CIRCO

Lambari: um astro dos picadeiros

IVAN BELÉM
Especial para o DIÁRIO

Sobre a origem do circo li certa vez, não me recordo onde, que tudo começou na Idade da Pedra, quando um primata arrastou a companheira pelos cabelos e a levou para a caverna. Além de não ser nada poética, essa história pareceu-me sem fundamento. Recentemente conheci outra versão que passo a tomar como verdadeira, visto que pertinente. Vejamos: ela se dá também na Idade da Pedra, única semelhança entre ambas. O dia em que o homem descobriu o fogo, os que passavam por perto naquele instante pararam para assistir. Aí aplaudiram. Era a platéia. Nascia, assim, o circo, cuja data será comemorada amanhã.

Essa versão não aprendi nos livros. Me foi contada por um artista circense das antigas: Jesus Luiz Penha, o popular Lambari, proprietário do "Circo Miami 2000", atualmente instalado no bairro Verdão, em Cuiabá. Esta é a terceira ou quarta vez que vem à cidade com sua trupe. A primeira foi na época do "Campo d’Ourique", onde hoje encontra-se a Assembléia Legislativa. Há priscas eras, portanto.

Prestes a completar 70 anos, 62 dos quais dedicados ao circo, Lambari, que nasceu em São José do Rio Preto, pisou pela primeira vez em um picadeiro aos 08 anos de idade, levado pelas mãos de José Bartolo, um anão que havia instalado sua lona na pequena Tanabi, interior de São Paulo.

José Bartolo se encantou com os meninos que cantavam em uma minúscula emissora de rádio da cidade. Eram os irmãos que formavam a dupla sertaneja "Lambari e Laranjinha". O primeiro no cavaquinho e o segundo no violão. Bartolo era um sujeito que euxergava longe, um caça-talentos. Por isso não pensou duas vezes e foi conversar com o sêo Joaquim Luiz Afonso e dona Maria Bonifácio Pena, pais da dupla. Com a devida permissão, Lambari e Laranjinha ficaram dois meses em cartaz. Sucesso absoluto. O circo se mudou para um município vizinho e a dupla seguia junto. A medida que o circo se distanciava, os meninos acompanhavam-no. Já estavam com a "serragem nas veias", como se diz no linguajar circense.

Transformaram-se em homens de circo. E também do rádio. Gravaram inúmeros discos, frequentaram os mais importantes programas da época, ao lado de feras como Cascatiha e Inhana, Zé Carneiro e Carreirinha, Dino Franco e Maraí e Tonico e Tinoco.

Com o falecimento de Laranjinha, há 25 anos, Lambari seguiu carreira solo, fazendo comédias inspirado em Dia Júnior e Mazzaroppi.

Nos anos 50 comprou o próprio circo, feito artesanalmente por ele próprio. E ainda se lembra de ter ido às Lojas Riachuelo comprar os tecidos. Costurou e fez as cadeiras. O circo era modesto. A orquestra era somente um sanfoneiro. Apresentava-se apenas em corruptelas. Mas tinha um artista que chamava a atenção não só da platéia, mas também dos empresários do setor. Esse artista era o Lambari, que acabou fechando contrato com os maiores circos teatro do país, onde ocupou posição de destaque. Era um dos galãs mais bem pagos da sua época. Artista completo, cantava e representava. Atuou em clássicos, como: "Deus lhe Pague", "O Ébrio", "Quo Vadis", "O Morro dos Ventos Uivantes", Coração Materno".

Para chegar a essa posição privilegiada, Lambari se esforçou muito. Encarou bravamente a disciplina espartana comum ao circo daqueles tempos, que compreendia, entre outras coisas, dois ensaios diários de espetáculos com até 10 atos.

Há que se considerar ainda os rituais, que deveriam ser erguidos religiosamente. Por exemplo, não se entrava no circo sem camisa, mesmo durante os ensaios. Quando a casa estava arrumada para receber o público não se atravessava o picadeiro. Pode parecer bobagem para alguns. Não para Lambari, para quem "o circo é um altar". É por essas e outras que lamenta: "Muitos dos artistas de hoje não são circenses. Vivem no circo".

Devido ao seu comportamento, nunca se sentiu discriminado. Onde passa constrói sólidas amizades. Em Cuiabá tem amigos como Hélio Machado, técnico de futebol, cuja família Lambari considera como sua. Em Jataí, Goiás, foi homenageado com uma praça que leva o seu nome.

Aos 62 anos de circo, diz não ter feito fortuna, pois sempre se preocupou não em ganhar dinheiro, mas em fazer bons espetáculos. Não tem casa própria, apenas "alguns terrenos". Seu lar é o "Circo Miami 2000", com seus artistas e bichos e prima pela tradição e ingenuidade de seus números. A platéia fica fascinada com o urso tomando coca-cola, sente medo dos leões, se empolga com as bailarinas, rói as unhas de tensão com os números aéreos, se impressiona com os mágicos, apesar do Mister M tentar desmistificá-los. Essa é a orientação de Lambari. Embora com a saúde debilitada, faz questão de acompanhar tudo de perto. Na sua opinião o circo é uma diversão essencialmente familiar. "No circo ninguém pode se sentir agredido".

Casado duas vezes, tem 4 filhos e cinco netos. São eles que, juntamente com os sobrinhos e os genros, o ajudam a administrar o "Miami 2000", uma casa de espetáculo imponente, aberta diariamente, com tudo funcionando em seu devido lugar. Certamente não é fácil movimentar uma estrutura tão grande e completa. Se quisesse poderia perfeitamente descansar, desfrutar os louros das conquistas. Mas ele nem pensa nisso. Quer continuar contribuindo para o maior espetáculo da terra. Afinal, longe do circo Lambari é um peixe fora d’água.


Último filme de Kubrick será lançado em julho

Marcelo Diego
Da Agência Folha – Nova York

O estúdio Warner Bros. anunciou que "Eyes Wide Shut'', o último filme do diretor Stanley Kubrick, morto no último domingo, será finalizado a tempo para manutenção da data de lançamento nos Estados Unidos: 16 de julho.

Segundo a assessoria do estúdio, o filme já está praticamente pronto, faltando poucas cenas para serem editadas. Uma versão quase completa da fita foi exibida na semana passada, na presença de dois diretores-executivos da Warner, de Stanley Kubrick e dos atores (e protagonistas do filme) Tom Cruise e Nicole Kidman, em Londres.

A fita começou a ser rodada em novembro de 96 e demorou 16 meses para ser gravada -várias cenas tiveram de ser repetidas à exaustão. Após a conclusão da filmagem, o trabalho foi para a edição, onde Kubrick também assumiu o comando.

Segundo a Warner, não há ainda definição de quem vai finalizar o trabalho de pós-produção do filme. A mesma equipe que estava trabalhando com Kubrick em Londres deve ser a encarregada.

Quase nada se sabe do filme até o momento. Um pouco mais poderá ser descoberto a partir de hoje, quando está prevista a exibição do primeiro trailer da fita. A mostra acontecerá na Showest, a maior feira de filmes profissionais do planeta, em Las Vegas.

Em algumas semanas, as primeiras imagens do filme deverão chegar aos cinemas norte-americanos. O vice-presidente da Warner, Terry Semel, disse que a manutenção do calendário seria uma "última homenagem dos estúdios'' ao trabalho de Kubrick.

Semel e o diretor eram amigos particulares. Eles teriam conversado no sábado à noite, por telefone. Semel disse que Kubrick estava entusiasmado com o lançamento do filme e que deram várias risadas. "Falamos sobre tudo, ele estava muito excitado.''

Los Angeles deve abrigar uma mostra de cinema com os trabalhos de Kubrick até o fim do mês. Junto com os filmes do próprio diretor, podem ser exibidos também os trabalhos mais apreciados por ele. Durante a comemoração dos 75 anos da Warner, Semel o convidou para fazer uma lista de seus filmes preferidos, para serem mostrados numa sessão especial. Entendendo que o convite se estendia a todos os filmes (não somente os do estúdio), Kubrick entregou a lista a Semel.

Agências internacionais de notícias dizem que o diretor receberá uma homenagem na entrega do Oscar (próximo dia 21). Ele ganhou a estatueta apenas uma vez, pelos efeitos especiais de "2001''.

Reação

A morte de Kubrick continuou repercutindo nos EUA. O diretor Steven Spielberg saiu em defesa do amigo, acusado de ser meticuloso demais e por vezes recluso. "Ele era incompreendido e dito como solitário porque não gostava de muita pressão. Ele, na verdade, mantinha muito mais comunicação do que várias pessoas que conheço'', disse Spielberg.

"Ele era mais do que generoso quando amava o filme de alguém. Ele costumava pegar o telefone e ligar para um diretor estranho somente para dizer quanto o filme havia lhe tocado'', afirmou.


Na obra de Kubrick, o homem é anomalia da natureza

José Geraldo Couto
Da Agência Folha – São Paulo

Um grande entre os grandes -assim era Stanley Kubrick. Uma prova de seu imenso talento -senão de sua genialidade- era a admiração que despertava entre os colegas de ofício.

Para Roman Polanski, Kubrick era simplesmente o maior cineasta em atividade. Martin Scorsese invejava sua criatividade no campo da técnica e a soberania com que explorava "o território da complexidade da psique humana''.

Entre os grandes do cinema contemporâneo, só Godard o desprezava, talvez porque a arte de Kubrick, por mais inteligente e sutil que seja sua construção, aponte sempre para o espetáculo, o prazer da imagem, o envolvimento sensorial da platéia. Algo imperdoável aos olhos calvinistas de Godard.

Vista em conjunto, a filmografia de Kubrick dá a impressão enganosa de um caprichoso ecletismo.

Do drama de guerra ("Glória Feita de Sangue'', "Nascido para Matar'') ao thriller de horror ("O Iluminado''), da ficção futurista ("2001'', "Laranja Mecânica'') à sátira antimilitarista ("Doutor Fantástico''), do policial ("O Grande Golpe'') ao épico histórico ("Spartacus''), praticamente não houve gênero que ele não explorasse, parodiasse ou reinventasse.

Por trás dessa atordoante diversidade, entretanto, é possível encontrar uma inquietação comum: o lugar do homem na ordem (ou desordem) do universo.

Uma imagem poderosa dessa busca estético-filosófica é a célebre cena de "2001'' em que um primata, aparentemente sob o influxo de um misterioso monolito, transforma um osso numa arma.

Nesse gesto fundante, em que o animal torna-se homem e inventa ao mesmo tempo a tecnologia e a destruição, está embutida toda a visão pessimista e irônica de Kubrick sobre a espécie humana.

Na obra do cineasta, ainda que aqui e ali os indivíduos sejam fugazmente banhados por lampejos de elevação espiritual (como no comovente final de "Glória Feita de Sangue''), o que prevalece é a imagem do homem como uma anomalia, um parafuso solto na engrenagem do universo.

O pedófilo Humbert Humbert de "Lolita'', o delinquente Alex de "Laranja Mecânica'', o sargento fascista de "Nascido para Matar'', o escritor psicopata de "O Iluminado'', o general genocida de "Doutor Fantástico'' -são todos filhos do macaco de "2001''.

O personagem kubrickiano por excelência é um ser em desequilíbrio, pronto para matar e destruir.

Com uma visão assim sombria, alheia aos finais felizes e às catarses confortadoras do cinema industrial, Kubrick acabou por tornar-se ele próprio uma figura anômala e incômoda em Hollywood.

Seu auto-exílio na Inglaterra, a partir de 1960, foi uma consequência lógica desse desajuste.

Ironicamente, Kubrick enriqueceria a indústria do cinema com suas célebres inovações técnicas. Em "O Iluminado'', por exemplo, foi o primeiro cineasta a utilizar a "steadycam'' -câmera com contrapeso que, amarrada ao corpo do operador, permite um movimento ágil e sem oscilações.

Desenvolveu lentes especiais para poder filmar só com luz natural em "Barry Lyndon''. Revolucionou a ficção científica com os efeitos baratos de "2001''.

Foi também um experimentador das infinitas possibilidades de diálogo entre som e imagem.

Destacou-se particularmente no uso inventivo da música. A dança dos astros e naves espaciais ao som de Strauss em "2001'' tornou-se uma das marcas dos anos 60.

Em "Lolita'', ousou utilizar um tema infantilóide e repetitivo de Nelson Riddle como contraponto musical da obsessão sexual do protagonista. Em "Laranja Mecânica'', fez de "Singin' in the Rain'' a trilha inesperada do balé macabro de Alex e seus comparsas.

Misantropo, perfeccionista, orgulhoso de sua independência, Kubrick filmou cada vez menos para manter-se fiel a si mesmo.

De seu canto, deu ao cinema meia-dúzia de obras-primas e contribuiu para alargar o espectro de suas possibilidades de expressão. Se o papel do artista é enriquecer nossa sensibilidade, Stanley Kubrick pode partir em paz.


Kubrick revolucionou a ficção com ‘2001’

Claudio Cordeiro
Da Agência Folha – São Paulo

O cineasta Stanley Kubrick revolucionou a ficção científica em 1968 com o clássico "2001- Uma Odisséia no Espaço'', que definiu como uma "experiência não-verbal''.

"2001'' mostra uma viagem espacial com destino a Júpiter, onde o computador "enlouquece'', passa a controlar a missão e a matar tripulantes.

Além de "2001'', dirigiu também "Laranja Mecânica'' (1971), filme pelo qual foi acusado de estimular a violência urbana.

A mais polêmica obra de sua filmografia foi proibida de ser exibida na Inglaterra pelo próprio diretor, depois que grupos de skinheads, vestidos como o violento protagonista Alex, começaram a espancar paquistaneses.

Kubrick nasceu no Bronx (Nova York), em 26 de julho 1928, primogênito de um casal judeu. Considerado péssimo aluno, não gostava nem de frequentar as aulas.

A paixão pelo cinema foi precoce. Passou a adolescência assistindo oito ou mais filmes por semana.

Aos 13 anos ganhou a primeira câmera de seu pai. Quatro anos mais tarde, começou a trabalhar como fotógrafo para a revista "Look'', onde ficou até os 21 anos.

Estreou nas telas em 1951, com o documentário curto "Day of Fight'', inspirado em uma série de fotos do pugilista Walter Cartier publicada pela "Look''.

No mesmo ano rodaria outro documentário curto, "Flying Padre'', e dois anos depois o primeiro curta, "The Seafarers''.

A estréia em longa-metragem aconteceu com "Fear and Desire'', em 1953, inédito no Brasil. Depois filmou "A Morte Passou por Perto" (1955).

Ambos eram desprezados pelo diretor, que considera sua estréia "O Grande Golpe'' (1956).

Depois vieram "Glória Feita de Sangue'' (1957), proibido em vários países europeus, "Spartacus'' (1960), "Lolita'' (1962) e "Doutor Fantástico'' (1964).

Em 1968, fez a obra-prima da ficção científica "2001'' e na sequência outro clássico, "Laranja Mecânica'' (1971).

"Barry Lyndon'' (1975) antecede "O Iluminado'' (1980), mais um clássico do diretor.

O perfeccionista Kubrick ainda realizou um filme sobre a Guerra do Vietnã, "Nascido para Matar'' (1987).

Sua última obra, "Eyes Wide Shut'' já é polêmica mesmo antes da estréia, marcada para julho nos Estados Unidos.

O filme conta a história de um casal de psiquiatras (Tom Cruise e Nicole Kidman) que se envolvem com seus clientes. Há cenas de orgia, homossexualismo e uso de drogas pesadas.