| DENÚNCIAS Pastor soube do dossiê durante confissão
Clóvis Rossi
Da Agência Folha São Paulo
A história do dossiê sobre a suposta empresa da
cúpula do PSDB em um paraíso fiscal nasceu na Flórida,
o Estado da costa Leste dos Estados Unidos que é centro
de operações (nem sempre lícitas) para
latino-americanos em geral e brasileiros em particular.
É o que se deduz da carta que o pastor evangélico
Caio Fábio d'Araujo Filho enviou no sábado, por e-mail,
a um grupo de jornalistas e entidades, para se defender
da acusação de estar envolvido na suposta chantagem
contra o presidente Fernando Henrique Cardoso, o
governador de São Paulo, Mário Covas, o ministro da
Saúde, José Serra, e Sérgio Motta, ministro das
Comunicações, já morto.
A história que Caio Fábio conta é, em resumo, a
seguinte:
Como dois de seus filhos estudam na Flórida, ele
viaja constantemente para lá. Numa de suas viagens
ouviu, em segredo de confissão, a história da suposta
empresa, contada em culto evangélico por um profissional
da área de mercado de capitais.
O pastor não diz exatamente quando ouviu a
confissão, mas só pode ter sido no início do ano, bem
antes, portanto, de Serra e Covas começarem a receber
bilhetes que sugeriam tentativa de chantagem.
Caio Fábio conta que não acreditou inicialmente na
história, mas quem ele chama de "irmão de
fé" insistiu várias vezes. "Passei os meses
de abril a junho deste ano em profunda agonia. As
notícias eram de seca, invasões de terra, saques,
desemprego, angústias no campo, crises sociais, e,
enquanto isso, eu convivia com a informação - falsa ou
não - de que os líderes da nação teriam milhões de
dólares num paraíso fiscal. No fim de maio esse
sentimento ficou insuportável", relata o pastor.
Ainda assim, foi só em agosto que Caio Fábio decidiu
levar o assunto à oposição (ao qual ele é ligado), a
partir do fato de que seu amigo lhe dissera que outros
já estavam informados a respeito e tentavam vender
documentos. Caio falou, então, com Luiz Inácio Lula da
Silva e a senadora Benedita da Silva, ambos do PT.
Duas semanas depois, prossegue o relato do pastor, o
comando da campanha oposicionista decidiu entregar o tema
para Leonel Brizola, candidato a vice de Lula, que, por
sua vez, requisitou o auxílio do advogado Nilo Batista.
Decidiram conjuntamente montar um esquema de cuidadosa
verificação da documentação que fosse eventualmente
obtida. Com essa perspectiva, Caio Fábio voltou à
Flórida para encontrar o amigo que fizera a
"confissão", que, por sua vez, o conduziria a
quem teria os documentos comprobatórios.
O encontro ficou marcado para o Hotel Ritz, em Fort
Lauderdale, com o que Caio Fábio descreve como "o
pessoal do escritório das ilhas Cayman que dizia possuir
os documentos". Foi só então que surgiu o pedido
de dinheiro para que os documentos fossem exibidos. Caio
diz ter dado "o assunto por encerrado".
Mas, dias mais tarde, foi informado pelo "irmão
de fé" que também Ciro Gomes, candidato do PPS à
Presidência, já sabia da história. O pastor falou
então por telefone com Ciro e lhe disse: "Eles
querem US$ 1,5 milhão, mas deixam ver tudo antes".
Também Ciro não aceitou entrar no circuito. Quem
entrou foi o pessoal de Paulo Maluf, candidato do PPB ao
governo paulista.
"Fiquei angustiado outra vez, pois, afinal, eu
quis e quero que os fatos sejam devidamente investigados,
mas não os desejava em mãos erradas, cujo interesse
não fosse a verdade, mas a barganha, o sequestro moral e
a troca política perversa", diz a carta do pastor.
Foi aí que ele decidiu relatar o fato, "de
maneira sucinta", a Eduardo Jorge Caldas,
secretário-geral da Presidência e coordenador da
campanha de FHC à reeleição.
Duas pessoas que tiveram envolvimento nos episódios
confirmaram à Folha de S.Paulo a versão de Caio Fábio:
o advogado Márcio Thomaz Bastos e Ciro Gomes. Ambos
dizem que, em nenhum momento, o pastor se envolveu no
esquema de chantagem ou pedido de dinheiro. Ciro diz que
Caio foi o único, entre os que disseram ter
informações, que agia "por patriotismo".
Presidente
do BNDES nega demissão
Marcelo Mota
Da Agência Folha Rio
O presidente do BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social), André Lara
Resende, negou ontem que esteja demissionário.
"Não vou pedir demissão agora", disse.
A declaração foi dada quando Lara Resende
participava, no final da manhã, de uma prova do 3º
Circuito Hípico do Estado do Rio de Janeiro, na
Sociedade Hípica Brasileira, no Rio.
Ele se negou, porém, a comentar os trechos de
gravações feitas por meio de grampos telefônicos
veiculados pela revista "Veja". "Não vou
falar sobre isso agora nem que caia um raio aqui",
respondeu irritado, ao ouvir a simples menção sobre o
sistema telefônico do BNDES.
A transcrição de trechos das fitas, entre elas
conversas do presidente do BNDES com o ministro Luiz
Carlos Mendonça de Barros (Comunicações), levanta
suspeita de favorecimento do Banco Opportunity. O banco
de investimento tem como um de seus sócios Pérsio
Arida, amigo do presidente do BNDES.
Tentando permanecer alheio à polêmica, Lara Resende
competiu hoje na Hípica com seu próprio cavalo,
Jaccarda Blue, mas não conseguiu se classificar. Após
derrubar o penúltimo obstáculo do percurso, perdeu
quatro pontos e saiu da disputa.
Amante do esporte há cerca de dois anos, o presidente
do BNDES ocupa a 12a colocação no ranking nacional da
categoria proprietário, onde só competem donos de
cavalos que não são profissionais do hipismo.
Pastor
Caio Fábio coordena Fábrica da Esperança
Da Agência Folha
Rio
A história do dossiê não é a única polêmica a
envolver o pastor evangélico Caio Fábio d'Araujo, 43.
Presidente da Associação Evangélica Brasileira, ele
está à frente da Fábrica da Esperança, entidade que
proporciona cursos profissionalizantes e creches para a
comunidade carente em Acari (zona norte do Rio).
A mesma Fábrica da Esperança onde policiais
militares encontraram trouxinhas de maconha e papelotes
de cocaína em novembro de 1995 - a PM voltaria a
encontrar drogas no local seis meses mais tarde.
Caio Fábio recebeu solidariedade de expoentes da
sociedade civil, como o sociólogo Herbert de Souza, o
Betinho, morto em agosto de 1997.
Conhecido por suas posições progressistas e
ligações com partidos de esquerda, o presbiteriano Caio
Fábio preside a organização não-governamental Visão
Nacional de Evangelização.
Ele se opõe à ação da Igreja Universal do Reino de
Deus, que já definiu certa vez como "uma máquina
de arrancar dinheiro''.
Caio Fábio foi quem orientou o estudo da Bíblia do
futuro governador do Rio, o pedetista Anthony Garotinho.
GRAMPO
Transcrição das conversas grampeadas
no BNDES
São duas fitas editadas, cada uma com duração de 90
minutos, com 34 conversas grampeadas no BNDES:
1a gravação: o ministro Mendonça de Barros
(Comunicações), o presidente do BNDES, André Lara
Resende, o vice-presidente do BNDES, Pio Borges, e Persio
Arida, ex-presidente do Banco Central e um dos sócios do
banco Opportunity conversam com o presidente da Previ,
fundo de pensão do Banco do Brasil, Jair Bilachi:
Mendonça de Barros: Estamos aqui eu, André, Persio e
Pio. Mas estamos muito preocupados com a montagem que o
Ricardo Sérgio (de Oliveira, diretor da área externa do
Banco do Brasil) está fazendo do outro lado (refere-se
ao consórcio de Carlos Jereissati). Porque está
faltando dinheiro, doutor. E a gente está sabendo que
uma das alternativas (do outro consórcio) é fundir as
empresas com a holding. Aí, o negócio não fica limpo e
a minha primeira preocupação, e o presidente já me
ligou, é que a gente ponha em pé esse negócio. Senão,
o que aparentemente for um p... sucesso pode ficar um
negócio amargo.
Bilachi: Ministro, nós estamos concentrando forças e
a nossa proposta é bem diferente. Mas é justo na linha
dos nossos negócios. Nós estamos cacifando aqui. Mas
essa questão do outro negócio (do apoio de Ricardo
Sérgio ao grupo de Jereissati), acho que vocês deveriam
conversar com o Ricardo Sérgio.
Mendonça de Barros: Tudo bem. Mas o importante para
nós é que vocês montem com o Persio, evidentemente
chegando a um acordo, e tudo o que precisar nós
ajudamos. Temos um probleminha agora que é a carta de
fiança. E é chato chegar agora, no meio da tarde, e o
Banco do Brasil dizer que não vai dar.
Bilachi: Vou falar com ele (refere-se a Ricardo
Sérgio). Sei que ele (Ricardo Sérgio) está falando com
a Telefónica de España, um negócio meio esquisito.
2a gravação: conversa entre Mendonça de Barros e
Ricardo Sérgio, diretor da área externa do Banco do
Brasil:
Mendonça de Barros: Está tudo acertado. Mas o
Opportunity está com um problema de fiança. Não dá
para o Banco do Brasil dar?
Ricardo Sérgio: Acabei de dar.
Mendonça de Barros: Não é para a Embratel, é para
a Telemar (refere-se, na verdade, à Tele Norte Leste)
Ricardo Sérgio: Dei para a Embratel e R$ 874 milhões
para a Telemar (Tele Norte Leste). Nós estamos no limite
de nossa irresponsabilidade. São três dias de fiança
para ele.
Mendonça de Barros: É isso aí, estamos juntos.
Ricardo Sérgio: Na hora que der m... Estamos juntos
desde o início.
3a gravação: conversa entre Mendonça de Barros e
André Lara Resende:
Mendonça de Barros: Discute primeiro um número mais
baixo (refere-se a informar o consórcio liderado por
Carlos Jereissati, que concorre com o consórcio liderado
pelo Opportunity, um ágio baixo) e na última hora...
André Lara: Na última hora sobe.
Mendonça de Barros: É isso aí.
André Lara: Falei com ele (refere-se a Persio Arida,
um dos sócios do Opportunity). Concentra nisso. Esquece
o outro.
4a gravação: conversa entre o presidente Fernando
Henrique Cardoso e Mendonça de Barros
Mendonça de Barros: Estamos aqui praticamente com o
quadro fechado. Tem uma notícia ruim. A Bell South não
vai entrar (no leilão).
FHC: Eu sabia, o rapaz... Como é que se chama? Me
telefonou.
Mendonça de Barros: Ele (o rapaz da Bell South)
estava querendo mais tempo. A boa notícia é que a MCI
vai entrar na Embratel, que é uma empresa grande. Entra
com os espanhóis e, com isso, cria competição.
FHC: Ótimo, ótimo.
Mendonça de Barros: Nós estamos com um consórcio
para a Tele Norte Leste. É capaz de as (telefônicas)
fixas saírem em torno do preço mínimo. A Embratel vai
ter competição e vai ter competição grande nas
celulares.
FHC: Sei, sei. Mesmo a Telerj sai com o preço
mínimo?
Mendonça de Barros: Sai, porque a Bell South é que
seria a contraparte lá.
FHC: Você acha que, no conjunto, vai dar o quê?
Mendonça de Barros: Vai dar um R$ 16 bilhões, que é
o que eu tinha dito. O nosso preço mínimo é de R$ 13,4
bilhões e nós chegaremos a uns R$ 16 bilhões, que é
muito dinheiro.
FHC: Ajuda, né, as reservas...
Mendonça de Barros: Mais do que isso. A gente fica
com uma empresa sólida. Tem aí um monte de loucura que
nós bombardeamos. Não adianta criar competição e
depois criar problema para a frente.
FHC: Não, tem que ter coisa que funcione depois, que
atenda à população.
Mendonça de Barros: A imprensa está muito
favorável, com editoriais.
FHC: Está demais, né? Estão exagerando até.
5a gravação: conversa entre Mendonça de Barros e
André Lara Resende:
André Lara: Falei com o Persio. Está tudo certo.
Mendonça de Barros: Falei com a Previ também. Os
inimigos estavam lá reunidos. Eles vão entrar
(refere-se ao grupo de Jereissati).
FHC
visita cidade histórica de Goiás
Augusto Gazir
Da Agência Folha Pirenópolis, GO
Em meio à turbulência política provocada pela
divulgação de conversas telefônicas do ministro Luiz
Carlos Mendonça de Barros (Comunicações), o presidente
Fernando Henrique Cardoso tirou o domingo para passear
por Pirenópolis, cidade histórica de Goiás.
Ele e a primeira-dama, Ruth Cardoso, almoçaram na
casa que o porta-voz Sergio Amaral tem na cidade do
século 18, a 150 km de Brasília.
O ministro Paulo Renato Sousa (Educação), presente
no almoço, defendeu Mendonça de Barros e o apoiou para
ocupar o futuro Ministério da Produção.
"Oxalá assuma (o ministério a ser criado). É
um grande ministro e está fazendo tudo o que fez para
melhorar a competitividade na licitação das teles'',
disse. "O objetivo era aumentar o número de
competidores e melhorar o preço. Só isso.''
Durante a visita, FHC evitou comentar o assunto.
Questionado pelos jornalistas, ele afirmou:
"Aproveitem o fim-de-semana em Pirenópolis, tão
agradável.''
O almoço serviu para comemorar o aniversário de
Rosário Amaral, mulher do porta-voz da Presidência.
Estiveram na festa o ministro José Botafogo Gonçalves
(Indústria e Comércio), o governador eleito de Goiás,
Marconi Perillo, e o ministro do STF (Supremo Tribunal
Federal) Nelson Jobim.
O presidente e a primeira-dama chegaram de
helicóptero às 13h com o filósofo José Arthur
Gianotti e a arquiteta Regina Meyer, amigos do casal.
Antes de ir para a casa de Amaral, o grupo visitou a
loja de móveis de madeira de um artesão local. Em
seguida, sob forte chuva, os quatro visitaram as obras na
Igreja do Rosário. A recuperação do prédio,
construído no século 18, é financiada pela Telebrás.
FHC distribuiu cumprimentos a habitantes de
Pirenópolis e foi homenageado por um grupo de catira
(dança e música típicas) e pela banda da cidade.
ÍNDIOS
Índios vão fiscalizar Parque do Xingu
Rubens Valente
Da Agência Folha Parque do Xingu
Os próprios índios do Parque Indígena do Xingu vão
fazer a fiscalização da área, a maior de Mato Grosso,
com 3,27 milhões de hectares, que vem sofrendo invasões
de pescadores e caçadores.
Em reunião no último final de semana no posto
indígena Diauarum (cerca de 650 km de Cuiabá) com as
principais lideranças da reserva, o presidente da Funai,
Sulivan Silvestre, assinou documento se comprometendo a
repassar recursos diretamente para a Associação Terra
Indígena Xingu (Atix), criada e formada por
representantes das 15 etnias e 3.600 índios do parque.
Com a promessa de um repasse anual de R$ 40 mil da
Funai e mais R$ 2.400 mensais do Prodeagro (projeto
estadual em parte financiado pelo Banco Mundial), os
índios tentarão exercer a fiscalização através de
patrulhas e nos nove postos fixos já criados e três a
serem criados.
A idéia dos próprios índios assumirem a
fiscalização foi lançada há mais de oito anos, mas
ainda não passou de tímidos passos, com o trabalho nos
postos de vigilância sendo feito precariamente, sem
meios de comunicação, barcos ou armamentos.
O diagnóstico negativo é dos próprios líderes
indígenas, que o expuseram ao presidente da Funai
durante quatro horas na reunião em Diauarum. Isolados
nos postos, os índios são ameaçados e recebem ofertas
de suborno para deixar os pescadores agirem.
Sulivan Silvestre disse que a reunião no Xingu, que
começou na sexta-feira e terminou no final da tarde de
sábado, é "histórica e um divisor de
águas", por "consolidar o papel decisivo de
uma organização indígena na defesa do seu
território".
A decisão de Silvestre ocorreu após intensas
pressões das lideranças, que culminaram na detenção,
durante oito dias, de oito pescadores amadores no posto
Diauarum sob acusação de terem invadido o parque pelo
rio Arraias.
Um mês antes das detenções, dez índios caiabis,
suiás e jurunas incendiaram as instalações de um hotel
à beira do rio Suiá-Missu, cerca de 15 km fora do
parque, e tomaram dois barcos e uma lancha do
proprietário. Os índios acusavam o estabelecimento de
estar lançando esgoto no rio e prejudicando a pesca e a
saúde na aldeia. Os barcos foram depois trocados por uma
camionete usada.
Se nenhuma providência fosse tomada, os líderes
previam confrontos armados em breve dentro e fora do
parque. "Vai morrer índio e vai morrer
branco", disse o líder caiabi Iumunuk.
Representantes de outras organizações e órgãos que
atuam no Xingu, como o Pnud (Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento) e o Isa (Instituto
Socioambiental) participaram da reunião e vão colaborar
em ações de proteção das comunidades indígenas e
cadastramento de vizinhos do parque.
O presidente da Atix e maior liderança caiabi,
Mairauê, que coordenou a reunião com Silvestre, disse
que os índios já se cansaram de promessas e deram
"uma última" chance ao governo antes que algo
pior aconteça entre índios, pescadores e caçadores.
Fracassa
conferência contra poluição
Da AJB Buenos
Aires
Não levou a nada as discussões da Conferência
Mundial Sobre Mudança Climática, que terminou na
sexta-feira, em Buenos Aires, na Argentina. Sob pressão
dos Estados Unidos, o encontro não contribuiu para
avançar em praticamente nada em relação ao que já
havia sido acertado em Kyoto, no Japão, há um ano.
A Reunião de Buenos Aires, assim chamada pela
Organização das Nações Unidas (ONU), é parte dos
entendimentos mundiais para combater a progressiva
elevação das temperaturas médias da Terra. Nos
próximos cem anos, segundo os cientistas, os
termômetros podem subir em média até 3,5 graus
centígrados.
Esta elevação traria graves conseqüências para
todo o planeta, que vão desde grandes inundações,
secas, epidemias, catástrofes climáticas e elevação
do nível do mar. Várias ilhas podem desaparecer.
Reservas de água também podem ser comprometidas, já
que a elevação do nível do mar salinizaria percursos
de água doce.
O Brasil também seria prejudicado pela elevação da
temperatura. Doenças como malária e dengue podem se
alastrar para o Sul do país, onde não chegam hoje em
função das temperaturas mais baixas. Ao Norte, o calor
pode tornar-se insuportável para as populações,
causando mortes. Animais e espécies vegetais também
poderão sofrer.
O aquecimento do planeta é resultado da excessiva
queima de combustíveis fósseis (carvão mineral,
petróleo), que libera dióxido de carbono e outros gases
que se acumulam na atmosfera e formam um escudo que
impede a dispersão dos raios solares. É o chamado
efeito estufa.
Para barrar este processo, há várias maneiras. Uma
delas é trocar a queima de carvão ou petróleo em
usinas, fábricas e no transporte por outras alternativas
energéticas mais limpas, como a solar ou a dos ventos
(eólica). Plantar florestas também contribui para
combater o efeito estufa, já que as árvores retiram
dióxido de carbono do ar por meio da fotossíntese.
PRINCÍPIOS
O objetivo do encontro em Buenos Aires era detalhar,
dar prazos e regulamentar princípios que já haviam sido
aceitos pela maioria dos países nos esforços contra o
aquecimento da Terra. Mas as discussões não avançaram
neste sentido. Ao contrário, deram um passo atrás e
voltou-se a assuntos que já se imaginava superados.
A conferência foi mesmo um fracasso. Não
se conseguiu nada. Foram apenas discursos,
resumiu Horácio Brum, da organização ambientalista
Greenpeace.
A delegação brasileira, chefiada pelo ministro de
Ciência e Tecnologia, José Israel Vargas, também
juntou decepções. Vargas insistiu na necessidade de
implementação dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo
que, segundo a proposta brasileira, incluem a criação
de um fundo para financiar, nos países em
desenvolvimento, projetos que ajudem na luta contra o
efeito estufa. Mas nada progrediu neste campo.
Tecnicamente, o único avanço foi o entendimento de
que é preciso estudar melhor a influência dos bosques
na retirada de carbono da atmosfera. Os cientistas da ONU
querem definir exatamente quanto de dióxido de carbono
um bosque é capaz de sugar do ar, para propor políticas
mais corretas de faxina da atmosfera.
Em termos políticos, destaca-se a assinatura, pelos
Estados Unidos, do Protocolo de Kyoto, o documento
aprovado no Japão durante o encontro anterior ao de
Buenos Aires. Além de assinar, os Estados Unidos
e os demais países desenvolvidos precisam
ratificar o protocolo, o que significa impor prazos,
regras, limites e outros detalhes para se atingir o
objetivo de diminuir as emissões de gases que provocam o
efeito estufa.
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