| CRISE
REAL Fraga substitui
Lopes no Banco Central
FHC demite Francisco Lopes e fortalece
Pedro Malan no comando da economia; mercado recebe bem a
troca
Da Agência Folha
Brasília e São Paulo
O presidente Fernando Henrique Cardoso demitiu
Francisco Lopes da presidência do Banco Central,
escolheu Armínio Fraga Neto para substituí-lo e, com
isso, fortaleceu a posição do ministro Pedro Malan
(Fazenda) no governo.
Dois motivos levaram FHC a demitir o presidente do BC:
as divergências entre Chico Lopes e Malan sobre as
negociações com o FMI (Fundo Monetário Internacional)
e a fraca reação do Banco Central diante da ação dos
especuladores na última sexta-feira.
A favor do substituto, pesa a necessidade de colocar
um operador no comando do Banco Central. Ex-diretor do BC
e ligado ao megainvestidor internacional George Soros,
Fraga ingressa no governo com a missão de domar a alta
das cotações do dólar.
No Congresso, a principal voz de apoio à mudança no
BC foi a do presidente da Casa, o senador Antonio Carlos
Magalhães (PFL-BA). Já a oposição reagiu diante das
ligações de Fraga com Soros e quer convocá-lo a depor
no Senado.
A reação no mercado financeiro foi favorável à
indicação. O dólar teve baixa de 8,4% e fechou cotado
a R$ 1,75 (a valorização do real no dia foi de 8,9%). A
média ponderada do BC ficou em R$ 1,80.
Grande parte da reação, no entanto, foi atribuída
à medida do BC, anunciada na véspera, que permite aos
bancos aumentar de US$ 3,5 bilhões para US$ 55 bilhões
o limite de endividamento em dólar. Com isso, a oferta
de dólar é potencialmente maior.
Com a escolha de Fraga, perde espaço no governo a
corrente que defendia a tese desenvolvimentista. Essa
linha se insinuou com o vácuo criado nas últimas três
semanas, quando o governo deixou de sinalizar com clareza
a política econômica que seguiria.
A indústria recebeu bem a decisão do governo. O
Partido dos Trabalhadores, sindicalistas e o governador
de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), criticaram a
indicação. "O Brasil tem um novo ministro da
Fazenda, que é o Mr. Fischer (segundo na hierarquia do
FMI, que está no Brasil), e um novo presidente do Banco
Central, que é o dr. Soros", ironizou Itamar.
Administração da
política cambial causa troca, diz Malan
Shirley Emerick e
Vivaldo de Sousa
Da Agência Folha Brasília
O ministro Pedro Malan (Fazenda) anunciou ontem que a
substituição de Francisco Lopes por Armínio Fraga teve
o objetivo de tornar o Banco Central mais forte para
administrar a nova política cambial -que pressupõe
livre flutuação do dólar, com intervenções eventuais
do BC.
No comando do BC desde o último dia 13, Lopes, a
rigor, só presidiu formalmente a instituição por cinco
dias. Sua indicação foi aprovada pelo Senado no último
dia 28 e a posse só ocorreria no próximo dia 10. Fraga
assume para reforçar a ação do BC, cuja diretoria
será reformulada.
Malan afirmou que o presidente lhe pediu a indicação
de uma pessoa para ocupar a presidência do BC e o
escolhido foi Fraga, ex-diretor de Assuntos
Internacionais do BC e que vinha trabalhando com o
megainvestidor George Soros.
"Ele é um dos melhores economistas brasileiros e
havia decidido voltar ao Brasil nos próximos quatro
meses. Na verdade, já estava decidido que ele se
incorporaria à equipe econômica tão logo ele voltasse
ao país. O que nós estamos fazendo é antecipar em
alguns meses a vinda dele para o governo'' disse Malan,
para quem Fraga tem "total e absoluta afinidade''
com a equipe econômica.
O anúncio da mudança na direção do BC foi feito
pela manhã, por meio de uma nota à imprensa seguida de
uma entrevista do ministro. No texto, o Ministério da
Fazenda justifica que a reformulação está sendo feita
para reforçar a instituição por conta da mudança do
regime cambial.
Dentro da reformulação está também a mudança de
nomes de alguns dos atuais diretores. Malan disse que o
novo presidente do BC discutirá as sugestões com
Francisco Lopes e as encaminhará a ele e a FHC.
O ministro insistiu ainda, durante a entrevista, que a
equipe econômica manterá a atual política. Ontem
mesmo, Fraga já se incorporou ao governo como assessor
especial do ministro da Fazenda. Nessa condição, ele
participou das reuniões com a missão do FMI (Fundo
Monetário Internacional).
A nomeação de Fraga como assessor especial já foi
publicada na edição de ontem do "Diário Oficial''
da União. Assim, ele poderá participar da equipe
econômica até que seu nome seja indicado e depois
aprovado pelo Senado Federal para presidir o BC -cujo
comando ficará, em caráter interino, com o diretor de
Assuntos Internacionais, Demósthenes Madureira de Pinho
Neto.
Cargos à disposição
Na versão apresentada por Malan, ele e Lopes
colocaram os cargos à disposição do presidente
Fernando Henrique Cardoso logo após a primeira mudança
do regime cambial, no dia 13 de janeiro.
"Há vários dias, tanto eu quanto o presidente
do BC colocamos nossos cargos à disposição do
presidente da República, à luz do clima de tensões,
turbulências e incertezas, diante da adoção primeira
do regime que esteve em vigor por apenas dois dias'',
disse, referindo-se ao teto de R$ 1,32 para o dólar.
Segundo Malan, os primeiros dias do câmbio flutuante,
adotado a partir de 15 de janeiro, foram marcados por
incertezas por causa da grande desvalorização da moeda
-"flagrantes exageros'' que ocorreram
particularmente na sexta-feira passada, quando o dólar
chegou a ser cotado a R$ 2,15.
O ministro disse que FHC decidiu mantê-lo no
ministério, mas aceitou a demissão de Lopes, que
substituía Gustavo Franco, um dos pais intelectuais do
Plano Real e contrário às mudanças no câmbio.
"Formalizei esse pedido recentemente, e o presidente
não aceitou e insiste na minha permanência no cargo.
Como vocês sabem, eu sou um servidor público de
carreira, nunca fui outra coisa nem pretendo ser'',
disse.
Intervenção
Ontem, na primeira reunião da equipe com o
vice-diretor-gerente do FMI, Stanley Fischer, um dos
temas mais importantes foi a adoção de regras de
intervenção do BC no mercado de câmbio. Especialista
na área, Fraga deverá ter papel importante na
definição dessas regras.
O principal objetivo da missão técnica do FMI é
revisar algumas das metas previstas no acordo assinado no
final do ano passado com o Fundo e que permitiu ao Brasil
obter um empréstimo de US$ 41,5 bilhões. O governo já
tomou US$ 9,3 bilhões desse total.
A reformulação do acordo é necessária para que o
país possa sacar as demais parcelas do empréstimo. No
momento, o governo trabalha para concluir a revisão
dentro de 15 dais e, com isso, solicitar antecipadamente
a liberação da segunda parcela do empréstimo, no valor
de US$ 9 bilhões.
Troca fortalece Malan
Carlos Eduardo Lins da
Silva
Da Agência Folha Brasília
O ministro da Fazenda, Pedro Malan, é o grande
vitorioso político na substituição de Francisco Lopes
por Armínio Fraga Neto.
Sua posição no governo, abalada nos últimos 20 dias
pelos tropeços do real, está agora consolidada. Não
que Francisco Lopes e Malan fossem inimigos ou
divergissem sobre política econômica. O que houve entre
os dois foi um curto-circuito sobre como conduzir as
operações de câmbio e as negociações com o FMI
(Fundo Monetário Internacional).
Por exemplo, Lopes achava que não havia problemas no
fato de a desvalorização do real diante do dólar
disparar num primeiro momento (o
"overshooting"), pois a recuperação também
seria rápida.
Nos últimos quatro anos, devido à política de
bandas cambiais, o Banco Central não precisava de uma
mesa de câmbio agressiva. Foi esse o período em que
Lopes esteve no banco. Ele não tinha experiência em
mesa de operação.
Além disso, seu perfil era muito mais de formulador
teórico do que de "caçador" de mercados. Na
política de livre flutuação, Lopes não tinha
requisitos para ser eficiente.
A crise de confiança do público e dos mercados ficou
ostensiva na sexta-feira passada. Para restaurar a
credibilidade, era indispensável mudar a equipe
econômica.
A decisão de Fernando Henrique Cardoso de demitir
Lopes e quase toda a diretoria do Banco Central e manter
Malan na Fazenda tem a intenção de mostrar ao público
que o presidente se decidiu pela política econômica
mais ortodoxa, defendida por Malan, em oposição às
teses de outros economistas.
Nas últimas semanas, FHC vinha mandando mensagens
ambíguas sobre o que viria a fazer no futuro. O
presidente deu sinais de que estava preparando opções
defendidas pelos "desenvolvimentistas" do
ministério, defensores de diminuição mais rápida e
brusca das taxas de juros e, até, de alguma forma de
controle cambial. Agora, FHC parece ter, pelo menos por
enquanto, se definido.
A escolha de Fraga é outra vitória de Malan. Embora
o futuro presidente do Banco Central seja um dos
economistas preferidos de FHC, sua ligação com o
ministro da Fazenda é antiga e notória.
Fraga foi aluno de Malan no Rio. Quando fazia seu PhD
em Princeton (EUA), a tese de doutoramento de Malan
(sobre a inflação brasileira) era um de seus principais
pontos de referência teórica.
Malan foi um dos principais patrocinadores da ida de
Fraga para a Diretoria de Assuntos Internacionais do
Banco Central quando Marcílio Marques Moreira era
ministro da Economia (1991-92).
Nesse período, Malan era o negociador da dívida
externa do Brasil. Fraga trabalhava em contato bastante
próximo com ele. Em Brasília, na semana passada, Fraga
se hospedou na casa de Malan.
Lopes teve, nos últimos dias, algumas conversas com o
ministro da Saúde, José Serra, o principal economista
do governo com propostas diferentes das de Malan para o
país e sempre considerado um de seus eventuais
sucessores.
Mesmo que essas conversas não tivessem caráter
conspiratório (e nada indica que tenham tido), elas
ajudavam a fomentar a impressão de que FHC aprovava a
convergência de forças no governo em torno de
alternativas a Malan.
Essa impressão se reforçava pelo fato de que o
presidente do Banco do Brasil, Andrea Calabi (aliado
histórico de Serra), tinha, pela sua própria
condição, acesso às decisões da mesa de câmbio do
BC.
Agora, o presidente deu um apoio a Malan que, pelo
menos por algum tempo, dissipa as dúvidas sobre seu grau
de comprometimento efetivo com o ministro.
Além disso, Fraga também é um dos prediletos do
presidente do Congresso, Antonio Carlos Magalhães, que,
por causa de sua presença no time, vai redobrar o apoio
a Malan e sua equipe.
Dólar desaba e fecha
a R$ 1,75
Da Agência Folha
São Paulo
O dólar aprofundou, ontem, a queda iniciada na
segunda-feira em relação ao real.
No câmbio comercial, a moeda fechou a R$ 1,75, com
forte baixa de 8,4%. Com isso, a valorização acumulada
do dólar desde a mudança da política cambial foi bem
reduzida. No ápice da valorização, o dólar chegou a
acumular alta de 73,41% na sexta-feira passada, quando a
moeda fechou a R$ 2,10.
No fechamento de ontem, a valorização acumulada era
bem inferior, de 44,51%. Pela média do BC, o dólar
ficou em R$ 1,80, com desvalorização de 8,6% em
relação à média anterior.
Dois foram os fatores que favoreceram a alta do real.
A indicação do economista Armínio Fraga para a
presidência do BC animou os operadores, que andavam
decepcionados com a atuação de Francisco Lopes à
frente da instituição.
A percepção é de que Fraga saberá atuar para
reduzir a volatilidade das últimas semanas.
A decisão do governo de aumentar o limite de
posições "vendidas" em dólar dos bancos,
anunciada na segunda, ajudou a aumentar a oferta da
moeda.
Alguns especialistas acreditam que, sem essa medida, o
dólar cederia bem menos, fechando ao redor de R$ 1,85.
Aumentar o limite de posições "vendidas"
significa dar maior liberdade para que os bancos vendam
um dólar que ainda não possuem.
Esse limite foi ampliado de US$ 3,5 bilhões para US$
55 bilhões, no conjunto de todas as instituições.
Essa posição "vendida" pode ser coberta
pela obtenção de linhas de crédito em dólar no
exterior ou pela compra de dólares no mercado futuro,
por exemplo.
Conforme era previsto, a calmaria no câmbio permitiu
que o governo mantivesse o juro do over -mercado de juros
de um dia- em 39% ao ano, interrompendo a política de
puxar a taxa em 1,5 ponto percentual ao dia.
No mercado futuro, a projeção de juro para fevereiro
baixou de 52,28% para 46,66%.
A Bolsa de Valores de São Paulo fechou ontem em queda
de 1,79%. Apesar disso, o desempenho das principais
ações foi considerado positivo pelos operadores, já
que a queda foi inferior à desvalorização do dólar no
dia.
O índice Nikkei, da Bolsa de Valores de Tóquio,
fechou em queda de 0,8%. O índice Dow Jones, da Bolsa de
Valores de Nova York, caiu 0,77%. Em Londres, o índice
Financial Times - 100 teve alta de 0,01%. Na Argentina, o
índice Merval da Bolsa de Buenos Aires teve
valorização de 1,01%. A taxa libor (prazo de seis
meses) fechou a 4,87% ao ano.
Fraga
já administrou desvalorização da moeda em 91
Chico Santos
Da Agência Folha Rio
Esta não é a primeira conjuntura de desvalorização
cambial que o carioca Armínio Fraga Neto, 41, vive como
dirigente do Banco Central. Em novembro de 1991, na
condição de diretor da área externa do banco, ele
administrou uma desvalorização de aproximadamente 15%.
Administrou bem, segundo a visão de analistas daquele
momento, a começar pelo então ministro da Economia,
Marcílio Marques Moreira. Segundo o ex-ministro, a
gestão de Fraga permitiu que o dólar paralelo caísse
de um ágio (sobrepreço) de 100% sobre o oficial para um
deságio de 5%.
Na época, o governo elevou a taxa de juros real
(acima da inflação) para cerca de 40% ao ano e
conseguiu evitar que a inflação, já na casa dos 20% ao
mês, escapasse completamente do controle.
De acordo com Moreira, a condução de Fraga permitiu
que o Brasil tivesse sete meses seguidos de fluxo cambial
positivo em US$ 2 bilhões ao mês, formando um
"colchão" que deu ao país tranquilidade para
atravessar a turbulência do processo de impeachment do
ex-presidente Fernando Collor de Mello (1992).
Teria sido também esse "colchão", segundo
Moreira, a base para que o Brasil formasse as reservas
necessárias para criar o Plano Real lastreado em uma
âncora cambial que sobreviveu até o dia 13 de janeiro
passado.
A boa condução de Fraga é também ratificada pelo
ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas, que
não foi contemporâneo do novo presidente do BC na
instituição.
Freitas considera Fraga um emérito operador e avalia
que ele repetirá agora seu sucesso do passado,
especialmente colocando os juros em um patamar
definitivo, que dê segurança ao mercado em relação à
política monetária do governo.
Já o editor da revista "Conjuntura
Econômica", da FGV (Fundação Getúlio Vargas),
Lauro Vieira de Faria, não despreza o mérito de Fraga
na mididesvalorização de 91, mas ressalta:
"Naquela época era mais fácil. Foi só elevar um
pouco o patamar da inflação e seguir em frente",
disse.
Além de gestor da midi de 91, Fraga é lembrado na
sua passagem pelo BC como o homem que intensificou o
processo de desregulamentação dos fluxos de capitais
estrangeiros no país e como uma das três pernas do
triunvirato que conduziu a bem-sucedida renegociação da
dívida externa brasileira.
As outras duas eram o atual ministro da Fazenda, Pedro
Malan, e o embaixador Jório Dauster, um dos nomes que
foram cotados para assumir o recém-criado Ministério do
Desenvolvimento.
O reencontro de Fraga com Malan é particularmente
feliz para o ministro, na avaliação do banqueiro Luiz
César Fernandes, do banco Pactual.
As idéias liberais de Malan ganham o reforço
importante do homem que, por exemplo, criou o chamado
anexo 4, que facilitou o ingresso de capital estrangeiro
no mercado de capitais brasileiro.
O que é mérito para alguns é mau sinal para a
economista e ex-deputada federal (PT) Maria da
Conceição Tavares. Em repouso de uma recente
operação, ela disparou no seu estilo cáustico:
"Entregaram o galinheiro à raposa".
A crítica é tanto pela atuação liberalizante ao
capital estrangeiro de Fraga como pela sua última
colocação no mercado, nada menos que o posto de
administrador do fundo de investimentos de George Soros,
o megainvestidor húngaro naturalizado norte-americano.
Como operador de Soros, Fraga teria atuado em mercados
que vieram sucessivamente sucumbindo a ataques
especulativos internacionais, como o México, a
Tailândia, a Coréia do Sul, a Indonésia, a Rússia e,
muito provavelmente, o Brasil.
Para o economista José Márcio Camargo, que já
colaborou na formulação de programas do PT, essa
analogia com a história da raposa e do galinheiro
"é uma visão inocente e desprovida de qualquer
sentido".
Na sua opinião, é melhor ter ao lado alguém que já
trabalhou para o inimigo e que sabe como agir em
relação a ele.
Camargo, que foi professor de Fraga na PUC-RJ
(Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) no
início dos anos 80, ressalva que Soros não é
necessariamente um inimigo do Brasil.
Foi também na PUC-RJ que Fraga teve aulas de economia
com Francisco Lopes, o homem a quem agora substitui no
BC.
Segundo a economista Elena Landau, amiga do novo
presidente do BC desde os tempos do Colégio Santo
Inácio, em Botafogo (zona sul do Rio), ambos eram
admiradores fervorosos de Lopes. Landau chegou a ser
assistente do ex-presidente do BC, na empresa
Macrométrica.
Vindo de uma família tradicional de médicos -o pai,
Francisco Fraga, foi um dos dermatologistas mais
conceituados do Rio-, Fraga sempre quis ser economista e
até convenceu a amiga Landau a abraçar a carreira,
quando ela pensava em estudar matemática.
Considerado um aluno brilhante, Fraga já assistia a
algumas cadeiras de mestrado quando ainda fazia seu
bacharelado na PUC.
O doutorado foi feito na universidade de Princeton
(EUA), onde sofreu influência do economista William
Branson e se dedicou especialmente ao estudo de economia
internacional.
O novo presidente do Banco Central é casado e tem
dois filhos. É cunhado de outra recente aquisição do
governo brasileiro, o economista José Carlos Osório,
que acaba de assumir a diretoria da área de
privatizações do BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social).
No campo profissional, Fraga e Osório ostentam em
comum o fato de terem passado pelo antigo Banco Garantia,
recentemente comprado pelo Crédit Suisse First Boston.
Osório, especialista em investimentos, é considerado
o organizador do escritório do Garantia em Nova York,
onde Fraga se estabeleceu trabalhando para Soros.
Entre os amigos, Armínio Fraga Neto é considerado
uma boa companhia, exímio contador de piadas. Torce pelo
Fluminense, mas o futebol não é seu forte nos esportes.
Quem o conhece de perto nos Estados Unidos afirma que ele
é um exímio jogador de golfe.
Conheça
o prefil do megainvestidor George Soros
Adriana Bruno
Da Agência Folha São Paulo
Um dos homens mais ricos do mundo (com uma fortuna
pessoal avaliada em US$ 2 bilhões), o megainvestidor
George Soros administra cerca de US$ 20 bilhões em
fundos, quantia superior ao PIB (Produto Interno Bruto)
de muitos países, como Guatemala (US$ 14,48 bilhões),
El Salvador (US$ 9,47 bilhões) e Honduras (US$ 3,93
bilhões) -dados de 97.
Também conhecido pela sua filantropia, destina a
países do Leste Europeu, anualmente, cerca de US$ 300
milhões por meio da Soros Foundation, administrada por
ele.
Quantia semelhante é destinada a programas de combate
às drogas e de melhoria da qualidade de ensino em
várias regiões dos Estados Unidos, país que escolheu
para viver em 1956.
Nascido numa família judia de Budapeste (Hungria) em
1930, sobreviveu à perseguição nazista e migrou para a
Inglaterra em 1947, onde estudou economia.
Mudou-se para Nova York (EUA) em 1956 e se naturalizou
norte-americano. Nos Estados Unidos, pôde exercer seu
pensamento liberal, sendo um ativo partidário da
economia de mercado.
Em 1969, criou o Quantum, uma teia de fundos que
negocia ações, títulos e commodities em diversos
mercados mundiais. No ano passado, o fundo gerenciava
mais de US$ 10 bilhões.
No total, os oito fundos administrados pela Soros Fund
Management somam investimentos de US$ 21 bilhões e
investem na maioria dos mercados do mundo.
O Quantum é um dos "hedge funds" (fundos de
investimento de alto risco) com maior rentabilidade em
todo o mundo -cerca de 20% no ano passado. Alguém que
houvesse aplicado US$ 1.000 na fundação teria recebido
até hoje mais de US$ 2 bilhões.
Soros mostrou-se um excelente apostador. Em setembro
de 1992, apostou que a libra britânica cairia. Jogou US$
10 bilhões.
O banco central britânico tentou proteger sua moeda,
mas acabou jogando a toalha. A queda forçou a libra a
sair do sistema monetário europeu. Soros ganhou US$ 1
bilhão e o epíteto de "o homem que quebrou o Banco
da Inglaterra".
Mas o mago das finanças também comete erros. Em
1994, o Fundo Quantum apostou US$ 8 bilhões na queda do
iene japonês. Perdeu US$ 600 milhões.
Embora houvesse predito a queda do rublo russo, no ano
passado, também teve perdas que chegaram a US$ 2
bilhões com a crise no país, distribuídas por seus
oito fundos.
Soros atua no Brasil desde 1987, por meio do Banco
Pactual, que administra seus investimentos.
Soros tem participação indireta na incorporadora
imobiliária Brazil Realty e no Centro Têxtil
Internacional, além de operar com títulos de renda fixa
e de ações por meio do fundo de investimentos Quantum.
O interesse do megainvestidor pela América Latina
concentra-se também na Argentina, sendo considerado o
maior latifundiário do país e dono de todos os shopping
centers de Buenos Aires.
Em julho do ano passado, Soros comprou, por US$ 80
milhões, o último shopping que não estava em suas
mãos, o Pátio Bullrich, considerado o mais luxuoso da
capital argentina, com 10 mil metros quadrados, cem lojas
e faturamento anual de cerca de US$ 120 milhões.
Num ato filantrópico polêmico, Soros doou, em agosto
de 1997, US$ 1 milhão em agulhas para viciados em
heroína e cocaína, que correm o risco de contrair Aids
e outras doenças por compartilharem as mesmas seringas.
"Já fumei maconha, já cheirei, e gostei muito.
Mas o prazer diminuía com o uso repetido", declarou
na época.
Proporcionalmente a todo o dinheiro que possui, Soros
vive com pouco luxo, dirigindo uma velha Mercedes, sem
avião particular e até mesmo sem comprar roupas. Essa
tarefa cabe à sua mulher.
É autor de alguns livros, entre eles "A Crise do
Capitalismo Global" e "Soros Sobre Soros -
Acima da Média", uma autobiografia em que o
multimilionário se define como "um estadista sem
Estado".
Seu mais recente projeto filantrópico, previsto para
durar até o ano de 2001, é a doação de US$ 25
milhões para o tratamento de dependentes de drogas e o
desenvolvimento econômico e social de Baltimore (EUA).
Para os que acusam sua filantropia de ocultar segundas
intenções, Soros responde: "Acho que suas
suspeitas são justificadas, porque não se deve confiar
em pessoas como eu."
Fundo
administrado por Fraga afundou
Marcelo Diego
Da Agência Folha Nova York
O novo presidente indicado para o Banco Central,
Armínio Fraga, tinha sido contratado pelo maior
especulador do planeta, George Soros, para administrar
uma carteira de investimentos na América Latina e nos
países emergentes.
O fundo teve uma performance desastrada no ano passado
e acabou tendo que ser fundido a outras carteiras de
investimentos.
Fraga foi contratado em agosto de 1993 para o cargo de
diretor-gerente do Soros Fund Management, no escritório
de Nova York (EUA).
Ele era responsável pelo gerenciamento de fundos de
alto risco e de toda sorte de investimentos nos países
emergentes.
O grupo de Soros trabalha hoje com cerca de US$ 21,5
bilhões, segundo a própria assessoria de imprensa do
grupo.
Fraga foi trabalhar com o Quantum Emerging Growth Fund
(Fundo Quantum de Crescimento Emergente), lançado em
1992.
Seu salário não foi divulgado, mas ele apareceu na
lista dos cem executivos mais bem pagos de Nova York ao
final de 1997 (cinco outros brasileiros faziam parte do
seleto grupo).
A lista só traz os nomes dos executivos que ganham
mais de US$ 700 mil por ano.
Apostando em investimentos diversificados,
principalmente no mercado asiático, Fraga conseguiu dar
lucro para o investidor George Soros nos primeiros três
anos. Ele teria recebido um bônus de US$ 25 milhões
como participação nos lucros realizados.
No último ano, o fundo começou a ter problemas.
Primeiro pela grande exposição aos mercados asiáticos
e russo. Somente na Rússia, Soros perdeu US$ 2 bilhões.
Depois, por causa da crise de credibilidade que
atingiu os "hedge funds" (fundos agressivos),
após o colapso do Long-Term Capital Management, um dos
mais conceituados do mercado, no ano passado.
Em 1998, o valor de estoque do Quantum Emerging Growth
Fund fechou em US$ 1,5 bilhão, uma queda de 31% ao longo
do ano.
Soros decidiu então juntar o fundo a outras carteiras
de investimentos (como o Quantum Realty Fund), diminuindo
o poder de Fraga dentro da organização.
Segundo um porta-voz do Soros Fund, a decisão de
extinguir a autonomia do fundo não foi baseada em sua
má performance, mas sim como uma opção para consolidar
os investimentos oferecidos aos clientes.
Fraga teria pedido demissão a Soros no começo do
mês. Até ontem, sua mensagem eletrônica (em português
e inglês) ainda atendia na secretária eletrônica de
seu escritório, localizado no 33º andar de um edifício
empresarial em Nova York.
Entre seus colegas de trabalho, ele tinha o apelido de
"patriota", porque sempre apoiava as medidas
econômicas do governo federal e dizia que o país estava
no caminho certo.
Apesar de trabalhar em Manhattan, Fraga morava em um
subúrbio de Nova Jersey. Ele era membro da diretoria da
Câmara de Comércio Brasil-EUA.
Fraga também era professor-adjunto de finanças
internacionais da Universidade de Columbia. Ele
substituía o titular Robert Johnson na sala 501 IAB.
Entre os livros escolhidos pelos professores para
orientar seus alunos estavam os do economista Paul
Krugman e "World Economic Outlook", um
compêndio de estatísticas organizadas pelo FMI (Fundo
Monetário Internacional).
FHC
diz que país voltará a crescer
William França
Da Agência Folha Brasília
O porta-voz da Presidência, Sergio Amaral, disse
ontem que o presidente Fernando Henrique Cardoso
"tem a consciência de que, passado esse momento de
transição'', o país terá se "libertado de duas
hipotecas que vinham freando o crescimento do país'',
que seriam o câmbio valorizado e uma situação fiscal
que necessitava de correções.
A manutenção do valor do real em relação ao
dólar, agora chamado de "hipoteca", foi uma
das principais promessas da campanha reeleitoral de FHC.
Ao comentar o estado de espírito do presidente, após
a segunda mudança no comando da economia, Amaral afirmou
que FHC "está bem, atento e tem consciência de que
está fazendo o bem para o país''.
Amaral rechaçou críticas sobre as ligações do
presidente indicado para o Banco Central, Armínio Fraga,
com o megainvestidor George Soros.
"Acho que é difícil nós irmos buscar um
diretor ou presidente do Banco Central num consultório
clínico ou num escritório de advocacia. Felizmente as
pessoas mais competentes para desempenhar uma função na
área financeira são aquelas que trabalham no mercado
financeiro'', afirmou o porta-voz.
Amaral disse, várias vezes, que o país vive "um
período de incertezas'' e que mudanças como as feitas
ontem no comando do BC são uma mostra de que "o
governo tem a obrigação de agir''. "Se o mercado
muda, o governo tem de avaliar o que é melhor para o
país.''
O porta-voz disse que a decisão de substituir
Francisco Lopes por Armínio Fraga Neto foi tomada ontem,
depois de ser avaliada por FHC durante o fim-de-semana.
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