FHC

Demissão de servidor depende de lei específica, diz FHC

Segundo o presidente, a quebra da estabilidade não poderá ser aplicada assim que a emenda for promulgada

JOÃO DOMINGOS
Da Agência Estado - Brasília

O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem que, mesmo se for aprovada pela Câmara dos Deputados, a quebra da estabilidade dos servidores públicos não poderá ser aplicada assim que a emenda constitucional for promulgada. Antes, lembrou o presidente, deverá ser votada uma lei com a regras para a dispensa dos funcionários. A quebra da estabilidade permitirá a demissão de servidores para que as folhas de pagamento sejam limitadas a 60% da receita da União, dos Estados e dos municípios.
Fernando Henrique disse que o fim da estabilidade deverá servir só aos Estados e aos municípios, porque a União há muito tempo está abaixo do limite constitucional de 60% de gastos com a folha de pagamentos. "Isto é uma coisa que diz respeito mais aos Estados e às prefeituras do que ao governo federal, que está muito longe deste limite", declarou.
Ao chegar à Macapá, Fernando Henrique confirmou que nenhum dos 6 mil servidores pagos pela União no Estado será demitido. A garantia de trabalho para os funcionários não-estáveis do Amapá foi negociada com o senador José Sarney (PMDB-AP). "Se os servidores forem demitidos, o Amapá quebra porque quase toda a economia daqui gira em torno dos gastos dessas pessoas", disse o deputado Eraldo Trindade (PPB-AP).
"Aqui o funcionalismo trabalha nas áreas sociais", justificou Fernando Henrique. "Nós temos condições de dizer que os que estiverem trabalhando como os daqui, nas áreas sociais, e em quadro em extinção, como o daqui, não precisam ter razão para temores." Depois, lembrou de que depende do apoio da rebelde bancada do Amapá, para votar as reformas: "A reforma administrativa teve o apoio de valorosos deputados do Amapá porque eles sabiam que o presidente da República não ia criar nenhum embaraço para os funcionários daqui, do Amapá, como não vai criar", reafirmou o presidente.
Esta foi a primeira visita do presidente Fernando Henrique ao Amapá _ na campanha presidencial, em 1994, ele não visitou o Estado. Do aeroporto de Macapá, Fernando Henrique seguiu para a cidade de Oiapoque, na fronteira com a Guiana França, em um avião Brasília, fabricado pela Embraer, para o encontro do presidente da França, Jacques Chirac.
Na volta a Macapá, no final da tarde, Fernando Henrique programou uma visita de duas horas ao Forte São José de Macapá, que está sendo restaurado. O forte foi construído em 1761, por ordem do Marquês de Pombal. O presidente disse que a administração do prédio deverá ser transferida para o Exército. Segundo o presidente Fernando Henrique, os Ministérios da Cultura e das Comunicações têm verba para assegurar a preservação do forte.


Recuo na demissão frusta previsão de economia

CLÁUDIA CARNEIRO
Da Agência Estado - Brasília

Se mantiver o acordo feito com políticos do Amapá para preservar da demissão os 6 mil servidores não-estáveis daquele Estado, o governo ficará longe de alcançar a economia prevista com a demissão dos 33 mil não-estáveis, anunciada pela equipe econômica como medida para ajudar a conter a crise financeira.
Os servidores não-estáveis do Amapá custam ao Tesouro federal mais de R$ 100 milhões por ano. Com a pressão de políticos dos outros ex-territórios, o rombo deverá ser muito maior. "Essa negociação de preservar os servidores dos ex-territórios passou pela Câmara; tivemos a garantia de líderes governistas de que não haveria demissão no Amapá e em Roraima", afirmou hoje o deputado Eraldo Trindade (PPB-AP).
Os quase 40 mil servidores que ficaram na cota do governo federal dos ex-territórios do Acre, Amapá, Roraima e Rondônia representam uma despesa anual de R$ 534,1 milhões aos cofres públicos. Por pouco a Câmara dos Deputados não perpetuou hoje essa despesa. Um destaque ao texto da reforma administrativa, apoiado pelo PSDB, previa incorporar todos os servidores dos quatro ex-territórios, que hoje são assumidos pela União, num quadro em extinção do governo federal, tornando-os estáveis. Uma mobilização do PT derrubou o destaque "trem-da-alegria".
A situação dos servidores dos ex-territórios é peculiar. Um exemplo é Roraima, onde os 10.937 servidores federais representam 80% da população economicamente ativa do Estado. Destes, 80% não têm estabilidade e uma demissão em massa desses funcionários poderia inviabilizar o Estado, reconheceu a secretária-executiva do Ministério da Administração, Cláudia Costin.
O recadastramento de todos os servidores ativos da União, determinado pelo decreto que o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou na noite de segunda-feira (24), inclui os servidores federais dos ex-territórios. Mas isto não significa que estes servidores estão na lista dos demissíveis. Assessores do Ministério da Administração asseguram que os quadros de funciários públicos de Amapá e de Roraima ficarão intactos, porque se tratam de servidores "indispensáveis". Segundo essas fontes, grande parte desse pessoal, embora seja não-estável, é médico, professor, ou trabalha em áreas técnicas do Estado. Além disso, esses servidores são amparados pela Constituição anterior que lhes deu um tratamento diferenciado dos demais. "Há questões legais que os protegem", admitiu um assessor.
O governo gasta, em média, R$ 10,820,00 por ano com cada um dos 33 mil servidores não-estáveis que planejou inicialmente demitir. Se cumprir a meta, o governo alcançaria uma economia anual de R$ 357 milhões, a partir de 1999, já que as indenizações vão consumir R$ 321 milhões.


REFORMA

Temer nega destaque da oposição

MARCOS MAGALHÃES E CLAÚDIA CARNEIRO
Da Agência Estado - Brasília

Mesmo que a base governista não consiga manter hoje o dispositivo da reforma administrativa que permite a demissão de funcionários por "excesso de quadros", os líderes aliados já comemoram uma vitória. O governo conseguiu, pela decisão do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), não submeter à votação o destaque do bloco de oposição destinado a excluir da reforma a disponibilidade proporcional por tempo de serviço.
"Se não formos vitoriosos amanhã, pelo menos não será o fim do mundo", avaliou o líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE). Com a decisão de Temer, a disponibilidade proporcional certamente constará do texto da reforma que a Câmara enviará ao Senado, provavelmente na próxima semana.
Para não aceitar o recurso da oposição, Temer alegou que um destaque semelhante já fora apreciado durante o primeiro turno de votação da reforma e que um acordo feito entre os líderes de todos os partidos prevê a votação, no segundo turno, apenas de destaques novos. O líder do PCdoB, Aldo Arantes (GO), protestou contra a decisão de Temer, considerando-a um "perigoso precedente", uma vez que o cancelamento do destaque não teria amparo regimental. O deputado Marcelo Deda (PT-SE) acrescentou que o bloco de oposição estava disposto a retirar o destaque, "se convencido", para cumprir o acordo.
O líder do governo na Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), saiu em defesa de Temer lembrando que o acordo foi feito entre os líderes no gabinete do presidente da Casa. "Vossa Excelência fez cumprir o acordo", disse Magalhães.
Os partidos aliados ao governo precisarão garantir hoje 308 votos em plenário para garantir a possibilidade de demissão de servidores públicos _ especialmente dos governos estaduais e municipais _ quando as despesas com pessoal ultrapassarem 60% das receitas líquidas de cada unidade da federação.


IDOSOS

FHC diz que ajuste fiscal não vai atingir programa de renda mínima

O programa paga a 630 mil brasileiros carentes, idosos ou portadores de deficiência grave um salário mínimo por mês

ISABEL BRAGA
Da Agência Estado - Brasília

O ajuste fiscal que o governo vem promovendo em suas contas não atingirá o programa de renda mínima do governo que paga a 630 mil brasileiros carentes, idosos ou portadores de deficiência grave, um salário mínimo por mês. A garantia foi dada ontem pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em seu programa semanal de rádio.
Fernando Henrique aproveitou o programa - que atinge a população de baixa renda - para tranqüilizar os beneficiários do programa e justificar a necessidade do recadastramento. De acordo com o presidente, este recadastramento, incluído entre as medidas do pacote de ajuste fiscal, tem por finalidade acabar com as fraudes na concessão do benefício.
O presidente enfatizou aos ouvintes que foi o seu governo que regulamentou o pagamento do benefício determinado pela Lei Orgânica da Assistência Social (Loas). "Ao contrário do que vêm afirmando alguns políticos, (a iniciativa) está em vigor e não será afetada pelo ajuste fiscal", assegurou.
De acordo com FHC, o critério de avaliação de quem pode receber o benefício, estabelecido na Loas, é "simplificado" e dá margem a concessões por critérios "duvidosos". Até agora, bastava a apresentação de um atestado médico do Sistema Único de Saúde (SUS) para ter-se direito ao benefício.
"Alguns profissionais inescrupulosos passaram a dar atestados baseados em critérios políticos", acusou o presidente. "Com a nova regulamentação, mais pessoas, de fato necessitadas, poderão ser atendidas".
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Ministério da Previdência farão uma revisão no programa nos próximos 90 dias. Para evitar novas fraudes, somente os peritos do INSS estarão habilitados a atestar a invalidez ou a incapacidade do portador de deficiência para o trabalho.
Tanto o idoso quanto o deficiente devem provar também que são carentes. A renda per capita da família que o sustenta deve ser igual ou menor a um quarto do salário mínimo (R$ 30,00). A pessoa deve comparecer a um posto do INSS, preencher formulário e apresentar um atestado médico, que será submetido à perícia, e atestado de carência que pode ser fornecido por um assistente social ou pelo próprio prefeito da cidade. O idoso ou deficiente não pode receber nenhum outro tipo de renda, como, por exemplo, aposentadoria. Têm direito ao benefício os idosos carentes acima de 70 anos e deficientes físicos ou mentais graves (incapacitados para o trabalho).


IDENTIDADE/MERCOSUL

Países do Mercosul terão documento pessoal único

EDSON LUIZ
Da Agência Estado - Brasília

Os países integrantes do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), além da Bolívia e Chile, deverão ter, a partir do próximo ano, um documento de identidade pessoal único. Além disso, as legislações relativas ao narcotráfico, terrorismo, tráfico de armas e explosivos, roubo de veículos, delitos econômicos e lavagem de dinheiro, assim como contrabando e tráfico de pessoas, serão uniformizadas. As duas medidas já fazem parte do Plano Regional de Segurança Cidadã, criado por um acordo assinado na semana passada pelos ministros da Justiça de todos os países do Mercosul.
O acordo também criou uma unidade especial de trabalho, que será formada por representantes dos ministérios das Relações Exteriores, Receita Federal, Forças de Segurança, Banco Central e Serviços de Inteligência de todos os membros do Mercosul, para definir um plano de atuação conjunta na fronteira. O objetivo, segundo o ministro da Justiça, Íris Rezende, é o combate ao crime organizado nessas regiões. O grupo começa a trabalhar na próxima semana.
Com a unificação da legislação penal e a adoção de um documento de identificação único, os países do Mercosul pretendem melhorar os procedimentos para atacar de frente o crime organizado. Com a proposta de criação da cédula de identidade do Mercosul, os países serão integrados por um sistema de informação acoplado a um banco de dados. O Brasil já dispõe do Sistema de Informações de Segurança Pública (Infoseg), que interliga os Estados do País e poderá ser estendido ao Mercosul.
"Com a legislação única, as chances de acabar com o crime organizado na região são grandes", diz uma fonte do Ministério da Justiça, explicando que a lei de combate à lavagem de dinheiro, feita pelo governo brasileiro, poderá ser encampada por outros países. Até o ano passado, apenas o Uruguai resistia a uma legislação única, que se tornou realidade na semana passada, com a assinatura do acordo.


ABORTO/CÂMARA

Padre expõe menores em campanha contra o aborto legal na Câmara

SANDRA SATO
Da Agência Estado - Brasília

A menina A. C., de 11 anos, apresentada como resultado de um estupro, e o menino R.F., de 3 anos, neto de uma mulher vítima de estupro 23 anos atrás, foram levados ontem para a Câmara dos Deputados como símbolo da campanha contra o aborto na Casa. Sorridentes e gordinhos, os dois eram exibidos pelo presidente do Pró-Vida de Anápolis, padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, para sensibilizar os deputados a votarem contra o projeto que permite a rede pública realizar abortos em caso de estupro ou de risco de vida para a mãe.
O padre carregou para tribuna do plenário os menores, a avó e a mãe de R.F.. Também o acompanhou, Maria Aparecida Conceição Fonseca, violentada em São Paulo e que manteve a gravidez de Renato _ hoje com 22 anos _ mesmo surrada pela família, que não acreditou em sua história. Na chegada ao plenário, o padre pôs o grupo de frente para os jornalistas e apontando para a cabeça de cada um identificava: "filha de estupro", "neto de estupro" e "vítima de estupro".
"São gente ou são monstros?", perguntou Lodi. "Se vão legalizar o aborto têm de legalizar o homicídio", argumentava. Apesar das declarações do padre, A.C. dizia não entender o que significa ser filha do estupro. Só sabe que, ao contrário de suas amigas do colégio, não tinha pai. "Gostaria de conhecê-lo", revelou.
A exibição das crianças indignou as feministas. Elas defenderam punição para o padre, baseada no Estatuto da Criança e do Adolescente. A deputada Rita Camata (PMDB-ES) abordou o padre para conversar sobre o menino R.F., que chegou a ser carregado nas costas de um manifestante pelo plenário. Rita disse ter ficado sem reação quando Lodi lhe respondeu: "O menino não é filho de estupro e, se fosse, qual seria o problema?". Segundo o padre, os menores estavam acompanhados pelas avós. A avó de R.F. estava no plenário, mas a de A.C. não foi localizada.
Para o debate na Câmara, da qual participaram quase 40 oradores favoráveis e contrários ao projeto, vieram caravanas de católicos, evangélicos e carismáticos de Goiás e das cidades satélites de Brasília (cerca de 300 pessoas ao todo).


AMAZÔNIA/AMBIENTE

País discute projeto de desenvolvimento da Amazônia

Da Agência Estado - Brasília

O Brasil começou a definir nesta semana um grande projeto de desenvolvimento sustentável da Amazônia, para ser executado a partir do Século XXI. Discutido ontem na Conferência Internacional Amazônia 21 _ Uma agenda para o mundo sustentável, o projeto incluirá mudança da legislação e regulamentações ambientais. Ele deve propor medidas de proteção ambiental e recuperação das áreas degradadas, para evitar os impactos ambientais negativos provocados pela transformação da região no próximo século.
"A integração e desenvolvimento devem caminhar juntos nesta região", diz o secretário de Coordenação da Amazônia do Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal, José Seixas Lourenço. "Não se pode construir um nível mais humano de vida, em benefício de nossos povos, se estivermos isolados", acrescenta Lourenço. A iniciativa, parte da Agenda 21, adotada pela Conferência Rio-92, terá a participação de todos os países amazônicos, universidades e instituições de pesquisas, segundo Lourenço.
O documento final, que servirá de manual para a execução do programa, será concluído hoje pelos representantes do Brasil e de diversos países da América Latina.


IRAQUE/ONU

EUA acusam Iraque de obstruir trabalhos de inspetores da ONU

Os EUA advertiram que se for necessário usar a força, esta não será apenas "uma alfinetada"

Da AE/Reuter - Bagdá

Os EUA acusaram ontem o Iraque de continuar a obstruir o trabalho dos inspetores de armas da Comissão Especial da ONU (Unscom) e advertiram que, se responderem com uma ação militar, esta não será apenas uma "alfinetada".
Bagdá, porém, não só reiterou que os palácios do presidente Saddam Hussein estão fora do alcance dos inspetores como fez uma série de exigências à ONU.
"O Iraque pede a aceleração do trabalho da Unscom, o estabelecimento de um cronograma para esse trabalho e a divulgação dos resultados", assinalou o Conselho do Comando da Revolução do Iraque num comunicado, após uma reunião presidida por Saddam. "Também deve haver uma substituição periódica dos aviões usados pela Unscom, para que não sejam apenas os aviões espiões americanos U-2."
O conselho advertiu ainda contra qualquer tentativa de "intervir na soberania" iraquiana (uma referência à exigência dos EUA de acesso aos palácios) e voltou a pedir "o fim do domínio americano" na Unscom e uma "avaliação justa" dos alegados progressos iraquianos no desarmamento.
Bagdá conta com o apoio da Rússia _ a qual pediu ontem que o Iraque, os EUA e a ONU atuem com moderação _ e da França, que estão conduzindo uma guerra diplomática para que o Conselho de Segurança anuncie que Bagdá já acabou com seus mísseis de longo alcance e seu programa nuclear.
Isso permitiria à Unscom substituir as inspeções por supervisões periódicas nesses setores e poderia levar ao abrandamento do embargo econômico em vigor contra o Iraque. Moscou tenta encaminhar propostas para isso no Conselho de Segurança, mas enfrenta a resistência de Washington.
Quanto à investigação dos outros programas (de armas químicas e biológicas), a Rússia propôs que o chefe da Unscom, Richard Butler, vá ao Iraque o quanto antes para acertar os termos para as inspeções, particularmente para a vistoria dos "lugares sensíveis", como os palácios _ onde Washington suspeita que estejam sendo escondidos armamentos proibidos ou documentos sobre programas bélicos. A França informou que Butler pode ir a Bagdá na próxima semana, mas isso não foi confirmado.
Ontem, os inspetores trabalharam sem obstruções pelo quarto dia seguido, mas não tentaram visitar nenhum palácio. Segundo a agência iraquiana Ina, eles não encontraram nada suspeito. Mas o secretário de Defesa dos EUA, William Cohen, denunciou que o Iraque "pode ter produzido" 200 toneladas do gás letal VX, "quantidade suficiente para matar todos homens, mulheres e crianças na face da Terra".
Cohen disse que Saddam continua obstruindo o trabalho da Unscom e avisou que a concentração de forças americanas no Golfo (onde os EUA mantêm dois porta-aviões) prosseguirá até que os inspetores tenham acesso a todos os locais que quiserem. "Se for necessário usar a força, que fique claro que não será só uma alfinetada," advertiu.


Americanos advertem sobre uso de arma química

Da AE/Reuter - Washington

O secretário de Defesa dos EUA, William Cohen, disse ontem que o Iraque pode ter produzido a arma química VX em quantidade suficiente para matar toda a população da Terra.
Cohen, falando a repórteres no Pentágono, estava sublinhando a importância dos esforços da ONU para destruir completamente as armas de destruição em massa do Iraque em vista do que Washington diz ser uma contínua resistência de autoridades iraquianas.
"Originalmente, eles (os iraquianos) indicaram que tinham apenas uma pequena quantidade de VX. Uma gota em seu dedo o mataria em poucos momentos.
"Agora, a ONU acredita que (o presidente) Saddam (Hussein) pode ter produzido até 200 toneladas de VX. E isso seria teoricamente suficiente para matar todo homem, mulher e criança na face da Terra", afirmou.
Cohen mostrou um quadro no qual é dito que a Comissão Especial da ONU (Unscom), responsável pelo desmantelamento dos sistemas de armas do Iraque, concluiu que o Iraque pode ter entre 20 e 200 toneladas de VX.
Em Nova York, oficiais da Unscom disseram que a quantidade de produtos químicos necessários e que estavam disponíveis ao Iraque significa que os iraquianos "poderiam" ter produzido até 200 toneladas de VX, mas eles afirmaram que não existem evidências de que o Iraque realmente produziu a arma.


Grupos humanitários pedem suspensão das sanções

Da AE/Reuter - Amã

Nove agências humanitárias trabalhando em Bagdá pediram ontem que as sanções de sete anos contra o Iraque sejam suspensas, dizendo que elas provocam desnutrição, epidemias e níveis "críticos " de desemprego no Iraque.
Elas declararam que um acordo feito com a ONU que permite que o Iraque venda quantidades limitadas de petróleo para comprar comida e medicamentos mal cobre 10% das necessidades do Iraque.
"A solução real é levantar o embargo", disseram as agências.
Elas consideraram que o impacto das sanções, impostas sobre o Iraque pela ONU por sua invasão do Kuwait em 1990, incluem o "alarmante aparecimento da desnutrição em uma de cada quatro crianças" e relatórios hospitalares sobre um aumento em "doenças crônicas e infecções possíveis de serem prevenidas que estão alcançando uma proporção epidêmica".
A declaração dizia que a contaminação da água causou "consequências médicas drásticas" e o desemprego alcançou um "nível crítico".
Faltam materiais de ensino nas escolas e fazendeiros não conseguem cultivar uma quantidade suficiente de comida por causa da falta de fertilizantes, pesticidas e sementes.
"De acordo com fontes na ONU, somente de cinco a dez por cento das necessidades imediatas estão sendo satisfeitas dentro do acordo de petróleo-por-comida", dizia a declaração.
A declaração foi assinada pela Associazione Amici dei Bambini, Bridge to Baghdad - Un Ponte per Baghdad, Children Concern International, Enfants du Monde - Droits de l'Homme, Equilibre, Movimiento por la Paz el Desarme y la Libertad, Middle East Council of Churches, Pharmaciens sans Frontieres International Committee e Friendship and Solidarity - Iraqi and Japanese Children.
O Iraque afirma que 1,2 milhões de seus habitantes morreram como resultado do embargo. Um relatório de 1995 da ONU disse que mais de meio milhão de iraquianos morreram por causa das sanções.
Nações ocidentais dizem que o acordo petróleo-por-comida implementado no ano passado deu fundos suficientes a Bagdá para comprar comida e medicamentos, e criticaram o presidente Sadam Hussein por construir palácios enquanto seu povo sofre.
O acordo permite que o Iraque venda US$ 2 bilhões em petróleo a cada seis meses para comprar medicamentos e alimentos essenciais para amenizar o impacto das sanções sobre a população iraquiana.


ÁFRICA/WINNIE MANDELA

Testemunha depõe na CVR e acusa Winnie de assassinato

Da AE/Reuter - Johannesburgo

Winnie Madikizela-Mandela ouviu ontem um jovem negro dar pela primeira vez um testemunho pessoal de que ela matou Stompie Seipei, 14 anos, em 1989. Winnie, que está tentando eleger-se para uma importante posição no CNA (Congresso Nacional Africano), foi condenada em 1992 por sequestrar Seipei e foi multada, mas foi absolvida numa acusação de assassinato.
Ontem, Katiza Cebekhulu, um ex-coroinha que voltou do exílio na Inglaterra para testemunhar contra ela, disse à Comissão de Verdade e Reconciliação (CVR) de Desmond Tutu que a viu esfaquear uma pessoa pequena que ele acreditava ser Seipei.
"Eu a vi matar Stompie. Estou me referindo a Winnie", disse na audiência especial reunida para investigar as atividades de seu Mandela United Football Club na última década de governo branco.
"Eu vi a mulher de Mandela levantar suas mãos duas vezes. Ela estava em pé. Ela o esfaqueou duas vezes", disse Cebekhulu. "Eu fui embora para meu quarto. Estava com medo do que estava vendo".
A CVR está investigando os registros sobre direitos humanos na época da guerra contra o apartheid. Ela não tem poder para processar ou atribuir culpa ou inocência, mas pode fazer recomendações à polícia.
A comissão está autorizada a conceder anistia civil e jurídica a ofensores dos direitos humanos que a requisitaram durante um prazo que já terminou. Madikizela-Mandela, no entanto, recusou-se a pedir a anistia e está sujeita a ser processada.
No ínicio do dia de ontem, Gabriel Pelo Mekgwe, um veterano da guerra do CNA contra o governo branco, disse à comissão que ele era um dos quatro jovens, incluindo Seipei, atacados na casa de Winnie e que ela deu o primeiro golpe.
"Ela fez parte do ataque. Ela nos bateu com a mão aberta. Ela começou o ataque e depois foi embora", disse.
Mekgwe disse que membros do clube de futebol os jogaram para o alto e os deixaram cair no chão, acrescentando: "no dia seguinte... a cabeça de Stompie estava mole e inchada".
Ele disse que Seipei foi levado embora durante a noite pelo treinador do Mandela United, Jerry Richardson, que voltou com sangue nos sapatos. Richardson declarou num pedido de anistia que cortou a garganta de Seipei com tesouras de jardinagem.
Xoliswa Falati, uma antiga confidente de Winnie, depôs que havia testemunhado o ataque aos quatro jovens e culpou sua antiga amiga pela morte de Seipei.
"Me mandaram cantar para abafar as vozes dos que estavam gritando por misericórdia...Depois do ataque, a Sra. Mandela disse que eles (o clube de futebol) precisavam limpar o sangue", disse.
Winnie Madikizela-Mandela, ex-mulher do presidente da África do Sul Nelson Mandela, chegou para o segundo dia de audiências vestida com um tailleur preto e dourado com estampas florais, parecendo cansada e com os olhos vermelhos.
Ela negou qualquer participação no assassinato de Seipei, pelo qual outro membro de seu séquito foi condenado, ou em qualquer dos outros assassinatos e ataques dos quais foi acusada esta semana.


ISRAEL/GOVERNO

Aliados ameaçam derrubar governo de Netanyahu

Da AE/Reuter - Jerusalém

Direitistas ameaçaram ontem retirar o apoio e derrubarem o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por temer que ele concorde em entregar mais terras aos palestinos. "Se o primeiro-ministro e o gabinete decidirem qualquer nova retirada, vamos agir para derrubar o governo", afirmou Michael Kleiner, um membro da aliança Likud-Gesher-Tsomet, de Netanyahu. Kleiner disse que seu "Front da Terra de Israel" tem 10 congressistas prontos para derrubar Netanyahu caso seja ordenada uma retirada. Netanyahu dispõe de uma maioria de 66 a 54 cadeiras no parlamento de 120 membros.
A chuva de protestos de membros da coalizão religiosa e direitista de Netanyahu começou com notícias de que ele irá oferecer aos palestinos seis a oito por cento de áreas da Cisjordânia agora sob o controle único de Israel. Os números são bem maiores do que os dois por cento anteriormente oferecidos pelo governo direitista mas ainda bem menores do que os 20 a 30% exigidos pelos palestinos.
Netanyhau, 48 anos, assumiu o poder no ano passado resistindo a acordos de troca de terra por paz assinados pelo governo que ele derrotou mas prometendo respeitar os compromissos de Israel, apoiados pelos EUA, que pedem por concessões territoriais.
Kleiner afirmou que os palestinos não devem ser recompensados com mais terra enquanto eles ainda têm de cumprir partes dos acordos de paz, que incluem o combate a grupos militantes islâmicos por trás de ataques suicidas a bomba que mataram dezenas de israelenses.
"Vamos agir para derrubar o governo", disse Ze'ev Binyamin Begin, ecoando a revolta de outros ultranacionalistas da coalizão de Netanyahu. "Se não for na primeira votação, será na segunda e se não, então na votação do orçamento - em toda oportunidade".
O chefe de comunicação de Netanyahu, David Bar-Illan, não se mostrou impressionado com as conversas de um iminente colapso da coalizão, dizendo à REUTERS: "Não tem havido uma semana desde que Netanyahu assumiu o poder que tanto sua morte política quanto a morte política de seu governo não tenham sido anunciadas".
Em Londres, o ministro da Indústria e Comércio de Netanyahu, Natan Sharansky, duvidou que o governo vá ser derrubado e assim seja forçada a realização de novas eleições. Ele disse a repórteres que mesmo se os israelenses tiverem de votar novamente, são boas as chances de Netanyahu ser reeleito.
Netanyahu enfrenta uma crescente pressão também de Washington, o principal mediador da paz no Oriente Médio, que tem exigido publicamente um "tempo" na expansão de assentamentos judeus e que Israel aceite a troca de terra por paz como requerido nos acordos de paz.


ARGENTINA/MERCOSUL

Menem quer inclusão do México

Da AE/Reuter - Buenos Aires

O presidente da Argentina, Carlos Menem, inicia hoje uma visita de cinco dias ao México com o propósito de aproximar esse país do Mercosul por meio de uma associação comercial, como a realizada com Bolívia e Chile. Com a participação mexicana, o bloco reuniria 82% do PIB de toda a América Latina.
Menem pensa em se encontrar com seu colega Ernesto Zedillo, com líderes da oposição e empresários. Um de seus objetivos é fazer um acordo do tipo "quatro mais um" com o Mercosul. Os limites jurídicos prejudicam o objetivo do presidente argentino. O México faz parte do Nafta, bloco do qual fazem parte Estados Unidos e Canadá. Mas o Mercosul, o bloco mais dinâmico da América Latina, desperta o interesse cada vez maior de empresários e governo do México, assim como de outros países latino-americanos. No mesmo dia de sua chegada, Menem se encontra com Zedillo e vai também participar de um seminário com empresários chamado "México-Argentina: investimentos recíprocos, presente e futuro".
O presidente argentino também deve se encontrar com Mariano Palacios Alcocer, presidente do governante Partido Revolucionário Institucional (PRI), com Cuauhtémoc Cárdenas, prefeito da Cidade do México e líder do oposicionista Partido da Revolução Democrática, além de Felipe Calderón, do conservador Partido da Ação Nacional.
Está prevista também a visita de Menem à Feira do Livro de Guadalajara, que este ano está voltada a divulgar a literatura argentina. Durante a permanência de Menem no país está prevista a chegada da senadora argentina Graciela Fernández Meijide, dirigente da Aliança, bloco de oposição que venceu as eleições legislativas de outubro.