MÚSICA

Gilberto Gil lança "O Sol de Oslo"

Mauro Dias
Agência Estado

Os méritos, que são muitos, do disco "O Sol de Oslo", devem ser divididos. Embora na capa apareça apenas o nome de Gilberto Gil - uma questão mercadológica, por certo -, é um trabalho conjunto dele, do produtor e contrabaixista Rodolfo Stroeter (parceiro de Gil em quatro das músicas do CD e idealizador do projeto, além de dono da gravadora Pau Brasil, que lança o trabalho) e da cantora Marlui Miranda.

A idéia de "O Sol de Oslo" surgiu depois de uma participação de Gil no disco Ihu - Todos os Sons, trabalho sobre música indígena de Marlui Miranda, outro lançamento da Pau Brasil. "Podíamos ampliar a colaboração, fazer alguma coisa diferente", sugeriu o compositor baiano, contente com o resultado de Ihu. Rodolfo Stroeter e Marlui começaram a bolar - como seria a tal coisa diferente?

Música brasileira é a tal coisa diferente. Jackson do Pandeiro é diferente. Moacir Santos é diferente. Temas de domínio público são diferentes. Cocos, baiões, xaxados, emboladas, tratados sem folclorização são coisas diferentes de quase tudo o que o mercado oferece ao público. "O Sol de Oslo" traz essas diferenças. É marca da gravadora Pau Brasil (que tem distribuição nacional da Eldorado), explorar um tipo, uma qualidade de música que, infelizmente, está fora do grande mercado. Daí, como admite Gilberto Gil, seu nome na capa: "A produção de boa qualidade está em nichos e alcança nichos, não é ampla", disse o compositor, que, na segunda-feira, esteve, com os companheiro de disco, para falar do trabalho.

"Como eu estou inserido num outro mercado, pop, faço, aqui, a ponte entre o nicho, o clube pequeno, e o público mais amplo", prosseguiu. A produção da Pau Brasil, como a da Velas, da Kuarup, da Atração, da Alma e de outras gravadoras e selos pequenos, alternativos, independentes, concentra a melhor produção musical de hoje. Porque o mercado é mal organizado, imediatista, repetitivo. Rodolfo Stroeter apresentou um dado: "A produção fonográfica alternativa, nos Estados Unidos, corresponde a 23% do mercado de discos" - em número de discos editados. Por alternativo, entenda- se o que não é Michael Jackson, Madonna, bandas da moda, música de consumo amplo e imediato. No Brasil, mercado desorganizado, é impossível estimar a porcentagem.

Com problemas de distribuição, com o fato de não tocar em rádio ou em TV, ter pouco espaço nos jornais (não é preciso muito para entender a gravidade da questão: Chico Burque, Tom Jobim, Caetano Veloso, o próprio Gil não tocam ou tocam pouco em rádio, preteridos pelas bandas de "pagode", pelos grupos de "música baiana", pelos assim ditos "sertanejos"), o bom produto das gravadoras alternativas brasileiras não chega ao público, não forma público, não forma o público.

Ainda para dimensionar a gravidade: se Gilberto Gil estivesse surgindo hoje, com sua música sofisticada, estaria gravando pela Pau Brasil, Velas, Eldorado, Kuarup - ou seja, estaria confinado ele mesmo ao que chamou de nicho. O mesmo ocorreria com Chico Buarque, Tom, e ocorre com Guinga, Moacyr Luz, Celso Viáfora, O Trio, Sérgio Santos, Mônica Salmazo uma infinidade de grandes talentos de que o público pouco toma conhecimento. Um grave problema cultural.

Marlui Miranda acha que a questão está caminhando para momento melhor - conduzida pela coragem de produtores como Stroeter e por donos de selos alternativos. Rodolfo Stroeter espera uma redefinição das políticas de mercado para que a coisa melhore; Gil acha que a possibilidade de que venham momentos melhores está condicionada a questões nacionais da macroeconomia à qualidade da educação. Enquanto isso não vem, ouvir "O Sol de Oslo" é um saboroso exercício de resistência cultural.

O disco tem esse nome porque foi gravado na Noruega, num estúdio (Raimbow) especializado em música menos industrial ("música artesanal", chama Stroeter; lá gravam Egberto Gistmonti, Keith Jarret e lá são feitos ou mixados os discos da Pau Brasil), com a colaboração de um percussionista indiano e um tecladista e pianista norueguês, além de outros músicos brasileiros. Vai ser lançado até o fim do ano nos Estados Unidos, Japão e Ásia pelos famosos selos alternativos, que cumprem a função de divulgar boa música, na contracorrente dos modismos. /


CINEMA

Brian DePalma volta com o thriller ‘Olhos de Serpente’

Olhos de Serpente, que tem estréia hoje em duas salas da cidade, Brian DePalma dirige o astro Nicolas Cage

Da Reuters/AE

Distante à medida do possível das normas do esquemão, Brian DePalma é um daqueles mestres do cinema cujos filmes tenderam a polarizar as críticas. À parte alguns defensores ardorosos (como Pauline Kael, ex-crítica da revista New Yorker), DePalma nunca alcançou o mesmo grau de reconhecimento dos contemporâneos Steven Spielberg e Martin Scorsese, por exemplo. Isto se deve provavelmente aos seus filmes, mais violentos, darks e controversos do que os de seus amigos. Assassinos (Vestida Para Matar), conspirações (Um Tiro na Noite), gângsteres (Scarface) e voyeuristas obsessivos (Dublê de Corpo) podem não parecer temas radicais atualmente, mas foram há 15, 20 anos. Hoje, aos 57 anos, ele insiste em Olhos de Serpente — que estréia hoje nos cinemas da cidade — com um thriller paranóico, que apresenta Nicolas Cage como policial corrupto que tenta solucionar um assassinato.

REUTERS - Qual filme você classificaria como o seu mais pessoal, um Brian DePalma autêntico?

Brian DePalma — Eu acredito que Olhos de Serpente é um Brian DePalma autêntico. Tem um estilo visual inventivo e sempre tento fazer um filme interessante e conciso visualmente. Me interesso por filmes inteligentes, que desafiem o espectador.

No filme existe uma conspiração governamental, e quando o personagem do Nicolas Cage faz a coisa certa, ele é punido por isso. Esta é uma visão negativa de mundo.

Existe uma linha que ele não deve cruzar. Nenhuma boa conduta é punida, não sei porque é assim. Isso continua acontecendo em meus filmes. Talvez Deus trabalhe de um jeito excêntrico demais.

REUTERS - Você começou Fogueira das Vaidades com um longo e elaborado plano-seqüência, da mesma forma que em Olhos de Serpente. Quanto tempo dura esta cena de abertura?

DePalma - O filme começa e você está sobrevoando o mundo dos cassinos de Atlantic City e, de repente, você mergulha nele. A tomada apresenta o personagem de Nicolas Cage enquanto ele perambula pela arena de boxe, pelo cassino, pelo hotel do cassino, e vai até acontecer o assassinato. Você vê toda a sua vida envolvida por este mundo. É uma tomada com uma câmera Steadycam (que não deixa as imagens tremerem) que dura cerca de 12 minutos. Em Fogueira das Vaidades foram cinco minutos. É claro que você pode prolongar isso, como Hitchcock em Festim Diabólico, usando alguém para passar diante da câmera e fazer com que a seqüência continuasse. Você precisa de uma produção astuta e muito bons atores para isso.

REUTERS - Como Nicolas Cage?

DePalma - Ele é extremamente experiente, pois fez inúmeros filmes. E ele é um cavalheiro — algo que se perdeu em muitos dos astros de hoje. É o tipo de pessoa que diz ‘‘graças a Deus nós temos um emprego. E não é excitante trabalhar com esse material e essas pessoas?’’. Ele é muito prestativo também.

REUTERS - Você acredita que diretores de talento que atingem certo grau de reconhecimento, como você ou Oliver Stone, deveriam receber carta branca para fazer o que bem entender no cinema?

DePalma - Não. Nós trabalhamos com uma arte muito popular, e se a sua audiência não aparecer você precisa descobrir o porquê, pois eles vão parar de te dar dinheiro. E se você disser ‘‘eu sou um gênio e ninguém me entende’’, tudo bem, vá ser um gênio em casa. Se você quer entrar no grande jogo, é preciso saber lidar com os seus jogadores. Mas você também pode ter uma carreira de sucesso no cinema de baixo orçamento.

REUTERS - Este é um modelo a se seguir?

DePalma - Absolutamente, mas não é o que eu faço. Eu sei como usar a tecnologia, como fazer grandes tomadas, então, tenho que voltar vez ou outra a fazer filmes mais baratos. Eu nunca fiz um filme de orçamento astronômico.

REUTERS - A propósito, o que você acha de Titanic?

DePalma - Adorei, principalmente porque Jim (o diretor James Cameron) é destemido. Ele acredita no que sente e pensa, e para alcançar o que quer precisa encarar um monte de críticas. Eu acredito, por outro lado, que com isso você tem uma série de filmes inacreditavelmente caros e burros, feitos para explodir tudo que aparecer pela frente. Guerra nas Estrelas começou com tudo isso.

REUTERS - Você acredita que em filmes como Dublê de Corpo, Vestida Para Matar e Scarface você lidava com sexo e violência de uma forma que hoje em dia pode parecer lugar comum?

DePalma - Quando um filme estréia, o diretor fica vacinado contra modismos. Quer dizer, li recentemente em um guia de vídeo que Blow Out (Um Tiro na Noite, dele) é mais inventivo que Blow Up (de Michelangelo Antonioni). Isso foi chocante, mas tudo o que você quer é que a sua obra continue circulando duas décadas depois, talvez um século até se aquilo for bom mesmo. Daí você precisa prestar menos atenção no que dizem de você. Ninguém foi mais visado do que eu durante o lançamento de Dublê de Corpo. Mas agora, de certo modo, este é um filme meu que ainda é lembrado.

REUTERS - No seu próximo filme, Nazi Gold, você filmará novamente um roubo de banco. Este será melhor do que em Missão Impossível?

DePalma - Pode apostar. É algo que eu tenho pensado por anos, desde os anos 60.


À sombra de um mestre

Seja em bate-papos ou em entrevistas, Brian DePalma faz referências constantes a muitos de seus ídolos. Do escritor Fiodor Dostoiévski aos cineastas Billy Wilder e Sergei Eisenstein, porém, ninguém se comparou a Alfred Hitchcock. O inglês que revolucionou a narrativa cinematográfica inspirou DePalma a fazer cinema.

Não é à toa que hoje, aos 57 anos, DePalma ainda seja considerado o maior discípulo de Hitchcock. Apesar de seus últimos filmes representarem um rompimento com o passado, sua carreira nunca foi totalmente desvinculada da trajetória do mestre do suspense. Os motivos estão mais do que evidentes em Dublê de Corpo, por exemplo, cuja trama remete ao voyeurismo de Janela Indiscreta.

Quatro anos antes, porém, Vestida Para Matar (1980) já surgia como síntese de seu eternamente contestado estilo de dirigir. Entre uma referência e outra (ou seria entre um plágio e outro?), o filme se caracterizava pelo virtuosismo técnico que conduzia uma ação de fôlego inesgotável. Qualidades, entretanto, que nunca foram unânimes em seu próprio país, nem mesmo com a elogiada direção de Os Intocáveis (1987).