OSCAR

"Central do Brasil" e Fernanda Montenegro são indicados ao Oscar

Mariane Morisawa
Da Agência Folha – São Paulo

O anúncio dos indicados ao Oscar ontem, às 11h38 (horário de Brasília) em Los Angeles, trouxe uma surpresa aos brasileiros: a indicação de Fernanda Montenegro como melhor atriz por sua atuação em "Central do Brasil'', que também foi indicado a melhor filme estrangeiro.

"Não esperava a indicação e acho que já é uma grande vitória'', disse à reportagem a atriz Fernanda Montenegro, em Nova York. "Nunca criamos expectativas'', disse o diretor Walter Salles.

Já "A Vida É Bela'' alcançou feito ainda mais raro: emplacou nas categorias melhor filme e melhor filme estrangeiro. E também nas de ator e diretor, para Roberto Benigni, roteiro original, montagem e trilha sonora para drama. Portanto, o longa italiano continua no caminho do filme de Walter Salles e é cada vez mais forte candidato à estatueta de estrangeiro.

Não é a primeira vez que um longa-metragem consegue indicações nas categorias filme e filme estrangeiro. "Z'', de Costa-Gavras, concorreu aos dois prêmios em 1969. Levou o de produção de língua não-inglesa.

"Central do Brasil'' e "A Vida É Bela'' disputam o Oscar de filme estrangeiro com o iraniano "Crianças do Paraíso'', o argentino "Tango'' e o espanhol "O Avô''.

A brasileira Fernanda Montenegro terá como concorrentes a australiana Cate Blanchett ("Elizabeth''), a britânica Emily Watson ("Hilary e Jackie'') e as americanas Gwyneth Paltrow ("Shakespeare Apaixonado'') e Meryl Streep ("Um Amor Verdadeiro'').

"The Truman Show'', apontado como um dos favoritos, ficou de fora da categoria principal, a de melhor filme. Ao lado de "A Vida É Bela'' estão "O Resgate do Soldado Ryan'', "Shakespeare Apaixonado'', "Além da Linha Vermelha'' e "Elizabeth''.

Os indicados a melhor filme podem ser colocados em dois grupos: os da Segunda Guerra ("Ryan'', "Além da Linha Vermelha'' e "A Vida É Bela'') e os do período elisabetano ("Elizabeth'' e "Shakespeare Apaixonado'').

Dos concorrentes a melhor filme, apenas "Elizabeth'' não disputa também o Oscar de melhor direção. O cineasta indiano Shekhar Kapur foi substituído na lista por Peter Weir, de "Truman Show''.

"Shakespeare Apaixonado'' é o campeão de indicações, 13, quase igualando o recorde de "Titanic'' e "A Malvada'' (14). Além de melhor filme, a comédia concorre a diretor, atriz, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, roteiro original, trilha sonora de comédia, direção de arte, fotografia, figurino, montagem, maquiagem e som.

Em seguida vêm "O Resgate do Soldado Ryan'', com 11 -prejudicado por ter recebido apenas uma indicação a seus atores, entre as quatro possíveis-, "A Vida É Bela'', "Além da Linha Vermelha'' e "Elizabeth'', empatados com sete.

Entre os atores a maior surpresa é Edward Norton, que não vinha aparecendo nas listas de favoritos, apesar de sua elogiada atuação em "American History X''. Como companhia ele terá Benigni, Tom Hanks ("Ryan''), que pode ganhar seu terceiro Oscar, Ian McKellen ("Gods and Monsters'') e Nick Nolte ("Temporada de Caça'').

A cerimônia de entrega do Oscar se realizará no domingo, 21 de março, no Dorothy Chandler Pavilion, em Los Angeles, com transmissão no Brasil pela Globo (após o "Fantástico'', com tradução simultânea) e pela HBO (a partir das 22h30, com programas especiais começando uma hora antes).

"A Vida É Bela'' está em cartaz no Brasil -levou 63.900 espectadores no fim-de-semana passado, de estréia, com 42 cópias, contra 30 mil de "Central'', que reestreou no mesmo dia em 47 salas.

"Ryan'' deve voltar aos cinemas do país no início de março, período em que estréiam "Shakespeare Apaixonado'' e "Elizabeth''. "Além da Linha Vermelha'' chega no dia 26 de fevereiro.


País concorre pela 3a vez nesta década

Da Agência Folha – São Paulo

Não é a primeira vez que o Brasil vai ao Oscar. Tudo começou -de forma bem postiça- em 1959, com "Orfeu do Carnaval'', de Marcel Camus, baseado no musical de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, que levou, para a França, o Oscar de produção estrangeira.

Em 1963, porém, o país entrou com um representante genuinamente nacional na disputa: "O Pagador de Promessas'', de Anselmo Duarte, premiado em Cannes.

Bem mais tarde, em 1986, o Brasil teve novamente de se contentar em torcer por um filme mais estrangeiro que nacional. "O Beijo da Mulher Aranha'' tinha um diretor argentino radicado no Brasil (Hector Babenco), elenco misto e era falado em inglês. William Hurt saiu com a estatueta de melhor ator, o que foi comemorado como um Oscar brasileiro -não era.

Depois disso veio a era Collor, o fim da Embrafilme e a paralisação do cinema brasileiro. Mas, em meados da década de 90, a produção nacional foi retomada, o público voltou às salas e, numa mistura de lobby bem-feito e filmes com cara da Academia, o Brasil emplacou três indicações na categoria produção estrangeira.

Em 96, foi "O Quatrilho'', de Fábio Barreto. Em 98, outro Barreto, Bruno, conseguiu uma indicação por "O Que É Isso, Companheiro?''. Em ambos, os brasileiros saíram derrotados por produções holandesas: o primeiro por "A Excêntrica Família de Antônia'' e o segundo por "Caráter''.

Sony

Pode-se dizer que o lobby para levar "Central do Brasil'' ao Oscar começou logo na escolha do produtor, Arthur Cohn, com cinco estatuetas na estante.

O roteiro foi premiado pelo Sundance Institute, o que praticamente garantiu sua exibição no prestigiado festival, no ano passado.

Por causa de "Central'', o Festival de Berlim aceitou mudar suas regras e o longa foi exibido em Sundance primeiro e na Alemanha depois. Saiu de lá com o Urso de Ouro de melhor filme e com o Urso de Prata de melhor atriz.

A Sony Pictures Classics, distribuidora do filme nos EUA, armou uma estratégia para que a produção ultrapassasse a barreira das legendas. Publicou no semanário "Hollywood Reporter'' uma carta-aberta aos membros da Academia convidando-os a assistir ao filme e a considerá-lo também para os prêmios principais.

No dia 20 de novembro, o filme estreou em Nova York, para depois ir a Los Angeles e a cerca de 30 outras cidades. As estréias foram acompanhadas por uma turnê do diretor e dos protagonistas Fernanda Montenegro e Vinicius de Oliveira pelo país. A produção ganhou elogios de pessoas-chave da indústria, como Gregory Peck.

A estratégia rendeu prêmios da Associação de Críticos de Los Angeles, do National Board of Review e do Globo de Ouro, no qual Fernanda Montenegro foi a única a fazer os agradecimentos -tentativa de lembrá-la para o Oscar de melhor atriz.


Conheça os adversários de "Central"

Da Agência Folha - São Paulo

A Vida É Bela (Itália) - Tida como a principal concorrente de "Central Station'', a produção italiana, dirigida e estrelada por Roberto Benigni, é uma comédia dramática, em que as duas categorias são separadas por uma linha quase invisível.

Ambientada na Itália da Segunda Guerra, a trama gira em torno do atrapalhado Guido (Benigni). Como já vem fazendo esporadicamente desde "Daunbailó'', o ator passa boa parte do filme tirando "gags'' dos bolsos do paletó. Mas, dessa vez, o cenário é um campo de concentração nazista.

É para lá que o livreiro judeu, seu tio, sua mulher e seu filho Giosué são levados. O objetivo central de Guido passa, então, a ser o de fazer com que o garoto de 5 anos acredite que todo o horror que está vivendo é apenas uma gincana.

Tango (Argentina) - Carlos Saura, o diretor espanhol de "Cria Cuervos'' e "Bodas de Sangue'', está mais uma vez por trás de um filme sobre dança. Saura comanda uma produção argentina em que, depois de perder a mulher, um personagem vivido por Miguel Angel Sola resolve fazer um documentário sobre o tango.

O produtor desse filme sugere que sua amante participe do documentário. O cineasta vivido por Sola acaba tendo um caso com ela. Foi premiado como melhor fotografia em Cannes 98.

El Abuelo (Espanha) - "O Avô'', de Jose Luis Garci (ganhador do Oscar de filme estrangeiro de 1983, com "Começar de Novo''), trata de um aristocrata desonrado que está, no século 19, em busca de sua dignidade perdida. Abocanhou o principal prêmio espanhol, o Goya 98, na categoria melhor ator (Fernando Fernan-Gomez).

Bacheha-ye Aseman (Irã) -"Crianças no Paraíso'', de Majid Majidi, vencedor de três prêmios no festival de Montreal, tem no centro de sua trama o esforço de um garoto de 9 anos em ajudar a irmã caçula a esconder dos pais o fato de ter perdido um par de tênis.


OSCAR 2

"Foi um momento de alegria", diz Fernanda

Marcelo Diego
Da Agência Folha – Nova York

"Não acredito ainda. Parece que uma outra pessoa está passando por tudo isso, não eu''. Essa foi a reação da atriz Fernanda Montenegro ao saber de sua indicação ao Oscar de melhor atriz pela sua interpretação em "Central do Brasil''.

Montenegro assistiu ao anúncio das indicações pela TV, em um hotel de Nova York, ao lado do marido, Fernando Torres, e do diretor do filme, Walter Salles Jr.

"Foi um momento de grande alegria'', disse Montenegro. Ela já recebeu o urso de prata do Festival de Berlim e o prêmio do National Board of Review, anteontem, pelo seu trabalho. Também foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz. Mas diz que foi surpreendida pela indicação ao Oscar.

"É muito difícil fazer parte desta categoria. Você tem que passar pelo crivo de uma cultura estética de filmagem, sempre tão bonita, sempre tão protegida, de tanta qualidade. É uma linguagem diferente, que às vezes não é percebida em um filme estrangeiro. Além disso, há o trabalho das outras atrizes, grandes interpretações também. Realmente eu não esperava a indicação e acho que já é uma grande vitória'', afirmou.

Dizendo ser uma "rata de cinema'' (seu primeiro papel na tela grande aconteceu em 1964, com "A Falecida''), Montenegro acha que "Central do Brasil'' pode ganhar mais um empurrão tão somente com a indicação ao Oscar. "Todo o mundo vai querer ver o trabalho'', afirmou.

O diretor Walter Salles disse que a indicação ao Oscar é prova da força do cinema brasileiro. "É muito difícil para um país ter três filmes indicados ao Oscar em menos de quatro anos'', afirmou, referindo-se às indicações de "O Quatrilho'' (96) e "O que é isso, companheiro?'' (98).

"Nunca criamos expectativas a respeito do filme, para não haver decepções totais. Digo que estou muito alegre para a indicação, mas vou manter a mesma postura de serenidade até a entrega dos prêmios'', disse.

Salles não quis falar sobre o filme italiano "A Vida é Bela'', tido como o principal oponente da produção brasileira. "Não seria elegante. O território do Oscar, para mim, é uma terra estrangeira. Eu não sei como funciona'', afirmou.

"Um dos grandes motivos de satisfação hoje é que o mundo poderá desfrutar do talento excepcional da Fernanda Montenegro'', disse, sobre a indicação da atriz à estatueta.

Salles volta hoje ao Brasil. Depois do Carnaval, irá a Vitória da Conquista agradecer o apoio da cidade à realização de "Central do Brasil''.


Recorde de Indicações de "A Vida" pode favorecer "Central"

Por Amir Labaki
Da Agência Folha – Nova York

A marca de sete indicações ao Oscar da tragicomédia italiana "A Vida É Bela'', de Roberto Benigni, estabeleceu um novo recorde para um filme de língua não-inglesa e pode favorecer um prêmio para "Central do Brasil, de Walter Salles.

"A Vida'' é também apenas a segunda produção na história a ser indicada simultaneamente para as categorias de melhor filme e melhor filme estrangeiro ("Z'', de Costa-Gavras, de 69, que ganhou como melhor filme estrangeiro).

O filme de Benigni não é o favorito para o Oscar principal. Com 13 indicações e ascendente campanha nos EUA, "Shakespeare Apaixonado'' sai na frente. É bom lembrar que jamais uma produção em língua não-inglesa levou o Oscar de melhor filme -e "A Vida'' é apenas o sexto título a obter uma indicação desse tipo.

Benigni não sai da festa com as mãos abanando. Além das disputas acima, concorre aos prêmios de ator e diretor. O britânico Ian MacKellan ("Gods and Monsters'') é seu principal rival para o primeiro.

Tudo somado, "A Vida'' é o favorito na categoria de melhor filme estrangeiro, mas a multiplicação de prêmios possíveis diminui a responsabilidade específica dessa disputa. Pode perder aqui e ganhar lá.

É essa a grande chance de "Central''. A dupla indicação de ontem já foi uma enorme demonstração de força. De todos os quase 30 prêmios que já recebeu, apenas o também duplo triunfo em Berlim 98 chega perto em prestígio.

"Central'' corre por fora com as qualidades de vencedor e sem o peso do favoritismo. A histórica indicação de Fernanda Montenegro soma vários pontos. A possibilidade do primeiro Oscar para uma cinematografia de porte como a brasileira conta outros tantos. O currículo do produtor Arthur Cohn, premiado três vezes pela Academia, já começou a demonstrar seu peso.

Ao indicar Fernanda Montenegro, a Academia apenas faz justiça a uma das maiores atrizes do planeta, ponto. Apenas nove atrizes que desempenharam em língua não-inglesa a precederam na disputa da categoria -intérpretes da estatura de Liv Ullmann, Catherine Deneuve e Sophia Loren. Dessas, só Loren ganhou ("Duas Mulheres'', 1961).

Das concorrentes, apenas Meryl Streep, com 11 indicações e dois Oscars, joga na mesma categoria de Montenegro. Dessa vez o filme ("Um Amor Verdadeiro'') não a ajuda. O contrário acontece com Gwyneth Paltrow, escorada pelo triunfo no Globo de Ouro.

Depois da exagerada concentração de prêmios em torno de "Titanic'' (11) em 98, a pulverização deve ser a tônica do ano.