o Mar, biografia de Dorival Caymmi escrita pela filha Stella, e A Era dos Festivais, de Zuza Homem de Mello.

Antes, em dezembro, a Relume-Dumará publica a biografia de Nelson Cavaquinho. Um livro que, segundo Flávio Moreira da Costa — mesmo autor de Modelo Para Morrer, lançado recentemente pela Record, começou a ser escrito ‘‘há 30 anos.’’ ‘‘Fiz contrato com a editora para escrevê-lo em três, quatro meses, mas na verdade o livro existe dentro de mim desde que conheci Nelson e mergulhei na obra dele. Nesse tempo, a idéia foi germinando.’’

Concretizada, a idéia não se limita a biografia pessoal ou análise de obra. ‘‘Nelson nunca se dividiu entre vida e obra, o violão era uma extensão do braço dele’’, afirma Flávio Moreira, que, depois de três décadas acompanhado o sambista pelos botequins do Rio, não precisou muito para escrever o livro. Uniu o conhecimento pessoal a entrevistas com figuras essenciais na história de Nelson Cavaquinho, como Guilherme Brito e Beth Carvalho.

SERVIÇO
BEZERRA DA SILVA — PRODUTO DO MORRO
Livro de Letícia C. R. Vianna. Lançamento Jorge Zahar Editora. 165 páginas.

O VIOLÃO VADIO DE BADEN POWELL

Livro de Dominique Dreyfus. Primeiro volume da coleção Todos os Cantos, da Editora 34. 380 páginas. Preço: R$ 29,00.

PIXINGUINHA PARA CRIANÇAS — UMA LIÇÃO DE BRASIL

Livro organizado por Carlos Alberto Rabaça. Acompanha CD com 12 faixas. Distribuído gratuitamente pela Petrobras. Primeira edição esgotada. A empresa está preparando segunda edição. Maiores informações no telefone O(xx)21-512-0646


FOTOGRAFIA

Retratos do século

Tête à Tête revela 134 celebridades fotografadas por Cartier-Bresson

Da redação

O fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson não fotografa. Denuncia. E usa a expressão, os gestos e até traços cunhados pelo tempo nos rostos para compor a imagem que imortaliza modelos. E os perpetua porque mostra exatamente quem são. Basta apreciar as 134 fotos incluídas em Tête à Tête — Retratos de Henri Cartier-Bresson para entender esse fenômeno.

O livro, publicado pela Companhia das Letras, chegou ao Brasil esta semana. Deveria ter sido lançado antes. Mas problemas com a impressão, feita na Alemanha, adiaram a publicação. Valeu a espera: Cartier-Bresson fotografa o perpétuo de seus modelos. E que modelos: Samuel Beckett, Albert Camus, Simone de Beauvoir, Robert Doisneau, John Huston, Che Guevara, Henri Matisse, Somerset Maugham, Paul Valéry, Jean-Paul Sartre, Carl Gustav Jung, Edith Piaf.

Há mais nomes. Todos tão importantes quanto os nomes citados. Apesar de nem sempre famosos, como um eunuco da última dinastia imperial chinesa, fotografado em 1948. É gente assim que Cartier-Bresson fotografa quando quer sequestrá-las do anonimato.

‘‘Muitos fotógrafos adotaram como rotina tirar um grande número de fotos aleatórias, que posteriormente selecionam’’, escreve E.H. Gombrich, na apresentação de Tête à Tête. ‘‘Tanto quanto eu saiba, Cartier-Bresson sempre preferiu ficar à espera do momento revelador’’, completa.

Mas Henri Cartier-Bresson preserva um anonimato: o de sua própria personalidade, evitando expor o próprio rosto. Não quer tornar-se conhecido, para não atrapalhar seu trabalho de denunciar a vida, usando seus modelos. Trabalho que ele define de maneira bem pessoal. ‘‘A fotografia é uma reação imediata, que leva a uma meditação’’.

A programação gráfica de Tête à Tête foi supervisionada pelo próprio Cartier-Bresson. Seu olhar é notado nas afinidades entre as páginas. A da direita dialoga com a da esquerda, em suas fotos. Tornam-se íntimas pela unidade do olhar do fotógrafo francês.

EXPERIÊNCIA

Henri Cartier-Bresson completou 90 anos em 1998. Nasceu em Chanteloup, Seine-et-Marme, França. A família era ligada à indústria têxtil, mas, aos 15 anos, o fotógrafo decidiu manter-se longe de panos e tintas. Não conseguiu. Aos 17 anos, passava horas no Museu do Louvre entre quadros de Cézanne, Van Dyke, Goya e Velázquez.

Aos 23 anos, tirou as primeiras fotografias. Depois de temporada viajando pela África, onde se sustentou com a venda de carne da caça que conseguia. De 1936 a 1939 trabalhou como segundo assistente do cineasta Jean Renoir. A vida agitada levou-o a ser preso pelo Exército Alemão em 1940. Conseguiu fugir e fotografou a liberação de Paris em setembro de 1944. Do começo ao fim de sua carreira, zelou pela qualidade fotográfica de seus trabalhos usando único modelo de câmera, a Leica.

Entre os grandes feitos está a fundação da agência Magnum, cooperativa fotográfica que uniu também Robert Capa, David Seymour e Georges Rodger. Mas Cartier-Bresson ficou na Magnum até 1966. Em 1974, passou a se dedicar ao desenho. Fotografia virou atividade bissexta.

Tête à Tête, inclusive, traz alguns auto-retratos, esboçados a lápis. Cartier-Bresson odiava ser fotografado. Sabia com que precisão a fotografia revelava o íntimo do modelo. Optou, então, pela fotografia que entendia certa: a das linhas tortas.

SERVIÇO
Tête à Tête — Retratos de Henri Cartier-Bresson
Livro com 134 retratos do fotógrafo francês. Companhia das Letras. R$ 66,00.


MÚSICA-ERUDITA

Há 150 anos morria Frédéric Chopin

João Batista Natali
Da Agência Folha – São Paulo

Há 150 anos morria, em Paris, o pianista e compositor polonês Frédéric Chopin (1810-1849), personagem típico, por sua biografia e por sua música, da primeira fase do romantismo europeu.

Como o homem do século passado, contorceu-se por paixões impossíveis. Era tuberculoso e fisicamente frágil. Morreu cedo, com apenas 39 anos, quando por certo tinha ainda muito a acrescentar à linguagem musical "falada'' pelo piano.

Como compositor, foi quase ao lado de Franz Schubert -e muito abaixo do patamar que se encontra Beethoven- o autor de ousadias harmônicas e de peças de dificuldade técnica que não estavam (nem estão) ao alcance de qualquer instrumentista principiante.

Seus noturnos e prelúdios, valsas e baladas, polonesas e mazurcas estão impregnados da busca de uma subjetividade sofrida, com a qual o "homus poeticus'' do início do século passado conseguia se problematizar.

Sua produção é de rara homogeneidade. Não há nela fases ou períodos que indiquem um processo de maturação.

Aos 18 anos ele já possuía a técnica precoce de exteriorização do pensamento musical que manteria durante as duas décadas seguintes de sua vida.

Para o senso comum, Chopin é o compositor que fala ao coração. Descreve o luto e a paixão amorosa com equivalente intensidade. Suas peças -invariavelmente curtas, quase sempre avessas à sonata e ao concerto como formas de expressão- despertam e realimentam as sensibilidades.

De certo modo, Chopin sonorizou uma Europa que já havia se deixado comover pelo texto do "Werther'', de Goethe, primeiro verdadeiro best seller literário da industria cultural.

Foi também o compositor que irrompeu dentro de um mundo em que as famílias alfabetizadas e urbanas, com um mínimo necessário de poder aquisitivo, tinham, de um modo geral, como grande ambição de consumo a compra de um piano.

Chopin auxiliou, dessa maneira com suas composições, na emergência da música pequeno-burguesa e doméstica, rapidamente popularizada ao ser produzida e estreada nos grandes salões de Viena, Paris e Londres, as três grandes capitais da cultura européia na primeira metade do século passado.

Não compôs sinfonias, balés ou óperas. Sua incursão pela música de câmara é tímida. Surgiu sem vínculos a uma corrente estética precisa.

Ele não fez escola, não deixou discípulos e não despertou controvérsias na mídia.

Esse baixo teor de brilho na história da música é acompanhado de um paradoxo: ele nunca saiu da moda. Russos, alemães e franceses o executam há 170 anos como passagem obrigatória do repertório.

Todo bom concertista já o gravou ou já o interpretou em récitas públicas.

Com a indústria fonográfica, os entendidos se dividem ao eleger o artista capaz de exprimir no teclado, com maior ênfase e precisão, a "alma'' chopiniana.

Desfilam, numa longa lista de intérpretes, nomes como Dino Lipatti (1917-1950), Artur Rubinstein (1887-1982), Claudio Arrau (1903-1991) ou Vladimir Horowitsz (1904-1989).

Há também, como paradoxal, a relativa dificuldade que as grandes máquinas de produção cultural têm hoje de comemorar os 150 anos da morte de Chopin.

Os seus trabalhos dispensam cenografia e figurinos, utilizam só ocasionalmente uma orquestra sinfônica, o autor incursionou muito pouco pelo canto.

Em suma, o intimismo de um piano e de um pianista não combina com a lógica das superproduções atuais.

É mais fácil, em 1999, comemorar os 50 anos da morte de Richard Strauss e preparar, para 2000, a comemoração dos 250 anos da morte de um verdadeiro gigante: Johann Sebastian Bach.


Compositor teve três romances

Da Agência Folha – São Paulo

Chopin foi "um tísico de olheiras profundas e masculinidade vacilante, beirando com frequência o coma e com igual frequência 'ressuscitando' para compor uma nova e imortal polonaise''. É ao menos o que diz a lenda.

Mas vejamos o contexto. Até o final do século 18, nenhum compositor era um colunável, um personagem público. Ninguém se importava com a vida sexual de Haendel ou com a religiosidade do padre Antonio Vivaldi.

Chega o romantismo e com ele a curiosidade que associa o produto cultural com a pessoa física de seu produtor. Caso faltassem sobre ele informações mais detalhadas, bastava dar um jeitinho e encaixá-lo em algum clichê.

Por isso mesmo, Chopin foi objeto de "biografias romanceadas'' que oscilam entre a mentira e a imprecisão. Elas invariavelmente batem na tecla de um gênio melancólico e enfermo, nacionalista inconformado com o domínio da Rússia sobre sua amada e escravizada Polônia, mas aceitando, com passividade, e certo prazer, a escravidão que lhe era imposta por sua masculinizada namorada, a escritora George Sand.

De concreto, há em Chopin três amores problemáticos, que trazem por nome Constance, Mari e a própria Sand. É óbvio que essa última possuía uma personalidade bem mais forte que a do amante. Nada que contrariasse, no entanto, o equilíbrio dentro da neurose que caracteriza outros casais plenamente realizados.

E era ainda bem que relativo o fato de se sentir um polonês solidário com a opressão tsarista em Varsóvia. Em momento algum o compositor se associou politicamente aos grupos de exilados que militavam para libertar a Polônia.

As biografias imprecisas só não conseguiram aplicar em Chopin o clichê do artista que, miserável em vida, beneficia-se de um tardio reconhecimento póstumo. Ele teve uma vida material confortável. Ganhou dinheiro e foi bem mais "capitalista'', em Paris, do que o fora Beethoven em Viena.