ATAQUE

EUA atacam bases terroristas no Sudão

Em retaliação aos atentados na África, Clinton ordenou bombardeios contra bases terroristas no Sudão e Afeganistão

PAULO SOTERO
Da Agência Estado - Washington

Com sua credibilidade pessoal em frangalhos e sua presidência mais do que nunca ameaçada pelo "affair" que finalmente confessou - esta semana - ter tido com a ex-estagiária na Casa Branca Mônica Lewinsky, o presidente Bill Clinton reassumiu ruidosamente ontem o comando político dos Estados Unidos ordenando ataques contra "instalações terroristas" no Afeganistão e no Sudão.

As ações militares, sobre as quais o secretário da Defesa, William Cohen, não forneceu detalhes numa primeira entrevista coletiva, no início da tarde, foram apresentadas por Clinton como um ato tanto de retaliação pelos ataques a bomba contra as embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia, na semana passada, como de autodefesa, calculado para reduzir a capacidade de grupos terroristas islâmicos que ainda na quarta-feira reiteraram sua determinação de levar a cabo novos ataques contra cidadãos e representações americanas ao redor do mundo.

Mais de 250 pessoas, entre as quais doze americanos, morreram e outras 5.500 ficaram feridas nos atentados contra as embaixadas dos EUA em Nairobi e Dar-el-Salam.

O presidente, que estava de férias na ilha de Martha's Vineyard, justificou a ação afirmando que os serviços de inteligência americanos detectaram "fortes indícios" de que as instalações atingidas "estavam sendo usadas na preparação de novas ações terroristas contra os EUA", e "eram operadas por grupos que tiveram papel-chave nos ataques contra as embaixadas em Nairóbi e Das-el Salam". Segundo Clinton, esses grupos são ligados ao milionário dissidente saudita Osama bin Laden, que Washington considera o principal financiador do terrorismo internacional. O presidente acrescentou que eles já realizaram atentados contra os EUA no passado.

"Hoje, nós demos o troco", disse Clinton, antes de voltar para Washington para ouvir pessoalmente o relato da ação retaliatória de seus assessores de segurança nacional. O objetivo, acrescentou ele, "foi diminuir a capacidade (dos grupos terroristas) de realizar ataques contra americanos e outras pessoas inocentes".

O único sinal da ação americana, aparentemente executada com mísseis, foi um comunicado divulgado 24 horas antes pela embaixada dos EUA no Paquistão para alertar "os não-islâmicos" a deixar o Afeganistão, alegando que havia razões para se temer por sua segurança no país hoje quase que totalmente controlado pelo movimento fundamentalista islâmico Taleban. O líder do governo de Kabul, Mohamed Omar, que dá guarida a Osama bin Laden, negara na quarta-feira que o militante saudita tenha tido qualquer participação nos atentados contra as embaixadas dos EUA na África ou esteja envolvido em qualquer "atividade subersiva".

Segundo o general Shelton, outro alvo americano foi um edifício "na zona industrial" de Cartum, a capital do Sudão, na África, que, segundo o general, seria a fonte de precursores químicos usados na fabricação de bombas usadas em ataques terroristas passados e em preparação contra os EUA. O governo do Sudão desmentiu que haja fábricas de armas químicas no país e disse que a bomba ou bombas americanas atingiram uma fábrica de remédios privada.O Pentágono não forneceu detalhes sobre os resultados da operação. Cohen e Shelton negaram que Osama bin Laden tenha sido a mira da ação de represália.

Embora não haja dúvidas, desde a administração de Ronald Reagan, nos anos 80, que o governo dos EUA não deixa sem resposta ataques terroristas quando consegue identificar os responsáveis, o momento do ataque e a falta de maiores detalhes sobre como a operação foi executada e que resultados produziu deixaram no ar a suspeita de que ela foi calculada para tirar o escândalo sexual que ameaça Clinton do topo do noticiário e reafirmar a relevância de um presidente que vários analistas já dão por politicamente liquidado.

O secretário de Defesa disse que a represália contém uma clara mensagem: "Não haverá nenhum santuário para terroristas e nenhum afrouxamento na determinação dos Estados Unidos de lutarem contra sua capacidade de realizar ataques".

Lewinsky - A ex-estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky, pivô do escândalo sexual que envolve Bill Clinton, retornou ontem ao edifício onde está instalado o Grande Júri, em Washington, para esclarecer algumas contradições entre a sua primeira declaração, na semana passada, e a do presidente americano, na segunda-feira. Essas contradições, de acordo com fontes judiciais, estão relacionadas à intensidade, freqüência e natureza de seus encontros sexuais com Clinton.

As mesmas fontes acrescentam que o novo depoimento de Lewinsky deve ser decisivo para as intenções do promotor independente Kenneth Starr, que lidera a investigação do caso, de denunciar o presidente ao Congresso pelos delitos de perjúrio e obstrução da Justiça. Caso encontre indícios para incluir essas acusações no relatório que entregará ao Congresso no mês que vem, a oposição republicana terá em mãos meios jurídicos para abrir um processo político contra Clinton.

Uma das questões mais importantes do interrogatório dizia respeito ao suposto pedido de Clinton para que Lewinsky devolvesse à secretária pessoal do presidente, Bettie Currie, todos os presentes que ele tinha dado a ela para que não caísse nas mãos dos investigadores do caso Paula Jones - uma ex-funcionária pública do Arkansas que acusou Clinton de tê-la assediado sexualmente.

Segundo o jornal americano The Washington Post, Lewinsky, Currie e Clinton apresentaram versões diferentes sobre esse fato. A hipótese de Starr convocar a secretária de Clinton para um novo depoimento, de acordo com o diário, não está descartada.

No discurso televisivo que pronunciou horas depois de seu depoimento de segunda-feira - durante o qual admitiu ter mantido "contatos impróprios" com Lewinsky e pediu desculpas ao público americano -, Clinton reiterou que nunca pediu à ex-estagiária que mentisse sob juramento nem que escondesse ou destruísse evidências do romance que mantiveram.

Os assessores jurídicos da Casa Branca demonstravam ontem estar preocupados com a nova declaração de Lewinsky. Fontes ligadas aos advogados da jovem afirmaram que a ex-estagiária estava "magoada e desiludida" com Clinton, que não teria manifestado nenhum tipo de pesar pelas conseqüências que ela e a família dela estariam sofrendo por causa do comportamento do presidente.


Ataque deixa sete feridos

Da AE/Reuter - Cartum

Aviões norte-americanos atacaram ontem uma área industrial próxima a Cartum, atingindo o que autoridades sudanesas disseram ser uma empresa farmacêutica privada e ferindo pelo menos sete pessoas. O Sudão denunciou o ataque como um crime.

Washington divulgou que o alvo no Sudão era "relacionado a armas químicas", com ligações com os ataques às embaixadas norte-americanas no Quênia e na Tanzânia. O presidente Bill Clinton disse que ordenou os ataques contra suportes "terroristas" no Sudão e no Afeganistão para tentar intimidar mais ataques que eles consideram iminentes.

A televisão sudanesa leu os nomes de pelo menos sete homens que teriam se ferido no ataque contra a empresa farmacêutica Ashifa, em Bahri, uma zona industrial distante cerca de 20 quilômetros ao norte do centro da cidade. Pelo menos três aparentavam ter ferimentos graves, um deles com uma lesão na cabeça.

"Eu estava no terraço da minha casa e ouvi dois jatos voando baixo - e extremamente velozes", disse uma pessoa que mora nas proximidades do local atacado. "Subi para o telhado e 20 segundos depois vi três ou quatro objetos incandescentes iluminarem o céu. Então ouvi um baixo ruído prolongado que parecia com uma explosão."

Pouco depois do ataque, uma multidão furiosa se uniu no local da explosão na área industrial de Bahri. A polícia antidistúrbios prendeu algumas pessoas que levantavam as mãos e gritavam: "Allahu Akbar" (Deus é o Maior).

Algumas horas após o ataque norte-americano, uma multidão enfurecida atacou a embaixada dos Estados Unidos em Cartum. A televisão sudanesa mostrou imagens ao vivo. Os sudaneses atacavam o local com pedras, escalavam os portões e tentavam arrancar a bandeira norte-americana.

Um funcionário da fábrica disse: "Dois aviões de carga vieram e soltaram duas grandes bombas." Chamas se espalharam pelo local e um rastro de fumaça ia em direção ao céu.

Moradores disseram que a fábrica farmacêutica da Ashifa era uma das maiores produtoras de remédios do Sudão. A televisão sudanesa informou que a empresa fabricava drogas contra doenças infantis e malária. Mas os Estados Unidos insistem que a empresa está envolvida na produção de armas químicas.


Sudão condena ataques

Da AE/Reuter - Islamabad

O Afeganistão e o Sudão condenaram ontem os ataques aéreos dos Estados Unidos contra seus territórios, negando acusações de Washington de que oferecem bases para terroristas e insistindo que os aviões e mísseis americanos atingiram apenas alvos inocentes.

O movimento islâmico governante do Afeganistão, Taleban, afirmou que o exilado saudita antiamericano Osama bin Laden, considerado por Washington o principal suspeito nos ataques contra embaixadas dos EUA na África, estava em local seguro.

O porta-voz do Taleban, Abdul Hai Mutmaen, disse à REUTERS por telefone que os jatos e mísseis aparentemente não atingiram seus alvos nos ataques nas proximidades das cidades de Khost e Jalalabad.

Os jatos dos EUA aparentemente visavam supostos campos de treinamento administrados por Bin Laden. "Garanto a vocês que ele (Osama) está vivo", afirmou Mutamaen.

O líder do Taleban, mulá Mohammad Omar, cujo movimento purista islâmico controla a maior parte do Afeganistão mas não tem sido reconhecido pela maioria dos governos mundiais, afirmou a uma agência de notícias afegã baseada no Paquistão que "O ataque não é contra Osama, e sim uma demonstração da animosidade em relação ao povo afegão".

"Não existe campo de Osama bin Laden no Afeganistão", garantiu Omar de seu quartel-general na cidade sulista afegã de Kandahar. "Nós já fechamos seus campos".

"Nunca poderemos entregar Osama à América", declarou.

No Sudão, há muito acusado pelos Estados Unidos de patrocinar terrorismo, o governo islâmico anunciou que a instalação atingida pelos ataques americanos era a fábrica farmacêutica privada Ashifa em Bahri, uma zona industrial cerca de 20 km ao norte do centro de Cartum.

Os EUA afirmam que a fábrica era uma instalação "relacionada com armas químicas".

O ministro da Informação sudanês, Ghazi Salahuddin, disse que a fábrica Ashifa foi aberta há dois anos. "Ela já foi visita por chefes de Estado. Condenamos este ato criminoso".

"Não tenho dúvida de que esta agressão visa distrair a atenção de casos envolvendo o presidente americano", afirmou, referindo-se ao caso Monica Lewinsky.

O Paquistão, vizinho oriental do Afeganistão e tradicional amigo dos Estados Unidos amplamente considerado o principal financiador do Taleban, anunciou que não foi informado com antecedência sobre os ataques.

"Não estávamos sabendo de nada e nenhuma instalação foi oferecida pelo Paquistão (para o ataque)", afirmou à REUTERS o ministro do Exterior Satraj Aziz.