| CPI DOS BANCOS FHC ataca ação da PF na casa de Chico Lopes
O presidente não contestou o aspecto
legal da operação, mas disse que é preciso coibir o
arbítrio
CLÓVIS ROSSI
Enviado especial da AF - Lisboa
O presidente Fernando Henrique Cardoso cobrou ontem da
opinião pública que "repudie a volta do arbítrio
no Brasil", ao se referir ao que o governo chama de
"invasão" da casa do ex-presidente do Banco
Central Francisco Lopes.
A "invasão" foi feita ontem pela Polícia
Federal, com base em requerimento do Ministério
Público, para procurar documentos relativos às
operações entre o BC e os bancos Marka e FonteCindam.
O presidente não contestou o aspecto legal da
operação mas disse que "o arbítrio, às vezes,
existe por parte daqueles que devem coibi-lo. Me parece
que estamos em um desses casos".
FHC chegou a fazer uma comparação sinuosa entre a
ação policial de sexta-feira e o regime militar do
período 1964/1985:
"Lutei muito contra o regime militar, fui vítima
dele. Acho que é preciso respeitar o estado de direito e
acho grave que, no estado de direito, aqueles que são os
detentores do poder legal para decisões dessa natureza
não reflitam mais ao tomar decisões desse tipo, porque
realmente não existe um motivo, pelo menos que tenha
sido trazido ao conhecimento púbico, para esse tipo de
ação".
Em seguida, engatou: "Como democrata que sou,
respeito a lei, mas acho que quem tem o poder executivo
máximo, como tenho, deve procurar contê-lo nos limites
não só da lei, mas do bom senso. Não creio que tenha
havido bom senso".
A catilinária contra a operação foi além, ao dizer
que estava falando em termos de "defesa da
democracia, dos direitos individuais, até dos direitos
humanos". Considerou o episódio uma
"exploração escandalosa" em torno de "um
problema que pode ser real ou não. Nem isso se sabe.
Não há nada que justifique o que aconteceu".
Mas FHC disse acreditar que as investigações sobre a
ajuda aos bancos não se imporão permanentemente na
agenda política: "Creio que passado esse momento
que pode, evidentemente, inflamar certos corações e
mentes, se voltará a uma situação de
equilíbrio".
Tratou também de desvincular a operação na casa de
Francisco Lopes dos trabalhos da CPI (Comissão
Parlamentar de Inquérito) dos Bancos, ao lembrar que
fora uma ação determinada pelo Ministério Público, e
não pela CPI.
"Não tem nada a ver com a CPI", reforçou
FHC, em entrevista coletiva concedida no Centro Cultural
de Belém, em Lisboa, ao lado do primeiro-ministro
português António Guterres.
Como as perguntas dos jornalistas brasileiros ficaram,
quase todas, centradas no episódio, criou-se natural
constrangimento para Guterres, que resolveu tomar a
iniciativa de fazer elogios à economia brasileira e ao
governo.
Mas era evidente o ambiente tenso na comitiva
brasileira que está em Lisboa. O próprio presidente
informou que falara pelo telefone com os ministros Pedro
Malan (Fazenda) e Renan Calheiros (Justiça) para se
manter informado.
Também o ministro das Comunicações, Pimenta da
Veiga, articulador político do governo, estava informado
e igualmente constrangido. Tanto que considerou "um
constrangimento desnecessário" a operação
executada pela PF.
Pimenta da Veiga disse que "há uma competição
de vários setores pelas luzes da CPI". Depois,
especificou que setores: a própria Polícia Federal e o
Ministério Público.
O constrangimento da comitiva deve-se também ao fato
de que nenhum de seus integrantes nega o caráter legal
da operação.
Renan:
ação foi inconstitucional
ILIMAR FRANCO
Da AJB - Brasília
O ministro da Justiça, Renan Calheiros, disse ontem
que a ação do Ministério Público no Rio de Janeiro,
que invadiu o apartamento do ex-presidente do Banco
Central, Francisco Lopes, foi inconstitucional. "A
ação do Ministério Público foi feita ao arrepio da
Constituição, houve uma invasão ao estado democrático
de direito", criticou Renan Calheiros. O Procurador
Geral da República, Geraldo Brindeiro, decidiu chamar a
Brasília para explicações o Procurador da República
no Rio de Janeiro, Alcides Martins.
O ministro, baseado em decisão do STF de que o
Ministério Público não pode fazer investigações
diretamente, protestou contra a ação do Ministério
Público e da Justiça, na sexta-feira, junto ao
Procurador Geral da República, Geraldo Brindeiro, e ao
presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro
Pádua Ribeiro. O presidente do STJ considera, como o
ministro da Justiça, que os artigos 129 e 144 da
Constituição impedem o tipo de ação desencadeada pelo
Ministério Público e assumiu o compromisso de conversar
sobre o assunto com o presidente do Tribunal Regional
Federal do Rio de Janeiro, desembargador Alberto
Nogueira.
Renan Calheiros informou que a Polícia Federal está
requisitando os documentos em mãos do Ministério
Público e que continuará investigando o caso em
inquérito próprio. O banqueiro Salvatore Alberto
Cacciola chegou ontem de manhã ao Rio, vindo de Milão,
na Itália e confirmou que vai prestar depoimento na
segunda-feira.
DEPUTADOS/PROCESSOS
Câmara mantém protecionismo
JAILTON DE CARVALHO
Da AJB - Brasília
A iniciativa do presidente da Câmara, Michel Temer,
de desarquivar o pedido de licença para processo de 26
deputados e, com isso, livrar a instituição da pecha de
corporativismo não produziu o resultados esperado. Os 18
pedidos submetidos a apreciação nas duas últimas
semanas foram rejeitados e tudo indica que os oito
restantes, que serão votados nos próximos dias, terão
o mesmo destino. "Isso é uma evidente
demonstração de corporativismo", afirmou o
presidente da Associação de Magistrados Brasileiros
(AMB), Luiz Fernando Carvalho, que tem estado em embate
com o Congresso por causa da CPI do Judiciário.
Segundo ele, o comportamento da Câmara é
"bastante estranho" não só pelo surgimento de
várias CPIs neste momento, mas também pelo fato dos
líderes partidários terem decidido, há menos de um
mês, apressar a votação do projeto de restrição da
imunidade parlamentar. Luiz Fernando considera "uma
situação difícil de explicar" esta da Câmara de
limitar a imunidade e, ao mesmo tempo, rejeitar a
licença para que o Supremo Tribunal Federal processe
deputados acusados pelos mais diversos tipos de
irregularidades, inclusive por crimes comuns. "É
por isso que os poderes estão com déficit de
credibilidade", disse.
Dos 18 deputados que tiveram os pedido de licença
rejeitados, cinco são acusados de crimes considerados
graves. São eles, Sérgio Barcelos (PFL-AP), Flávio
Derzi (PMDB-MS), Armando Abílio Vieira (PMDB-PB), Luiz
Fernando (PPB-AM) e Edson Andrino (PMDB-SC). Barcellos é
acusado de envolvimento em um seqüestro. O deputado
Antônio Biscaia (PT-RJ), ex-procurador de Justiça do
Rio de Janeiro, que conhece de perto o caso, disse que
custou a acreditar na decisão de seus colegas de impedir
que Barcellos seja processado. Para o ex-procurador, não
há dúvidas sobre a conduta de Barcellos.
Flávio Derzi é acusado de corrupção. Segundo a
denúncia, que dá sustentação ao pedido de licença,
Derzi contratou uma empreiteira pra construir 17
armazéns a preços superfaturados. Isso aconteceu em
1987, quando Derzi era secretário de Agricultura do Mato
Grosso do Sul. Em companhia de Derzi está Luiz Fernando.
O deputado amazonense é acusado de receber
irregularmente dinheiro do Inamps através de sua
clínica oftalmológica Harley Street. As denúncias são
de 1988 e 1989 e o processo não foi adiante porque, sem
a licença da Câmara, o STF não tem como encaminhar as
investigações.
Edson Andrino, que foi prefeito de Florianópolis, é
acusado de ter contratado funcionários para sua
administração sem concurso público. Existem outras
denúncias de irregularidades supostamente cometidas por
Andrino. Mas o deputado costuma atribuir estas denúncias
aos seus adversários do PPB, que hoje estão no comando
do governo catarinense. Mas, um dos casos mais curiosos
é o do deputado Armando Vieira. O deputado é acusado de
comprar informações sigilosas de um vestibular em que
sua filha, menor de idade, era uma das concorrentes.
Nos próximos dias, a Câmara deverá apreciar o
pedido de licença para que o STF processe oito
deputados. Entre eles, estão Márcio Fortes (PSDB-RJ),
Freire Júnior (PMDB-TO), José de Abreu (PSDB-SP),
Eurico Miranda (PPB-RJ), Sarney Filho (PFL-MA), Nelson
Marquezzelli (PTB-SP) e Ibraim Abi Ackel (PPB-MG). O caso
considerado mais grave é de Abi Ackel. O deputado é
acusado de ter favorecido seu filho, o advogado Paulo Abi
Ackel, quando era ministro da Justiça. De acordo com a
denúncia, o então ministro facilitava o trabalho do
filho em processos de naturalização e permanência de
estrangeiros no Brasil.
Pelas lei da imunidade, o STF só pode processar um
parlamentar, mesmo aqueles acusados por crimes comuns
como homicídio, depois de receber autorização do
Congresso. Além de desarquivar os pedidos de licença
feito pelo STF, Michel Temer criou uma comissão especial
encarregada de preparar um projeto de restrição da
imunidade a crimes de opinião. A comissão foi criada
mês passado, mas ainda não foi instalada.
Adilson
Lopes
Dominante
Todos os papos, fatos, fofocas, verdades,
mentiras, intrigas, infâmias, alusões, e
dissimulações, levam ao escândalo da Sefaz. Em
qualquer roda, séria ou nem tanto, não dá outra.
Novidades
As novas vertentes dos indícios, agora voltadas
para o setor madeireiro em Sinop, foram noticiados há
algum tempo, com exclusividade, por esta coluna.
Enorme
Fontes de Sinop, aliás, insistem em seguir
afirmando que o que foi dado ao conhecimento público,
até momento, é tão pouco que sequer pode ser
considerado a ponta do iceberg. A fria seria imensamente
maior.
Facilidade
As informações dão conta, inclusive, que em
Sinop foi possível adquirir notas fiscais frias em
esquinas, com a mesma facilidade com que se joga no
bicho.
Comparando
A comparação é proposital, já que o jogo do
bicho, enquanto contravenção, é também tocada nas
barbas, e até com a conivência, das autoridades. Com as
notas frias para a madeira seria a mesma coisa.
Limite
Quando chega-se a este ponto, não há mais como
as autoridades tergiversarem ou fugirem ao assunto. Toda
a sociedade está de olho e aguarda, já com ansiedade,
medidas concretas, sérias e eficazes.
Xeque
Nunca é demais observar que, inevitavelmente, a
própria figura do governador Dante de Oliveira está em
xeque. Não há mais anteparo possível. É a imagem dele
que ora se expõe.
Nomes
Nos últimos dias da semana passada, cresciam os
rumores de troca de comando na Sefaz. Maurício
Magalhães e Guillherme Muller seriam os nomes da
preferência de Dante, a confirmar-se a queda de Albano.
SAC
Algumas empresas de ponta instituíram o
Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC), para
esclarecimentos de dúvidas e informações mais
completas a seus consumidores e clientes. Uma boa
realmente.
SACO
Só que em alguns casos, como na Direct TV, por
mau exemplo, o tal SAC se transforma num verdadeiro SACO
e numa autêntica SACANAGEM com o cliente.
Impossível
Pelos telefones oferecidos pela Direct TV para
contato, mesmo os que não são 0800 e, portanto, com
ligações pagas pelos assinantes, simplesmente não se
consegue contato. Em horário algum.
Não completa
Quando o assinante consegue completar a ligação, uma
gravação pede para aguardar um instante e, logo após
irritantes musiquinhas como fundo para publicidade, a
ligação simplesmente cai.
Sem chance
Em outros telefones da Diretct TV, os atendentes
dizem ser de área técnica e que problemas
administrativos só podem ser tratados justamente nos
telefones cujas ligações são impossíveis.
Desrespeito
A coluna recebeu inúmeras reclamações de
assinantes Direct TV, todas nesse sentido. Constata-se um
verdadeiros desrespeito e falta de consideração, além
de ineficiência e incompetência comprovadas.
Ofuscação
Nos bastidores políticos, naturalmente, o
escândalo da Sefaz tem ofuscado outros temas e buxixos.
Eles existem, entretanto, muitos deles de reconhecida
importância para a vida do Estado.
Repercussão
Nos meios pefelistas, sabe-se, continuam
repercutindo muito e negativamente, as palavras do
ex-senador e candidato derrotado ao governo, Júlio
Campos, em favor de Blairo Maggi.
Nada contra
Não que os pefelistas tenham algo contra Maggi,
que está senador por conta da licença justamente do
titular pefelista Jonas Pinheiro. Muitos pefelistas, na
verdade, sonham com a filiação de Maggi.
Lançamento
Ocorre, todavia, que Júlio Campos, no seu velho
estilo, praticamente lançou a candidatura de Maggi à
sucessão de Dante, como nome da oposição e uma
postulação alternativa.
De frente
Só que aí, bem aí, tem um novo e mais forte
porém. O lançamento de Maggi bate de frente, duro e
forte, com os interesses do prefeito de Várzea Grande,
Jaime Campos, justamente o irmão de Júlio.
Fritura
Não é segredo para ninguém que Jaime é
candidatíssimo à sucessão de Dante. Deste modo,
insistindo no nome de Blairo Maggi, Júlio Campos,
estaria, na visão dos jaimeiros, tentando queimar o
irmão.
Pedra
Júlio conseguiu - se é que realmente queria -
botar uma pedra enorme no sapato do Pedra. Sem falar que
Jaime ainda terá que enfrentar a prova da reeleição em
Várzea Grande, verdadeiro ponto de honra.
Dificuldades
Pela movimentação dos agentes políticos, já
se nota que Jaime, no mínimo, terá bem mais trabalho do
que imagina para reeleger-se. E a candidatura ao governo
passa, inexoravelmente, por isto.
Firula
Quanto ao lançamento de Blairo Maggi por Júlio
Campos, tudo pode não passar de mera firula. Até
porque, em princípio, Maggi não demonstra qualquer
propensão em filiar-se ao PFL.
Nova força
O sojicultor - maior produtor do País - tem
dito e repetido que esperará ainda um bom tempo para
filiar-se a algum partido. Os indícios são de que
pretende liderar nova e forte facção política.
3ª Via???
Agora tem uma coisa, depois do escândalo das
notas fiscais frias e coisas e tais, o colunista já
soube que Blairo Maggi não pode sequer ouvir falar em
terceira via. Nem seria para menos. Vote!!!
Dirty
O secretário de Segurança Pública está com
problemas porque quer. Por que ele não contrata logo o
Dirty Harry (Clint Eastwood) e resolve os problemas. O
cara é massa demais meu!!!
Topo o Moita
Baixo, sabe porque o Julinho lançou o Blairo
Maggi?
Claro, foi para irritar o seu irmão, Jaime.
Nada disso. É que ele acha que, para Maggi, a
eleição é sopa.
[email protected]
KOSOVO
Sérvios mostram vítimas civis aos
jornalistas
O cenário do massacre foi apresentado
como prova do "crime da Otan"
KENNEDY ALENCAR
Enviado especial da AF - Prizren, Iugoslávia
Na beira da estrada que vai dar em Djakovica, no
sudoeste de Kosovo, seis corpos estão deitados lado a
lado em um gramado. São de cinco mulheres e de um homem
de etnia albanesa. As duas primeiras, da esquerda para a
direita, aparentam pouco mais de 20 anos e têm os olhos
abertos.
O que mais impressiona nas duas garotas não são os
ferimentos causados pelos fragmentos da explosão do
míssil da Otan, mas os semblantes que ainda guardam a
expressão de que sentiram muita dor e de que demoraram a
morrer.
Para quem, como o repórter da Folha de S.Paulo, via
pela primeira vez mortos de guerra, fica a sensação de
que eles não podem ser gente de verdade. A brutalidade
das mutilações os faz semelhantes a manequins de filme
de terror. Parecem bonecos de cera de tão pálidos.
Da cabeça de um senhor de cerca de 60 anos, sobrou
apenas a face. O crânio foi partido e estava
parcialmente oco. A poucos metros dele, havia uma cabeça
de um homem que aparentava 45 anos.
Na pista, um trator iugoslavo da marca IMT ainda tinha
o motorista ao volante. Totalmente queimado, ele parecia
uma estátua. Sua barriga se fundira com as engrenagens
do motor. Na carroça que puxava, corpos carbonizados.
Debaixo dela, pedaços de pernas e braços. O cheiro de
carne humana queimada podia ser sentido.
Até aquele momento, a reportagem havia visto 28
corpos dos 75 que foram mortos na quarta, segundo o
Exército iugoslavo.
O cenário do massacre era exibido pelo coronel
Slobodan Stojanovic como prova do "crime contra a
humanidade" que a Otan cometera. Ele cuidava da
segurança dos jornalistas, que chegaram à região na
quinta à tarde, mais de 24 horas após o ataque -o que
pode ter dado tempo para que a cena do massacre sofresse
eventual alteração.
O que ocorreu de verdade no dia anterior é objeto de
batalha entre os sérvios e a Otan, que já admitiu ter
atingido os civis, mas investiga as circunstâncias. Os
albaneses mortos se tornaram úteis ao presidente
Slobodan Milosevic na guerra de propaganda contra a Otan.
"Vocês têm toda a liberdade para filmar e fazer
as suas reportagens", avisa o atencioso coronel
Stojanovic, num tom diferente do adotado como regra pelo
Exército iugoslavo, que controla a circulação de
jornalistas até em Belgrado.
Saindo de Prizren para Djakovica, chega-se ao primeiro
local bombardeado após o vilarejo de Donja Srbica. O
comboio, com habitantes de seis vilas, levava cerca de 40
pessoas -6 morreram e 11 ficaram feridas.
O grupo estava vagando sem rumo pela estrada havia
três semanas quando o Exército iugoslavo ordenou que
saísse da fronteira por causa das escaramuças com o ELK
(Exército de Libertação de Kosovo). Fazia parte dele
Izmet Sulja, 56, entrevistado no hospital de Prizren,
para onde levara os três filhos adolescentes feridos.
Atingido levemente por fragmentos, Sulja dá um
depoimento que agrada ao coronel Stojanovic: "Não
havia veículo militar conosco. Tivemos uma escolta por
pouco tempo, quando deixamos a fronteira (com a
Albânia)".
Conta que dirigia o trator quando ouviu o barulho de
um avião. Antes que pudesse olhar, ocorreu a explosão.
A carroça que puxava está no meio da estrada. Os
últimos pertences que ainda tinha estavam espalhados
pelo chão -comida, roupas, um rádio quebrado.
Há uma cratera, na junção do acostamento com o
asfalto, feita por um míssil, com a identificação
962148377NY. As armas iugoslavas têm inscrição em
russo ou sérvio (em alfabeto cirílico).
Os mortos por esse míssil estão numa sala fria do
hospital de Prizren. Há dois homens, um deles sem a
cabeça, três mulheres e uma menina de 7 anos. A garota
tinha pequenos olhos negros, que ainda estavam abertos.
Deitada ao lado da mãe, virara parte do que a Otan
classifica cinicamente de "dano colateral"
(morte de civis ou dano a propriedade civil).
O segundo comboio foi atacado por dois mísseis.
Apesar disso, diz o Exército iugoslavo, morreu apenas um
senhor que aparentava ter 65 anos. Seu corpo está jogado
fora da estrada, apoiado por árvores em um barranco.
A metade de uma das pernas ficou no meio da pista. A
10 metros dali, está outra carroça destruída. No
chão, mais comida, roupas, cobertores, documentos e um
álbum com fotos de casamento. Perto, há pedaços do
míssil, com a inscrição em inglês "para uso no
MK 82 (um tipo de bomba)'' e com o número 78-201872. O
número de uma parte do circuito elétrico é
96214A55Y872112.
A imprensa internacional desiste de ir ao quarto
local, onde teria morrido o maior número de pessoas.
Estava escurecendo, e o ônibus tentaria voltar a
Belgrado ainda naquela noite, o que acabou não
acontecendo.
O coronel Stojanovic diz que não há segurança para
o retorno à capital iugoslava. Afirma que, além de
eventual emboscada do ELK na estreita estrada que cruza
as montanhas do sul de Kosovo, a "Otan poderia nos
atacar".
Apesar da ironia, tem razão. Ao fim do dia, é
possível afirmar que eram da Otan os mísseis que
atingiram os três locais visitados. Mesmo que se
confirme a hipótese de que caças atacaram os comboios
por que veículos militares os acompanhavam, os
bombardeios mataram as pessoas que justamente visavam
proteger.
Documentos
são destruídos
Da AP Blace,
Macedônia
Forças servias não permitiram que 1.500 refugiados
abandonassem Kosovo para entrar na Macedônia por falta
de passaporte. A denúncia foi feita por Paula Ghedini,
informante das Nações Unidas para os refugiados.
Os refugiados eram parte dos 2.000 e 2.500 que vieram
da cidade de Urosevac, sul de Kosovo, e chegaram a
fronteira de trem. Uns 500 refugiados que tinham
passaporte foram autorizados a sair, segundo os
refugiados.
"Nos preocupa muito a situação dos outros 1.000
e 1.500", disse Ghedini. "Sabemos através dos
refugiados que a situação é muito ruim. Muitos se
escondem nos bosques por vários dias sem
alimentos".
Durante estas três semanas de êxodo dos kosovares de
origem albanesa, os refugiados que chegam aos países
vizinhos dizem que os servios destruíram seus
documentos, para que pareçam com a maioria e impedir seu
retorno.
Macedônia
critica exército separatista
Do Enviado especial da
AF - Belgrado
O governo da Macedônia acusou o ELK (Exército de
Libertação de Kosovo, separatista) de recrutar soldados
nos campos de refugiados na fronteira do país com a
Iugoslávia.
As autoridades macedônicas disseram que são
contrárias à atividade do ELK em seu território porque
o país "não deseja ser mais envolvido no
conflito" entre a Otan e a Iugoslávia.
A rede de TV CNN teve acesso ao que, segundo a
Macedônia, é um depósito de armas do ELK. Ele estaria
localizado no norte do país -a 4 km da fronteira com a
Província de Kosovo.
No depósito, foram encontradas granadas, armas
antitanques e minas de fabricação chinesa. A China era
a maior fornecedora de armamento para a Albânia até o
fim do regime comunista no país, no começo desta
década.
Com o bombardeio da Otan (aliança militar liderada
pelos EUA), a Iugoslávia intensificou o combate ao ELK.
Eliminou as principais bases dos separatistas.
Soldados do ELK se refugiaram na Albânia e nas
montanhas de Kosovo próximas à Macedônia.
A Macedônia, que fazia parte da antiga Iugoslávia,
tem boas relações com a Sérvia. Cerca de 60% de toda a
sua exportação vai para a atual Iugoslávia.
O general Wesley Clark, comandante da tropas da Otan,
em visita a Tirana, capital albanesa, disse que o
presidente da Iugoslávia, Slobodam Milosevic,
"ameaça a Albânia e outros países da região e
que deve terminar essa agressão». Tropas iugoslavas
têm travado batalhas com o ELK na fronteira.
Em Tirana, capital albanesa, desembarcou ontem um
grupo de cem americanos de etnia albanesa para engrossar
as fileiras do ELK.
Clark foi ainda a Skopje, capital da Macedônia, onde
voltou ao ataque. "O presidente Milosevic está
perdendo e sabe que está perdendo.» Afirmou que a
campanha aérea seria intensificada: "Destruiremos
todas as coisas que o presidente Milosevic
valoriza".
INDONÉSIA
Protestos deixam 12 mortos
Da AP - Dili,
Indonésia
Militantes contra a independência deram tiros com
armas militares e artesanais, queimaram casas de rivais
separatistas e saquearam lojas ontem, depois que milhares
se manifestaram na capital do Timor Leste para demonstrar
lealdade à Indonésia. O chefe militar indonésio do
Timor Leste, coronel Suhartono Suratman, disse que 12
pessoas foram mortas em três incidentes separados em
Dili.
Moradores apavorados acreditam que o número de mortos
é muito mais alto e que dezenas de pessoas ficaram
feridos. Segundo eles, as gangues tomaram as ruas, sem
repressão das forças de segurança que geralmente
mantêm uma forte presença na cidade. Membros das
gangues, alguns armados de facas, espadas e cacetes, usam
faixas nas cores vermelha e branca, as cores nacionais da
Indonésia.
Separatistas denunciaram que os militares indonésios
treinam e armam os grupos paramilitares contra a
independência, para sabotar o processo de paz da ONU
para o território. A população é profundamente
dividida quanto a permanecer como parte da Indonésia ou
se tornar independente. A antiga colônia portuguesa
sofre uma guerra de guerrilha e abusos dos direitos
humanos desde que a Indonésia a invadiu em 1975 e a
anexou no ano seguinte.
Suratman, que negou a ligação dos militares com os
grupos paramilitares, disse que a situação estava
"sob controle" na noite de sábado. Mas admitiu
que apenas cinco militantes foram detidos e algumas armas
confiscadas pela polícia.
|