| CONFLITO AGRÁRIO Invasões e saques destroem 12 fazendas entre MT
e Bolívia
Pistoleiros distribuem bilhetes de
ameaças, saqueiam casas e roubam equipamentos rurais na
região de Cáceres
JOANICE PIERINI
Enviada Especial a Cáceres
Doze fazendas da região de Cáceres 220
quilômetros a oeste de Cuiabá - foram invadidas e
saqueadas nos últimos dois anos por bandos de
pistoleiros que incendeiam sedes e galpões e roubam
gado, equipamentos e utensílios rurais. Em 1995 e 1996
os saques e roubos estiveram concentrados na região de
Pontes e Lacerda, Vila Bela da Santíssima Trindade e
Comodoro, mais próximos à fronteira entre o Brasil e a
Bolívia. Os números, datas e localização de cada
área indicam que a violência está chegando cada vez
mais perto de grandes centros, e ganhando requintes de
aprimoramento.
As primeiras fazendas da região de Cáceres,
invadidas e saqueadas nos últimos dois anos, estão se
tornando hoje glebas de pequenos produtores que
investiram tudo o que tinham em terras das quais nunca
serão proprietários definitivos. Depois que as fazendas
são saqueadas, a madeira nobre mogno e aroeira
é extraída em larga escala. A área já limpa é
trocada por "gambirras": com seis vacas
leiteiras é possível "comprar" até 60
hectares. Além da terra, os posseiros recebem dos
saqueadores a garantia de apoio à permanência nas
áreas uma espécie de segurança informal.
Nos municípios de Vila Bela da Santíssima Trindade,
Pontes e Lacerda e Comodoro, segundo o delegado regional
José Rosa, o processo de loteamento ilegal já está
mais avançado. Proprietários de sete fazendas
desistiram das terras e quem até então era posseiro já
está se tornando, aos poucos, empresários com lucros
vindos de uma terra da qual não possuem documentação.
CRIME ORGANIZADO
Fazendeiros e policiais que preferem não ser
identificados acreditam que a ação dos saqueadores não
se limita a assaltos de produtos que são vendidos na
Bolívia e venda de terras. A tese de que por trás dos
grileiros está o crime organizado é defendida por nove
entre dez moradores da fronteira. Os posseiros, que
compraram terras com preço muito abaixo do mercado,
seriam como núcleos de apoio a traficantes e ladrões de
carretas. A localização das terras saqueadas
100% delas às margens da BR-174, servidas por
eletrificação rural seria um indicativo de que o
"C.O" quer ampliar sua atuação na fronteira
de Mato Grosso.
Na semana passada os presidentes dos sindicatos rurais
da região oeste do Estado estiveram reunidos com o
secretário de Segurança Pública, Hilário Mozer, o
comandante-geral da Polícia Militar, Coronel Renato
Martins, e o superindente-adjunto da Polícia Federal,
Jorge Luiz Bezerra, e durante mais de três horas o
assunto foi discutido. Os fazendeiros levaram ao comando
um projeto de Polícia Rural, elaborado pelo 6º
Batalhão de Cáceres, que foi rejeitado pelo governo.
Segundo Mozer, até o final desse ano uma operação
"pente fino" deve ser desenvolvida na região,
antes do início das obras do Centro de Operações
Integrado do Fronteira (Ciof).
Prejuízos
de R$ 200 mil na Pau-a-Pique
Enviada Especial a
Cáceres
É na fazenda Antiga Tapera Pau-a-Pique, de 2000
hectares, que está um dos maiores prejuízos financeiros
causados pelos saqueadores. Na propriedade, que possuía
um garimpo para extração de ouro, foram levados todos
os equipamentos da mineração, de eletrificação rural,
uma borracharia, oficina mecânica, serraria, além de
700 cabeças de gado, utensílios e movéis da sede.
"São mais de R$ 200 mil em prejuízo",
contabiliza o proprietário Oscar Spíndola, que desde
fevereiro quando a fazenda foi saqueada
não voltava ao local.
A Antiga Tapera Pau-a-Pique fazia parte de um espólio
de 6000 hectares da família Spíndola. "Meu pai
veio do Rio de Janeiro em 1949, recém-formado em
Odontologia, para trabalhar no Exército, no 2O Batalhão
de Fronteira", lembra Oscar. Dos projetos de
colonização do governo estadual, o dentista comprou os
6.000 hectares entre Porto Esperidião e Pontes e
Lacerda, que com sua morte foram divididos entre os três
filhos.
Com o saque, em fevereiro desse ano, Oscar Spíndola
entrou com um processo de reintegração de posse da qual
não tem nenhum parecer até hoje. "Nove meses
depois a perícia do roubo ainda não foi feita",
reclama afirmando que há má vontade da polícia nas
investigações. "Sei quem comprou os equipamentos
que foram roubados: através deles seria fácil chegar a
quem comandou as ações", indica. Indignado,
Spíndola já escreveu cartas até para o presidente da
República, respondidas com afirmações vazias. Ao
contrário de outras fazendas, a Tapera Pau-a-Pique ainda
não começou a ser loteada.(JP)
Fazenda
Pedra Preta na mira dos saqueadores
Enviada Especial à
Cáceres
José Rigoni, 76 anos, praticamente cego dos dois
olhos, só não chora por sua fazenda porque a cegueira
não lhe dá noção exata dos estragos feitos pelos
saqueadores, em dois ataques, no final de junho desse
ano. A idade avançada não lhe rouba lucidez e não o
impede de permanecer na fazenda, sozinho, assim como
aconteceu no último saque, numa manhã de domingo.
A Fazenda Pedra Preta, com 2.700 hectares, possui 900
cabeças de gado, e está localizada entre as fazendas
Pau-a-Pique e Alegrete I e II, todas já invadidas e
saqueadas. Os primeiros bilhetes anunciando a entrada dos
saqueadores começaram a chegar em abril. "Foram
dois bilhetes, um deles deixado no pára-brisa do
carro", lembra Rigoni. Numa manhã, enquanto ele
tocava o gado a cerca de dois quilômetros da sede, foi
surpreendido pelo barulho da explosão do bujão de gás,
e pelo fogo que vinha da casa.
"Quando cheguei ainda consegui apagar o
fogo", lembra. O esforço, no entanto, foi à toa.
Três dias depois, num domingo pela manhã, Rigoni foi
acordado com o barulho do fogo, que já entrava casa a
dentro. O incêndio chegou a latas de óleo diesel que
estavam num galpão, e a propagação foi inevitável.
Mostrando uma figueira de mais de 6 metros de altura,
hoje queimada, ele narra os impactos do estrago.
Apesar da tensão, José Rigoni afirma que não vai
deixar a terra. "Isso aqui é tudo o que
tenho". Com orgulho, ele mostra fotos que estavam
dentro da casa e que ele conseguiu livrar do fogo. Ele
exibe como se fossem lembranças da casa, antes do
incêndio, mas não sabe que na verdade são retratos
antigos de parentes e amigos.(JP)
Posseiros
têm esperanças
Enviada Especial à
Cáceres
Na Fazenda Indiaporã, invadida e saqueada em
fevereiro desse ano, os conflitos de terra vão além da
ação dos saqueadores. A propriedade estava sendo
negociada com o Incra, mas o processo está suspenso
desde o mês passado por uma decisão do procurador
nacional do órgão, Sebastião Azevedo, que considera
terras a 150 quilômetros de fronteiras internacionais
impróprias para reforma agrária.
Das 12 fazendas da região de Cáceres invadidas e
saqueadas nos últimos dois anos, é na Indiaporã que o
processo de divisão em lotes está mais avançado. Por
acreditarem que as negociações com o Incra seriam bem
sucedidas, posseiros chegaram a pagar mais do que a
média de outros loteamentos ilegais, na esperança do
título definitivo. A fazenda já possui até uma
Associação de Pequenos Produtores da Indiaporã.
Segundo o presidente da entidade, Wilson Alves Lopes,
80 posseiros estão espalhados na área. A informação
é contestada pelo proprietário, Paulo Donizete, que
afirma serem pouco mais de 20. "Como o Incra não
vai pagar, eles terão que sair", diz. "Vai
tudo muito complicado: tudo o que nós temos está aqui,
e não vamos sair sem uma solução do Incra", avisa
Wilson Lopes (ver matéria sobre o Incra na página B2).
POSSEIRO
Depois de trabalhar mais de 20 anos como
"retireiro" de uma fazenda da região, com seis
vacas leiteiras o posseiro José Galici Neto, conhecido
por Zé Sucuri, "comprou" um lote na
Indiaporã, onde mora com a mulher, e os cinco filhos.
Nos fundos da sua casa ainda está um barracão de lona
preta, feito pelos saqueadores para abrigo durante a
invasão. "Eles (os saqueadores) disseram que a
gente a terra vai ser da gente", diz. (JP)
CONFLITO AGRÁRIO 2
Fazendeiros reagem com armas
Com a falta de estrutura e de apoio das
polícias militar e civil, fazendeiros apelam para
seguranças particulares
JOANICE PIERINI
Enviada Especial à Cáceres
A reação de fazendeiros da região de Cáceres aos
saques e invasões que têm acontecido nos últimos dois
anos vem em forma de armas, seguranças particulares e
rondas de trator para evitar que os prejuízos sejam
ainda maiores que os R$ 2 milhões já computados até
agora pelos sindicatos rurais da fronteira. Diante da
falta de estrutura da polícia, e da consequente omissão
dos órgãos governamentais, fazendeiros apontam essa
alternativa como a única capaz de solucionar os
assaltos.
Na Fazenda Santa Maria do Jauru, município de Porto
Esperidão, propriedade de Mauro Arantes, quatro
seguranças fazem rondas 24 horas por dia desde julho,
quando começaram a chegar os primeiros bilhetes de
ameaças. Os recados pararam de ser enviados em agosto e
setembro, até que numa quarta-feira de meados de outubro
Arantes mandou que os trabalhos fossem suspensos.
Três dias depois, num domingo, aconteceu a invasão.
"Eles entraram em plena luz do dia. Eram cerca de
oito homens na sede da fazenda, dos quais cinco
encapuzados; o restante estava espalhado ao redor da
propriedade", descreve o fazendeiro com base nos
depoimentos de três famílias de funcionários da Santa
Maria, que estavam no local na hora do saque.
"Colocaram um revólver dentro da boca de um dos
caseiros, na frente dos filhos dele, e avisaram que se
houvesse reação haveria morte", conta.
Na Santa Maria do Jauru eles destruíram parte de duas
casas, uma terceira por completo mobiliada com ar
condicionado, freezers, geladeira, fogão e móveis - e
um barracão de mais de 300 metros quadrados onde eram
guardados equipamentos e utensílios rurais. "Os
prejuízos devem chegar a R$ 200 mil", avalia
comentando no entanto, que a pressão feita nos famílias
dos trabalhadores é hoje o maior problema. "É
difícil conseguir trabalhar sob a ameaça de mais uma
invasão", avalia Arantes.
Na tentativa de conter o problema, os seguranças
voltaram e dessa vez o fazendeiro avisa que eles não
devem sair tão cedo. São quatro homens armados com
revólveres e cartucheiras calibre 12, contratados de uma
empresa de segurança particular de Cuiabá. De trator,
os quatro andam na fazenda durante todo o dia. Aos pares
eles acompanham os funcionários em todas as atividades
necessárias pela fazenda.
ESTRUTURA DA POLÍCIA
A falta de pessoal, equipamentos e combustível é um
problema na fronteira de Mato Grosso e Bolívia que
atinge as polícias militar e civil: juntas possuem
somente cerca de 400 homens. Na Delegacia Regional de
Cáceres que abrange os municípios de Mirassol
DOeste, São José dos Quatro Marcos, Glória
DOeste, Porto Esperidião, Araputanga, Reserva do
Cabaçal, Indiavaí, Lambari DOeste, Rio Branco e
Salto do Céu desde 1996 é a prefeitura e o
sindicato rural que abastece as viaturas porque o governo
não envia a cota necessária, de 6 mil litros. Para
cerca de 124 mil quilômetros quadrados (incluindo o
município de Comodoro), a Polícia Militar tem 350
homens. Em alguns destacamentos, como Salto do Céu e Rio
Branco, a segurança é feita somente por um cabo e dois
soldados.
VIOLÊNCIA NA FRONTEIRA
Além de invasões e saques a fazendas, a região da
fronteira com a Bolívia enfrenta também problemas como
o narcotráfico e roubo de carretas, que na avaliação
de civis e militares chegam ainda a ser maiores que os
conflitos agrários. São comuns relatos de queima de
arquivo, pessoas que são executadas sem que se
investigue as causas da morte.
No final de semana passada, a 16 quilômetros de Vila
Cardoso um distrito de Porto Esperidião a
caminho de uma das fazendas visitadas a equipe do Diário
encontrou um corpo com marcas de agressão enrolado numa
lona preta, jogado às margens da estrada. Durante mais
de 6 horas aguardou-se a presença da polícia, mas o
corpo acabou sendo removido por uma funerária, sem
perícia técnica.
Duas
mortes suspendem "tolerância"
Enviada Especial à
Cáceres
O delegado regional de Pontes e Lacerda, José Rosa,
disse que a partir de agora a "tolerância da
polícia com os invasores e saqueadores de fazendas vai
ser zero". Duas mortes recentes de um
guarda-noturno do Incra de Pontes e Lacerda, e do
grileiro Claudio Salles de Assis no dia 22 de outubro, em
troca de tiros com o caseiro de uma fazenda
motivaram a decisão.
"Temos dificuldades para localizar quem eles
são, porque não possuem documentos e só se chamam por
apelidos", descreve o delegado. Desde o início do
mês, no entanto, a decisão da Polícia Civil e do
Ministério Público é por prender todos os suspeitos,
para averiguações posteriores.
Hoje estão identificados pela regional de Pontes e
Lacerda que inclui os municípios de Vila Bela,
Figueirópolis, Jauru, Comodoro e Nova Lacerda 12
prováveis saqueadores. Destes, quatro estão presos em
Vila Bela, cinco devem ter prisão preventiva decretada
nos próximos dias, e outros três ainda precisam ser
reconhecidos por testemunhas dos saques, geralmente
funcionários da fazendas.
Em Cáceres, segundo o delegado regional Milton
Teixeira, essa semana testemunhas devem fazer o
reconhecimento de um suspeito que chegou a trocar tiros
com a polícia mês passado. "Alemão", como é
apelidado, teria liderado os saques das fazendas
Indiaporã e Tapera-Pau-a-Pique. Ele foi identificado a
partir de um Corsa vermelho, com placas de Brasília, que
recebeu de Wilson Lopes Teixeira, presidente da
Associação dos Pequenos Produtores da Indiaporã, em
troca de 30 alqueires às margens da BR-174, e com luz
elétrica. (JP)
Operação
"pente fino" deve ser antes de 1999
Enviada Especial ao
Diário
Diversas reuniões entre sindicatos rurais da região
oeste do Estado e o 6o Batalhão da Polícia Militar
resultaram na elaboração do projeto da Polícia Rural,
que com um carro traçado e camburão, equipado com
rádios e celular rural, faria "rondas" pelas
fazendas. A unidade móvel, para cinco policiais
militares, além de evitar saques, teria também o
objetivo de garantir o cumprimento de mandados de
reintegração de posse.
A proposta, apresentada semana passada para o
secretário de Segurança Pública, Hilário Mozer, foi
rejeitada. "É uma solução temporária,
inconcebível", declarou. Como solução a curto
prazo, o secretário afirmou que até o final do ano
será realizada uma operação "pente fino", e
que até o início do ano que vem devem começar as obras
do Centro de Operação Integrado da Fronteira (Ciof).
O Centro, segundo o governo do Estado, será um
prédio que abrigará ao mesmo tempo policiais federais,
rodoviários federais, militares e civis. O projeto está
orçado em R$ 1 milhão, mas o local da construção
ainda não está definido. As obras de terraplanagem
chegaram a começar num terreno de 10 hectares da
prefeitura de Porto Esperidião, mas foram suspensas e
devem recomeçar em outro local. Na reunião da semana
passada o dono Fazenda Santa Maria do Jauru, Mauro
Arantes, colocou parte da propriedade à disposição da
Secretaria.
INTEGRAÇÃO
Hilário Mozer, que é presidente do Conselho de
Segurança Pública da Fronteira Oeste um dos
setes conselhos de segurança de todo o País, ligado
diretamente ao Conselho Nacional e ao Ministério da
Justiça afirmou que o combate à violência na
fronteira exige integração de todas as polícias. Além
do Centro, Mozer lembrou que a partir do ano 2000 Mato
Grosso deve passar a ser monitorado por satélites,
através do Sistema de Vigilância da Amazônia. Na
reunião da semana passada Mozer pediu para que os
fazendeiros evitem pagar policiais em troca de reforço
na segurança. "Isso só estimula a violência e
não resolve o problema", disse.(JP)
Momentos
de tensão
da reportagem
Para fazer a reportagem sobre os conflitos de terra na
região da fronteira do Brasil com a Bolívia, a
repórter Joanice Pierini, o fotógrafo José Luiz
Medeiros e o motorista Leandro Leite Barros, percorreram
mais de 800 quilômetros entre cinco fazendas do
município de Porto Esperidião, entre os dias 31 de
outubro e 3 de novembro. Foram ouvidas cerca de 30
pessoas, entre fazendeiros, policiais, posseiros e
representantes do Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária). Em Cuiabá, o processo
de apuração contou com a participação da secretária
de redação, Márcia de Oliveira.
Além das dificuldades de transporte pelas estradas
internas das fazendas, foi tenso o momento em que a
equipe esteve na fazenda Tapera Pau-a-Pique, junto com o
proprietário, Oscar Spíndola - que desde fevereiro não
ia ao local, com medo de represálias dos saqueadores.
Numa fazenda vizinha a equipe foi avisada de que os
grileiros estariam armados e escondidos numa mata fechada
próxima à sede, insatisfeitos com a presença de
jornalistas, e aguardando a retirada imediata de todos.
Apesar do clima tenso, nessa mesma fazenda a equipe
foi recepcionada por Dona Maria Paulino, uma cozinheira
de mão-cheia que acolheu os jornalistas com requeijão
caseiro e cafezinho quente feitos em fogão à
lenha - provando que não existe só violência no
interior do estado, em especial na fronteira entre Mato
Grosso e a Bolívia. Em depoimentos de "prosa"
com pessoas humildes e cheias de bondade como Dona Maria
Paulino, a esperança de que voltem os dias em que campo
significava prosperidade.(JP)
Omissão
faz tensão aumentar
Enviada Especial à
Cáceres
O executor do Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (Incra) de Cáceres, Luiz Alberto
Vargas, afirma que os problemas de invasões e saques de
fazendas por bandos de pistoleiros na região de
fronteira "são questão de polícia, atos de
banditismo". "Não temos contato nenhum com os
saqueadores: não sabemos quem são e a mando de quem
trabalham", disse alegando que os trabalhos do
Instituto estão concentrados nas atividades de reforma
agrária.
O Incra de Cáceres, onde trabalham 40 funcionários,
é responsável por projetos de 18 municípios da região
de fronteira, que somam 53 mil quilômetros quadrados. O
problema mais grave para o Instituto hoje é o parecer do
procurador Sebastião Azevedo, de Brasília, proibindo a
liberação de terras a 150 quilômetros da fronteira
internacional para fins de reforma agrária.
"Temos hoje, somente em Cáceres, 23 processos de
desapropriação, dos quais 11 já decretados (assinados
pelo presidente da República, Fernando Henrique
Cardoso), e 7 em fase final de pagamento aos
proprietários", explica. De Brasília o Instituto
ainda não recebeu nenhuma orientação do que deve ser
feito agora nesses casos.
A questão mais difícil a ser solucionada refere-se
à Fazenda Indiaporã, de Paulo Donizete, no município
de Porto Esperidião. "De fato prometemos que a
terra seria dos posseiros, porque até então tínhamos a
certeza de que o proprietário seria pago. Agora, com a
decisão nacional, o clima está tenso no local e
certamente teremos conflitos", adverte o executor.
PREOCUPAÇÃO
O prefeito de Cáceres, Aloísio Barros, teme que os
problemas de saques nas fazendas chegue a afetar a
arrecadação do município, da qual pelo menos 80% vêm
da pecuária extensiva. Barros era presidente do
Sindicato Rural em 1996, quando as invasões já
aconteciam e para protestar os fazendeiros bloquearam as
estradas que dão acesso a San Mathias, na Bolívia,
assim como a energia que enviada para o município
vizinho. "As autoridades responsáveis, seja o Incra
ou a polícia, precisam tomar uma providência",
adverte.(JP)
REFÉNS
Vereador de Cláudia é libertado de
aldeia
Sérgio Bastos é pai do menor Leandro
Bastos, de 14 anos, solto quinta-feira
Da Redação
Os índios caiabis, que desde o dia 31 de outubro,
mantêm um grupo de reféns na aldeia Diauru, resolveram
libertar o vereador Sérgio Bastos, de Cláudia. Ele
havia sido impedido de sair do local depois de tentar, em
vão, a libertação dos outros.
Sérgio Bastos é pai do menor Leandro Bastos, de 14
anos, libertado quinta-feira, junto com o colega Fábio
Dal Maso, de 17.
Os caiabis continuam exigindo que o presidente da
Fundação Nacional do Índio (Funai), Sulivan Silvestre,
vá até a aldeia e garanta a imediata solução para o
problema dos limites da reserva.
Em entrevista a um programa de televisão, anteontem
à noite, Silvestre reiterou a posição do órgão em
não negociar enquanto houver reféns na aldeia. "É
uma posição do governo Fernando Henrique Cardoso",
disse o presidente da Funai.
Embora Silvestre tenha garantido que o episódio
esteja quase chegando ao fim, os caiabis mantêm a
postura de não libertar ninguém. Na quinta-feira, eles
ameaçaram matar o grupo.
Por possuírem uma televisão e uma antena
parabólica, acredita-se que a aldeia inteira tenha
assistido à entrevista do presidente da Funai.
O grupo que negocia com os caiabis está tentando que
pelo menos o madeireiro Roseno Araújo Neto seja
liberado. Ele estaria doente, com sintomas da malária.
Nos últimos dias, os reféns têm tido mais
liberdade. Pela manhã, os índios estão permitido que
eles tomem banho no rio Arraia, um dos afluentes do
Xingu.
Apesar da relativa liberdade, os reféns estão cada
vez mais preocupados com o andamento das negociações.
Em conversa com o presidente da Associação Terra
Indígena, índio Mariovan, eles fizeram um apelo a
Silvestre.
Ontem pela manhã, os familiares enviaram mais comida,
roupas, redes e remédios.
A HISTÓRIA
A captura das oito pessoas aconteceu na manhã do dia
31 de outubro, quando pescavam no rio Arraia. Armados, os
índios renderam os pescadores, que não resistiram. Os
reféns são moradores de União do Sul, Sinop e
Cláudia.
Funai
e índios de Tangará encabeçam movimento
SÉRGIO ROBERTO
Da Sucursal
Servidores da Funai e indígenas estão se reunindo no
escritório da Funai em Tangará da Serra, com o objetivo
de definir linhas de ação para revitalizar o órgão.
As metas da mobilização já estão traçadas num
documento-manifesto que inclusive já foi encaminhado
para Brasília e para os principais núcleos
administrativos da entidade, dando caráter nacional ao
movimento.
Durante toda esta semana esteve presente o assessor
técnico da presidência da Funai, José Carlos Shertell,
que se deslocou de Brasília a Tangará da Serra para
apurar as reais circunstâncias da morte de indígenas
por desidratação aguda numa aldeia Irantxe localizada
na região. Schertell já chegou em Tangará com a
informação de que os óbitos entre os indígenas
ocorrem por falta de medicamentos e de assistência de
toda ordem com a falta de recursos do Ministério da
Justiça, que mantém a Funai.
Uma concentração dos indígenas durante a semana em
frente à regional da Funai em Tangará serviu também
para cobrar mais empenho do administrador local, Hamilton
Fiúza Machado. Ele esteve em Brasília apresentando os
problemas de falta de recursos, distorções sociais e
crises na área da saúde entre os indígenas. Por sinal,
os índios cobram convênios e parcerias para suprir as
limitações de recursos. As parcerias consistiriam em
acordos com prefeituras da região para a colaboração
na assistência aos índios.
Segundo a assessoria de imprensa da Funai em Tangará,
as reuniões de trabalho entre indígenas e servidores
continuarão ocorrendo nos próximos dias.
PEDÁGIO
Apesar da escassez de recursos e do enfraquecimento da
Funai provocados pela descapitalização do Governo
Federal, ainda existem aspectos positivos entre os
indígenas que vivem na reserva Pareci. Trata-se do
pedágio cobrado na Estrada Nova Fronteira, no alto da
Chapada dos Parecis. De acordo com a assessoria de
imprensa da Funai, a cobrança do pedágio na Nova
Fronteira já está apresentando resultados altamente
positivos, como a aquisição de computadores pela
Associação Halintinâ (que congrega os indígenas da
região), preparo do solo para lavouras e compra de
algumas cabeças de gado.
FEMA
Projeto de reciclagem já interessa
municípios
Da Reportagem
Funcionários da Fundação Estadual de Meio Ambiente
participam do projeto "Reciclar papel de
todos", idealizado pelo Grupo de Resíduos Sólidos.
A idéia é reutilizar e reciclar papeis, um dos
principais materiais de trabalho utilizado pelos
técnicos do órgão.
Para isso, caixas de coletas especiais foram
espalhadas em todas as divisões do órgão desde a
comemoração do Dia do Meio Ambiente, em 05 de junho
passado. Conforme a assessoria de Comunicação, a Fema
"como órgão executor da política ambiental do
Estado, viu-se na obrigação de dar o exemplo na área
de reciclagem e colocou em prática um projeto do
próprio secretário de Meio Ambiente, Frederico
Müller".
A engenheira sanitária e integrante do grupo,
Alcilene Freitas, explica que os papéis brancos estão
sendo transformados em blocos de rascunho
(reaproveitamento) e a assim como os coloridos
(cartolinas, revistas, etc) são depois vendidos a uma
fábrica de reciclagem, a Recimat. Os blocos são
confeccionados pela gráfica do Departamento de Viação
e Obras Públicas (DVOP).
A intenção é ampliar o projeto para o
reaproveitamento de copos plásticos. A dificuldade
encontrada pelo organizadores do projeto é a falta
empresas da área interessadas nesse tipo de produto.
Conforme Alcilene Freitas, o ganho com a venda do
papel não é muito grande, cerca de R$ 30 por uma
tonelada. No entanto, o ganho para o meio ambiente é
muito maior. A cada tonelada de papel reciclado 50
árvores são preservadas, além disso o papel não vai
parar no aterro sanitário, gerando menos resíduos e
até mesmo o consumo de energia. O dinheiro arrecado com
a venda de papéis é revertido para o sindicato dos
funcionários da Fema e ao órgão.
Conforme Inah Cândia, também integrante do grupo, a
idéia é também expandir o projeto para outros
órgãos, como o Prodeagro e Cepromat. As prefeituras de
Cuiabá, Sinop e Sorriso também já estão de olho no
programa.
CÓDIGO CIVIL
Reformulação procura agilidade
Da Reportagem
Há pelo menos dois anos o Código Civil vem passando
por mudanças. Nesse período cerca de 100 artigos foram
alterados com a finalidade de agilizar o trâmite das
ações, especialmente na fase de execução das
sentenças.
Mas pelo grande número de processos impetrados,
segundo o advogado Sérgio Rizzi, especialista em ações
cíveis e professor da PUC-SP ainda é comum encontrar
pessoas que brigam na justiça há 20, 30 ou 40 anos por
um direito que teoricamente seria incontestável.
O próprio Rizzi atua há 35 anos no caso de um
servidor público que foi demitido e tenta retornar ao
cargo. Sérgio Rizzi ingressou a ação quando concluía
o curso de Direito, uma época em que o estudante ainda
podia atuar como "solicitador acadêmico". O
servidor, hoje com 75 anos, venceu em todas as
instâncias mas não foi reintegrado ao cargo ou
indenizado por questões burocráticas.
Hoje, apesar das modernização do judiciário,
destacou Rizzi, não está fora de moda usar a antiga
frase: "ganhou mas não levou", que por muito
tempo refletiu a situação da justiça brasileira.
A mais recente mudança foi ao artigo 18 e ocorreu com
o objetivo de impedir que continue havendo recursos com a
intenção de retardar o andamento do processo. A
justiça poderá multar o autor da ação de comprovar o
retardamento intencional.
Em Cuiabá para ministrar um curso, Sérgio Rizzi
disse que as alterações ao código são um bom começo,
mas a solução ainda está longe. Ele acha que é
preciso mudar e aparelhar melhor a organização
judiciária. Novos juizes e desembargadores, opina,
dariam um salto importante. A morosidade da justiça,
segundo o professor, obriga muita gente a fazer acordos
que na maioria das vezes não repara o direito lesado.
EDUCAÇÃO
Primavera oferece curso de formação
à distância
RONALDO PACHECO
Da Reportagem
Primavera do Leste, a 240 quilômetros de Cuiabá,
conhecida pela sua produção agrícola, deve passar a
ficar conhecida por implementar o sistema de ensino mais
moderno do Centro-Oeste. A projeção partiu do
secretário de Educação de Primavera, professor Natal
da Silva Rêgo, ao anunciar para esta segunda-feira, dia
9, a partir das 20 horas, a realização da aula
inaugural do Curso de Formação Continuada à
Distância, em parceria com a Universidade Federal de
Mato Grosso (UFMT).
O principal objetivo do curso é assegurar ao
profissional do Magistério condições de aplicar, em
sala de aula, as vantagens proporcionadas pela era da
informática. "Antes, a arma do professor era o
quadro negro, giz, apagador e saliva. Agora estamos com
kit multimídia à disposição", lembrou Natal
Rêgo.
Para ensinar seus professores, a Prefeitura de
Primavera firmou convênio com o governo cubano,
conseguindo o especialista Victor Giraldo Valdez Pardo,
da Universidade de Las Villas, em Santa Clara a
segunda maior de Cuba. Ele pertence também à Rede
Ibero-Americana em Informática Educativa (RIBIE), sendo
um dos maiores especialistas do gênero na América
Latina. "É um esforço que estamos ensejando desde
o primeiro dia de administração", afirmou o
prefeito Érico Piana (PTB), que cumpre seu segundo
mandato em Primavera do Leste.
A cidade possui um dos laboratórios de informática
mais equipados do Centro-Oeste, superior inclusive ao da
UFMT e UFGO, entre outros. "A Prefeitura está
investindo na modernização da escola, buscando melhorar
a qualidade do ensino, caminho inevitável para se
construir a verdadeira democracia", afirmou Natal da
Silva.
BEM-ESTAR
Caminhada pelo centro encerra semana do
Idoso
Da Redação
A Caminhada pelo Envelhecimento Saudável marca hoje a
partir das 7h o encerramento da Semana do Idoso. Cerca de
três mil velhinhos, ligados a 78 asilos de Cuiabá, vão
sair da Praça Ipiranga em direção ao Sesc do bairro
Porto.
A caminhada é uma proposta da organização Mundial
de Saúde, uma prévia para o evento do ano que vem que
vai marcar o ano do idoso com a "Caminhada do
Abraço ao Mundo", que deve ser um símbolo de
solidariedade entre as gerações.
Hoje existem 12 milhões de idosos no mundo, e há uma
previsão para o ano 2025 de que haverá 32 milhões. Com
a preocupação do crescimento da população idosa, a
primeira dama da capital Iraci França está à frente da
Secretaria do Bem-estar Social para desenvolver um
trabalho mostrando que o envelhecimento é um processo
contínuo de desenvolvimento humano. "É importante
que haja uma atenção especial e investimentos na área
de saúde e lazer", disse.
A semana do idoso teve o objetivo de valorizar a
terceira idade e mostrou que todo o cidadão deve
envelhecer de maneira ativa e saudável.
Um benefício que os idosos receberam este ano foi a
regulamentação do projeto de lei que obriga o
município dar a vacina antigripal, antitetânica e
pneumococa.
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