HOLANDA X ARGENTINA

Holanda elimina Argentina e enfrenta Brasil na semifinal

Bergkamp marca um gol no último minuto e garante a vitória holandesa por 2 a 1; Numan foi expulso e não joga contra o Brasil

Da Agência Estado – Marselha

A seleção brasileira vai enfrentar a Holanda na semifinal da Copa do Mundo da França. Em jogo muito equilibrado tecnicamente, os holandeses venceram ontem a Seleção da Argentina por 2 a 1 e garantiu a passagem à próxima fase da Mundial. Os gols foram marcados por Kluivert e Bergkamp para a Holanda e por Cláudio López para a Argentina. Numan foi expulso no segundo tempo e não poderá jogar contra o Brasil.

A Seleção da Holanda começou ameaçando e, logo aos 4 minutos, Cocu chuta, mas Almeyda bloqueia. A sobra ficou com Jonk, que assustou o goleiro Roa chutando forte em cima da trave. O ataque holandês funcionou aos 11 minutos, quando Ronald de Boer cruzou Bergkamp, que, com um belo passe de cabeça, deixou Kluivert livre para abrir o placar.

Os argentinos demoraram apenas seis minutos para reagir. Véron não conseguiu alcançar a bola, lançada de escanteio, e quase marca. Mas foi o mesmo Véron que lançou Cláudio López no meio da defesa holandesa. López entrou na área e ainda esperou o goleiro Van der Sar sair para empatar o jogo.

Os holandeses tocavam melhor a bola e tiveram melhor domínio no meio-de-campo dificultando a criação de jogadas pela Argentina. Mas as duas equipes, apesar de mostrarem habilidade, não impuseram velocidade à partida. E a superioridade dos holandeses só ficou evidente nas chances desperdiçadas.

O meia Davids desceu sozinho, levou a bola para a direita e, ao invés de cruzar, chutou para fora. Depois, Ronald de Boer tocou para Jong chutar em cima do goleiro Roa. A Argentina equilibrou aos 37 minutos, com um forte chute de Ortega na trave e Simeone, no último minuto da primeira fase, ainda chuta de frente para o gol para fora.

No segundo tempo, as duas equipes voltaram apresentando o mesmo futebol. Lento, mas com jogadores habilidosos suficiente para definir a partida antes da prorrogação. Ainda aos 7 minutos, Kluivert recebe livre, mas vira mal e não consegue concluir. Os argentinos revidaram com Batistuta, que saiu rápido no contra-ataque, mas desperdiçou uma outra oportunidade da Argentina na trave.

Um minuto depois a Holanda chega. Kluivert toca de cabeça e o goleiro Roa evita o desempate quando a bola estava quase dentro do gol. O jogo prosseguiu normalmente. Nem a expulsão de Numan, que fez uma falta violenta em Simeone, alterou o ritmo do jogo. O jogador já tinha recebido um cartão amarelo. Sem um jogador e também sem velocidade, as duas equipes estavam iguais em campo.

O desempate só saiu no fim do jogo. Ortega deu uma cabeçada no goleiro Van der Sar e foi expulso. Com número igual de jogadores em campo, a Holanda aparentou ter recuperado a disposição para marcar. Frank de Boer fez um belo lançamento. Bergkamp esticou a perna direita para receber, pisou na bola para tirar o zagueiro Ayala da jogada e colocou a bola no canto direito do goleiro Roa. O gol praticamente matou os argentinos em campo, que também não tiveram tempo para buscar o empate

Argentina - Carlos Roa; Javier Zanetti, Roberto Ayala, Roberto Sensini e José Chamot (Abel Balbo); Diego Simeone, Matías Almeyda (Pineda), Juan Verón e Ariel Ortega; Gabriel Batistuta Claudio López. Técnico - Daniel Passarella.

Holanda - Edwin van der Sar; Michael Reiziger, Jaap Stam, Frank de Boer e Arthur Numan; Ronald de Boer (Marc Overmars) Wim Jonk, Edgar Davids e Phillip Cocu; Dennis Bergkamp e Patrick Kluivert. Técnico - Guus Hiddink. Gols - Kluivert, aos 11 minutos, Lopez, aos 17 minutos do primeiro tempo, e Bergkamp, aos 44 do segundo tempo.

Árbitro - Arturo Brizio Carter (México) Auxiliares - Owen Powell (Jamaica), Elias Salinas Rostran (Honduras)

Cartões Amarelos - Stam, Numan, Chamot, Zanneti

Cartão Vermelho - Numan, Ortega

Local - Estádio Velodrome, em Marselha


Hiddink não esconde alegria

Da Agência Estado – Marselha

O técnico da Holanda, Guus Hiddink, não escondeu sua alegria pela classificação para as semi-finais. "Creio que foi uma partida em que dominamos todo o tempo", exagerou ele, fazendo, em seguida, uma brincadeira com os jornalistas. "Não vamos brindar com champanhe, como os franceses. Quem sabe abriremos uma garrafa de vinho".

Quando resolveu falar mais sério, disse que "foi um jogo duro, mas merecemos ganhar, pois nosso domínio no segundo tempo foi total". Sobre a semi-final contra o Brasil, Hiddink confessou que gostou de ter que jogar contra o time de Zagallo.

"Conhecemos bem o Brasil e vice-versa. Ao contrário de 1994, quando fomos eliminados pelos brasileiros nas quartas-de-final, vamos enfrentá-los nas semi-finais. Isso é melhor. Sem esquecer que teremos muitos craques em campo. Será uma partida interessante", concluiu ele.

Já o ex-jogador holandês, Johan Cruyff, destacou que a equipe teve um desempenho fantástico. "Desta vez, temos que tentar conquistar nosso primeiro título. temos uma equipe fantástica e somos melhores que o Brasil".


SEMIFINAL

Brasil e Holanda resgata arte no futebol

O coordenador técnico Zico assiste a vitória da Holanda sobre a Argentina e elogia o futebol holandês

Paulo Guilherme e
Ubiratan Brasil
Da Agência Estado – Marselha

O coordenador técnico da seleção brasileira o ex-jogador Zico, deixou o Estádio Vélodrome satisfeito com a vitória da Holanda sobre a Argentina. "São duas equipes que jogam com o mesmo estilo, para frente, buscando sempre a vitória

mas o tipo de jogo da Holanda é muito bom para o Brasil", analisou.

Adepto do chamado futebol-arte, o ex-camisa 10 da seleção acha que a vitória holandesa é uma conquista para o futebol. "Valoriza o futebol ofensivo". O assistente de Zagallo esteve em Marselha acompanhado pelo espião Jairo do Santos colhendo informações para passar para técnico e os jogadores da seleção brasileira.

Para Zico, "os holandeses têm dificuldades para jogar quando o adversário faz uma forte marcação sobre eles". O ex-jogador acredita que o Brasil tem boas chances de passar pela Holanda e chegar à final do Mundial, principalmente se explorar algumas falhas que ele identificou na defesa adversária, como o fato de os zagueiros holandeses jogarem em linha.

Entre os pontos fortes da equipe holandesa, Zico destacou a boa visão de jogo dos homens do meio-de-campo e pelo menos uma jogada muito perigosa: a inversão do jogo. "Quando um jogador do meio pega a bola, um dos atacantes se desloca para o outro lado para receber livre, em velocidade, como foi o gol do Bergkamp que deu a vitória sobre a Argentina".

A seleção bbrasileira, segundo Zico, deve prestar muita atenção em quatro jogadores: o zagueiro Frank De Boer, capitão do time, que é muito eficiente na marcação; o meia Davids, que corre o campo todo; e os atacantes Bergkamp e Kluivert, que são habilidosos e bons finalizadores. Outra preocupação é evitar que o volante Jonk chute de fora da área.

Zico acredita que o confronto entre Brasil e Holanda, acima de tudo, vai marcar a consagração do futebol-arte, há muito tempo afastado dos encontros de Copa do Mundo. Sobre o sentimento de vingança que pode motivar os holandeses a devolver a derrota por 3 a 2 na Copa de 1994, Zico retruca: "Eles não podem falar nada porque ganharam da gente em 1974", lembra. "Está tudo igual, 1 a 1."


Estrangeiros elogiam Rivaldo

Da Agência Estado – Copenhague

Os jornais dinamarqueses na Internet destacaram a brilhante atuação de Rivaldo e da seleção do país na partida contra o Brasil. O meia também chamou a atenção da imprensa européia, que, de maneira geral, fez elogios ao nível técnico do jogo. "Rivaldo pagou a entrada", é o título do jornal dinamarquês Ekstrabladet.

"O elegante brasileiro é um melhores personagens do Mundial." O Politiken destaca a boa apresentação da seleção e a despedida de Michael Laudrup. "A Dinamarca foi o primeiro país no torneio a desafiar os brasileiros em seus termos, jogando um futebol técnico, com esperteza e em combinações rápidas." A reportagem chama atenção ao fato de que a defesa conseguiu inutilizar Ronaldinho.

Entusiasmo - "Rivaldazo", é o título do jornal espanhol Marca na partida entre Brasil e Dinamarca. "Os europeus não depreciaram o toque de bola mesmo quando sofreram o magnífico gol de Rivaldo - que grande partida fez o jogador azul e vermelho (cores do Barcelona) - também fizeram desfrutar os amantes do futebol fino."

Menos empolgado, o jornal El Mundo publica que a seleção merecia vencer, mas tanto Brasil como Dinamarca poderiam fazer mais gols. "Muito Brasil, muita Dinamarca, enfim, futebol", é a frase do jornal italiano Corriere della Sera, que também destacou o fato da seleção brasileira ter mostrado capacidade para reverter o placar. "Rivaldo dá uma de Ronaldo e Brasil segue adiante", diz La Gazzeta dello Sport, que destaca também a boa atuação dinamarquesa. "Rivaldo correndo como louco enquanto campeão engrena", é o título do The Guardian. "As duas delícias de Rivaldo para o Brasil", descaca The Independent. "O Brasil, com Bebeto e duas vezes Rivaldo, mostrou que realmente tem consistência e que pode superar suas falhas de defesa e, claro, fazer gols sobre qualquer um que vá para cima dele", opina o The Times.


"Argentina morreu com seu próprio veneno"

Sebastião Reis
Da Agência Estado – Lésigny

Deixar de enfrentar um adversário tradicional, como a Argentina, na fase semifinal da Copa do Mundo, deixou Zagallo feliz. Mal o árbitro apitou o final da partida em Marselha, ontem, Zagallo apareceu na frente do Château de Grande Romaine com indisfarçável ar de felicidade. Ao lado do assessor de imprensa da seleção, Nélson Borges, fez questão de posar para uma foto na frente dos jornalistas que o aguardavam. "O azul e branco foi embora e ficou o verde-e-amarelo", afirmou, sorrindo.

Zagallo considera o time da Holanda superior ao da Argentina, mas ficou menos preocupado com o resultado, por ter se livrado de um dos seus fantasmas. No amistoso do dia 29 de abril, no Rio, a Argentina havia derrotado o Brasil por 1 a 0. "Eles fizeram três amistosos na Europa para enfrentar o Brasil, comemoraram o resultado, mas agora quem continua na Copa somos nós, e não eles", comentou.

Para o Brasil, segundo Zagallo, o quinto título mundial está mais próximo. "Faltam dois jogos para a conquista do século", afirmou. A vitória da Holanda foi o resultado mais justo, na opinião do técnico brasileiro. "A Argentina passou o jogo todo explorando os contra-ataques, mesmo quando tinha um jogador a mais, e morreu com o seu próprio veneno", disse. O gol da vitória da Holanda surgiu de um lançamento longo para Bergkamp, um contra-ataque, como fez questão de enfatizar Zagallo.

Perguntado se tinha pena da Argentina, por ter sido eliminada, o treinador foi enfático: "Eu não tenho pena de ninguém; ninguém tem pena da gente." O confronto com os holandeses vai ser difícil, como em 94, nos Estados Unidos, quando o Brasil venceu por 3 a 2, comparou o treinador. Ele disse que a Holanda mostrou desde o início da competição, que tem um grande time. "Falei isso quando vi o seu desempenho no jogo com a Bélgica." Para Zagallo, a Holanda é um time que não tem pressa e que também tem o objetivo de ser campeã. Os holandeses têm bom toque de bola e excelente material humano, afirma Zagallo. "Se o Seedorf ficou no banco, mesmo sendo um grande jogador, é porque o time deles é muito forte", justificou.


BRASIL

Zagallo confirma Zé Carlos na semifinal

O lateral direito do São Paulo jogará no lugar de Cafu na terça-feira

Mário Iório
DA Agência Estado - Ozoir-la-Ferriére

Zagallo confirmou ontem a presença do lateral-direito Zé Carlos no lugar de Cafu, para o jogo das semifinais da Copa do Mundo da França, que será disputado com o vencedor do jogo entre Holanda e Argentina, que será realizado às 11h30. O técnico garante que o jogador do São Paulo "está preparado" para executar a função. "Se não tivesse condições não estaria aqui", disse.

Ontem, o treinador estava muito nervoso por causa do jogo contra a Dinamarca e explicou. "Foi uma partida que todo mundo ficou tenso do primeiro ao último minuto." Zagallo destacou que, se o Brasil se não fosse uma seleção "de garra e talento", não teria ganho a partida. Elogiou a boa movimentação de Ronaldinho, que deu os passes para dois dos três gols, e disse que o atacante "fez uma boa partida, mesmo sem ter feito gols".

Zagallo reclamou dos dois gols sofridos marcados pelos dinamarqueses. Ressaltou a falha coletiva no primeiro gol, pois os jogadores já conheciam a jogada dos teipes apresentados pelo espião Gilmar. No segundo gol, Zagallo brincou e disse que Roberto Carlos deu uma "bicicleta de pneu furado", mas espera que o pneu esteja cheio na próxima partida. O técnico, no entanto, lembrou que o jogador não tinha outra alternativa e se desequilibrou ao tentar fazer o corte. "A gente enche o pneu furado para o próximo jogo", insistiu.


Zé Carlos não está adaptado a seleção

Arnaldo Ribeiro
DA Agência Estado - Ozoir-la-Ferrière

Zé Carlos não esperava ser convocado para a seleção brasileira. Foi. Não esperava estar na lista final dos 22 atletas para a Copa do Mundo. Entrou no final com o corte de Flávio Conceição. Não esperava que Cafu, que dificilmente fica contundido ou fosse suspenso, deixasse uma brecha para ele jogar. Deixou. Talvez por todas essas contingências surpreendentes, o lateral-direito do São Paulo, de 29 anos, ainda não tenha se adaptado ao ambiente da seleção. Tímido dentro e fora de campo, ele nem lembra o jogador alegre e piadista, especialista em imitar bichos e feirantes. Zé Carlos parece deslocado no grupo de jogadores: um peixe fora d'àgua.

Agora, ele teme perder a chance de sua vida: disputar pela primeira vez, e provavelmente pela última, uma partida de Copa do Mundo. O técnico Zagallo ainda pode optar pela improvisação do meia Emerson no lugar do suspenso Cafu, mas Zé Carlos tenta não acreditar nisso. "Sou o substituto natural e estou pronto para jogar, mas vou respeitar a decisão do técnico porque ele já demonstrou em toda a sua carreira vitoriosa que sabe o que faz", disse.

Ao lado do zagueiro André Cruz e dos goleiros Dida e Carlos Germano, Zé Carlos é um dos quatro atletas do grupo da seleção que ainda não teve a oportunidade de jogar no Mundial da França. O treinador já utilizou 18 jogadores na Copa: Zé Roberto e Emerson entraram poucos minutos na última partida, contra a Dinamarca.

Zagallo deve manter o mistério até momentos antes da partida, mas vai indicar no treino de hoje, o único para valer para as semifinais, quem vai entrar no lugar de Cafu. Com Zé Carlos, o especialista, a equipe ganha em velocidade e nos cruzamentos, mas perde na marcação. Com Emerson, ganha força e toque de bola, mas perde a saída rápida pela direita.

O técnico da seleção tem outras preocupações. Leonardo, Aldair e Roberto Carlos também estão "pendurados" com um cartão amarelo cada. Se forem advertidos nas semifinais, não jogam a decisão ou a disputa do terceiro e quarto lugares.


Pentacampeonato vai dar prejuízo a CBF

Sebastião Reis
DA Agência Estado - Ozoir-la-Ferrière

A vitória sobre a Dinamarca garantiu o dinheiro da seleção brasileira na Copa do Mundo na França. O time, seja qual for a sua colocação a partir de agora, realizará sete partidas e garantirá um prêmio de cerca de US$ 4,9 milhões por sua participação no torneio - US$ 700 mil por jogo. Pode ser alto, se comparado ao prêmio da Copa de 94, nos Estados Unidos, de US$ 3,8 milhões, mas insuficiente para cobrir as despesas do time caso o Brasil seja campeão do mundo. "É o tipo do prejuízo que todos os brasileiros queriam ter", disse o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira.

Dinheiro não chega a ser problema para a CBF, apesar de prejuízo ser uma palavra abominável em qualquer tipo de negócio. A entidade tem um contrato milionário com a Nike, o maior do mundo em termos de patrocínio de seleção, no valor de US$ 400 milhões _ US$ 270 milhões em dinheiro e o restante em material e na construção da nova sede da CBF, na Barra da Tijuca. São US$ 40 milhões por ano em dez anos de contrato com a multinacional norte-americana de material esportivo.

O título da Copa do Mundo deixaria o caixa da CBF no vermelho porque o prêmio pela conquista é alto. Cada jogador terá um "bicho", como dizem no jargão futebolístico, de US$ 170 mil. No total, os 22 jogadores convocados pelo técnico Zagallo embolsarão no total US$ 3,7 milhões. O valor é mais alto quando incluído no pacote os demais integrantes da comissão técnica. Mais de 40 pessoas, incluindo jogadores e comissão técnica, participarão da divisão do prêmio. Só com premiação, a CBF gastará, se o time for campeão, uma quantia superior a US$ 5 milhões. E lá se foi o dinheiro das cotas dos jogos.

O prolongado período de concentração no Château de Grande Romaine, em Lésigny, saiu por um custo de US$ 1,2 milhão. Somando outras despesas, como alimentação, medicamento e transporte, a CBF calcula que gastará cerca de US$ 10 milhões pela conquista do quinto título mundial. "Pagar pelo título não nos preocupa, é uma satisfação", garante Ricardo Teixeira. Segundo ele, o investimento que está sendo feito agora proporcionará lucro mais adiante, caso o time seja campeão.

Na última Copa do Mundo, a conquista valorizou a seleção brasileira. A equipe, que cobrava cerca de US$ 200 mil de cota nos amistosos, passou a exigir US$ 500 mil, livres de despesas. E teve uma agenda lotada nos quatro anos de preparação para a Copa na França, jogando praticamente todos os dias disponíveis.


BRASIL

Os gols decisivos de Bebeto na Copa

Bebeto diz que não se abala com as constantes críticas da imprensa e da torcida

Cláudio Arreguy
Da Agência Estado - Ozoir-la-Ferrière

Um dos mais criticados jogadores da seleção brasileira na França garante que não se abala com as vaias que recebe em alguns jogos. Bebeto, que participa de sua terceira Copa do Mundo, diz que tem consciência de seu papel na equipe e entende por que Zagallo o tem substituído sistematicamente, para a entrada de Denílson.

"Eu acho que estou bem, mas entendo que, a partir de um determinado momento do jogo, o time precisa ter uma variação tática", afirma. Talvez para evitar interpretações negativas, Zagallo, sempre que substitui Bebeto, faz questão de recebê-lo no banco e de abraçá-lo. Diante da Dinamarca, anteontem, deu um beijo no jogador. Vizinhos no Rio, eles são muito amigos. A mulher do treinador, Alcina, costuma fazer compras junto com a do craque, Denise.

Para Bebeto, que já tem tantos gols nesta Copa (três) quanto na dos Estados Unidos, com dois jogos a menos do que há quatro anos agradece a Deus a fase atual. "Com a forte marcação feita em cima do Ronaldinho, eu procuro fazer uma movimentação forte para abrir espaços, e ele tem me servido muito bem, como aconteceu contra a Dinamarca". Religioso, o atacante procura, nas reuniões de oração com alguns companheiros, no Chateau de Grande Romaine, buscar forçar para manter-se motivado e tranqüilo. "A presença de Deus é muito grande em minha vida".

O companheiro de Ronaldinho lembra a primeira vez em que atuaram juntos, há três anos, querendo demonstrar que tem participação no fato de o parceiro ter-se firmado na seleção. "Foi no amistoso contra o Uruguai, em 95, em Salvador", recorda. "Na época, eu disse que iria consagrar o Ronaldinho e ele marcou os dois gols da nossa vitória, com dois passes meus".

Bebeto assegura que não se abala com a manifestação da torcida e da imprensa em favor de sua substituição por Denílson. "Isso é coisa de uma minoria", afirma. "A torcida gosta de mim, ela sempre me apoiou, desde que comecei a jogar na seleção", garante Bebeto, que foi convocado pela primeira vez em 1985, quando o técnico era Evaristo de Macedo.

Na Copa do Mundo da França, ele é o mais criticado dos titulares. Mas tem tantos gols quanto os outros artilheiros do time - César Sampaio, Rivaldo e, principalmente, Ronaldinho. Fez gols importantes, como o terceiro diante de Marrocos, em Nantes, quando consolidou a vitória brasileira por 3 a 0; o que poderia ter sido o da vitória diante da Noruega, em Marselha, se a defesa não cometesse erros lá atrás e permitisse a reação do adversário nos minutos finais; e o do empate contra a Dinamarca, em Nantes, sexta, pelas quartas-de-final, num momento do jogo em que o Brasil era dominado pelos dinamarqueses e mostrava-se intranqüilo. "Sei que sou importante para a equipe e não me abalo com as manifestações dessa minoria", diz Bebeto. "Tenho fé em Deus e, a cada jogo, vou-me entendendo melhor com Ronaldinho", prossegue. "Sou um cara de bem com a vida".


Brasil demonstra equilíbrio em relação a 94

Cláudio Arreguy
DA Agência Estado - Ozoir-la-Ferrière

A seleção brasileira tem-se valido mais de destaques individuais do que a que conquistou o título mundial em 1994, nos Estados Unidos, embora, naquela campanha, nenhum outro jogador da equipe dirigida pelo técnico Carlos Alberto Parreira chegasse perto do que produziu, sozinho, o craque Romário. Desta vez, porém, são vários os jogadores que se têm destacado. A cada partida, um é o grande nome.

A equipe de 94 era bem mais equilibrada nas funções defensiva e ofensiva. Tanto que, nos sete jogos disputados nos gramados norte-americanos, o goleiro Taffarel, que tinha sofrido dois gols nos quatro jogos do Brasil em 90, sofreu apenas três.

Em 98 em cinco jogos, a defesa já foi superada por seis vezes. Ou seja, numa só Copa, que ainda nem terminou para o time brasileiro, Taffarel já buscou mais bolas dentro do gol do que nos dois mundiais anteriores somados.

Em compensação, o ataque tem funcionado bem melhor do que antes. Nos Estados Unidos, nas sete partidas, foram feitos 11 gols - cinco deles de Romário, três de Bebeto, um de Raí, um de Márcio Santos e um de Branco. Quatro anos depois, a produção brasileira, em cinco partidas, já é de 13 gols. E os artilheiros ao contrário do Mundial norte-americano, estão mais divididos. Quatro jogadores estão com três gols - o badalado Ronaldinho, que era o mais cotado nas apostas internacionais para assumir essa condição de goleador sozinho; Bebeto, Rivaldo e César Sampaio. Além desse quarteto, o Brasil teve a ajuda do escocês Boyd, que fez um gol contra, no jogo de estréia.

Todo técnico gosta de dizer que o equilíbrio é fundamental. Parreira conseguiu levar isso ao extremo, com uma média pragmática em 94. Zagallo, agora, conta com um time mais voltado para o gol, numa filosofia que, em conseqüência, deixa mais vulnerável o setor defensivo. No título mundial de 70, em que ele era o treinador da equipe, o Brasil marcou 19 gols e levou sete. Um ataque eficientíssimo e uma defesa nem tanto.

No Mundial da França, pode-se imaginar o que poderia ser a produção ofensiva do Brasil se houvesse um armador de fato no meio-de-campo e se Ronaldinho não estivesse sentindo o problema de tendinite que afeta sua velocidade, sem contar que Bebeto, apesar de ter ainda o senso do gol, não tem a mesma explosão de quatro anos antes.

A dificuldade de Ronaldinho, por outro lado, abre espaço para que os companheiros apareçam. O atacante que foi eleito, por dois anos consecutivos, o melhor jogador do mundo tem sido muito marcado. E, como tem talento, procura compensar isso chamando para si a marcação e deixando os companheiros livres. Às vezes, até faz passes primorosos para os outros, como nos dois primeiros gols diante da Dinamarca, ontem, pelas quartas-de-final, em Nantes. No primeiro, desconcertou a defesa dinamarquesa com um lançamento de canhota para Bebeto. No segundo, arrumou o lance para Rivaldo fazer o gol da virada.


BRASIL

Zagallo não quer mudanças no time

Técnico quer Brasil como no jogo com a Dinamarca, ele acredita que o time já está com um excelente nível técnico

Dinoel Marcos de Abreu
DA Agência Estado – Lésigny

O técnico Mário Jorge Lôbo Zagallo quer ver nas semifinais o mesmo futebol que o Brasil apresentou na vitória sobre a Dinamarca por 3 a 2, ontem, em Nantes, pelas quartas-de-final da Copa. Na entrevista coletiva realizada ontem à tarde, na concentração da seleção em Lésigny, o treinador disse que o Brasil atingiu um excelente nível técnico. "Tivemos futebol, garra e determinação", afirmou. "É assim que imaginamos a seleção para o próximo jogo, e a torcida brasileira pode ficar tranqüila, porque não vai faltar empenho."

O treinador só faz restrições aos erros da defesa nos lances que proporcionaram os gols do adversário. Ele explicou que as falhas na partida de sexta-feira podem servir de lição para o time brasileiro. No início da entrevista, o treinador disse que se recuperou do desgaste emocional e físico, provocado pelo jogo contra os dinamarqueses. "Não tive nenhum problema de saúde e estou pronto para a próxima partida", disse o treinador, que admitiu ter tomado um calmante para "relaxar", ao chegar no hotel da delegação.

Zagallo confirmou que realmente ficou emocionado depois do jogo principalmente após conversar com sua família, por telefone. "Sou uma pessoa emotiva, mas estou habituado a passar por momentos como esse ao longo da minha carreira", disse. "Vejam as minhas fotos de outras épocas."

Zagallo antecipou que a entrada de Zé Carlos no lugar de Cafu, que está suspenso com dois cartões amarelos será a única modificação da equipe e que Bebeto será mantido na seleção. O treinador explicou que o atacante do Botafogo foi substituído por Denílson no segundo tempo por uma questão tática."Mas ele estava bem no jogo e por isso será mantido".

A seleção está com três jogadores suspensos com um cartão cada (Aldair, Roberto Carlos e Leonardo). Zagallo disse que vai orientar os três para que eles tomem cuidado com novas advertências na partida das semifinais. "Mas confesso que é difícil entender o critério dos juizes nesse tipo de punição", afirmou. "Até agora não entendi porque Cafu levou o cartão amarelo no jogo contra a Dinamarca". Os jogadores voltam a treinar neste domingo à tarde em Ozoir-la-Ferrière. Na segunda-feira a delegação viajará para Marselha, local da partida de terça-feira pelas semifinais.


Gilmar está feliz com o reconhecimento de Zagallo

DA Agência Estado - Lesigny

Antes de seguir rumo a Lyon, onde assistiria ao jogo Alemanha x Croácia, o ex-goleiro e espião da seleção, Gilmar Rinaldi, reiterou neste sábado, na porta do Château de Grand Romaine, local de concentração da delegação brasileira, a receptividade e a harmonia da comissão técnica em relação ao seu trabalho e a satisfação pelo serviço que está prestando. "Zagallo está muito interessado em acompanhar as informações e está mostrando que não é aquela pessoa que todos pensavam", disse, prestes a entrar no táxi conduzido pela portuguesa Graça, que o levaria ao aeroporto.

Gilmar comentou que, na véspera do confronto com a Dinamarca, o técnico da seleção pediu para ver e rever os taipes do adversário, além de ter analisado todos os relatórios feitos, recheado de informações que poderiam ser úteis. "Ele me disse que gostaria de assistir novamente aos vídeos, para que, assim, pudesse assimilar os nomes e as características dos jogadores dinamarqueses". Tamanha motivação o trasnformou em um notívago. "Retorno após o jogo e, às 4 horas da madrugada, já começo a editar o material e a preparar o relatório sobre o time vencedor".

Entre as informações colhidas previamente sobre o adversário de anteontem, destacou uma. "Sabia que o Michael Laudrup não poderia erguer a cabeça, se deixassem ele pensar, poderia ter feito estrago bem maior." Em relação ao primeiro gol feito pelo adversário, logo no começo do jogo, disse ter ficado contente e triste, ao mesmo tempo. "Triste pelo gol sofrido e contente porque havia colocado no relatório que eles freqüentemente batiam faltas rapidamente".

O espião de Zagallo também esteve na partida de sexta-feira entre França e Itália, em Saint-Denis, na qual a seleção anfitriã eliminou os vice-campeões mundiais na decisão por pênaltis. "Os franceses jogaram muito bem, só não fizeram o gol", elogiou. "Estão crescendo a cada jogo e a tendência é chegarem à decisão do título".


Dunga aponta defeitos na seleção brasileira

Arnaldo Ribeiro
Da Agência Estado - Ozoir-la-Ferrière

Para o capitão Dunga, a seleção brasileira tem um pequeno defeito que não será corrigido até o fim da Copa: o time não sabe administrar resultados favoráveis, o que deixa as partidas emocionantes. "Pelas características dos jogadores, pelo instinto, o time busca o gol mesmo quando a partida está a nosso favor, quando o ideal seria tocar a bola e deixar o tempo passar'', disse.

Dunga entende que o individualismo exagerado de alguns jogadores, como Rivaldo e Denílson, que acabam inviabilizando um jogo cadenciado, também é uma característica particular desses atletas. "Dentro do possível, um tem procurado achar o outro e driblar só no momento certo''.

O capitão, apesar das ponderações, disse que a equipe brasileira está em processo de evolução. "Estamos num bom momento, mostrando maturidade e buscando nossos objetivos: vamos crescer nos próximos dois jogos'', afirmou.

Para o volante, a partida contra a Dinamarca foi atípica e muito atrativa. "Quando você encontra um adversário que quer jogar, que parte para cima, o jogo fica bonito''. Segundo ele, a seleção tem mais dificuldades quando enfrenta adversários que jogam "exclusivamente atrás, explorando escanteios e as bolas paradas''. Talvez por isso, o capitão jamais tenha temido pela sorte do Brasil diante dos dinamarqueses. "Quando eles fizeram o segundo gol, eu pensei que tudo seria como contra a Holanda, nas quartas-de-final da Copa de 94, quando conseguimos ganhar por 3 a 2'', disse.

Mas o jogador não quer mais que a equipe saia atrás no placar durante os jogos decisivos. "Isso provoca um desgaste muito grande, que vamos sentir nas próximas partidas e, além disso, faz a torcida sofrer demais'', justificou. Dunga deu quatro conselhos para a seleção não correr tantos riscos daqui para frente: sempre quando o Brasil cometer uma falta, um homem de ataque tem de ficar colado à bola, para evitar uma cobrança muito rápida; os jogadores do banco de reservas devem estar sempre atentos ao jogo para, quando entrarem, determinarem um novo ritmo à partida; o time deve viver o presente, pensar sempre na próxima partida; se um jogador pendurado pelos cartões amarelos tiver de matar uma jogada e ficar de fora da final para ajudar o time, tem de fazer isso; o Brasil não vai conseguir nada se não sofrer: "Não dá para colher uma rosa sem machucar-se nos espinhos'', afirmou.

Quanto ao recorde de partidas pela seleção numa Copa do Mundo, o capitão disse que ele só terá sentido se o Brasil for campeão. "Um recorde perdedor não adianta nada'', justificou. Atualmente, ele e Taffarel estão empatados com Jairzinho, com 16 partidas disputadas em Mundiais.