CRISE REAL

Fraga substitui Lopes no Banco Central

FHC demite Francisco Lopes e fortalece Pedro Malan no comando da economia; mercado recebe bem a troca

Da Agência Folha – Brasília e São Paulo

O presidente Fernando Henrique Cardoso demitiu Francisco Lopes da presidência do Banco Central, escolheu Armínio Fraga Neto para substituí-lo e, com isso, fortaleceu a posição do ministro Pedro Malan (Fazenda) no governo.

Dois motivos levaram FHC a demitir o presidente do BC: as divergências entre Chico Lopes e Malan sobre as negociações com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e a fraca reação do Banco Central diante da ação dos especuladores na última sexta-feira.

A favor do substituto, pesa a necessidade de colocar um operador no comando do Banco Central. Ex-diretor do BC e ligado ao megainvestidor internacional George Soros, Fraga ingressa no governo com a missão de domar a alta das cotações do dólar.

No Congresso, a principal voz de apoio à mudança no BC foi a do presidente da Casa, o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Já a oposição reagiu diante das ligações de Fraga com Soros e quer convocá-lo a depor no Senado.

A reação no mercado financeiro foi favorável à indicação. O dólar teve baixa de 8,4% e fechou cotado a R$ 1,75 (a valorização do real no dia foi de 8,9%). A média ponderada do BC ficou em R$ 1,80.

Grande parte da reação, no entanto, foi atribuída à medida do BC, anunciada na véspera, que permite aos bancos aumentar de US$ 3,5 bilhões para US$ 55 bilhões o limite de endividamento em dólar. Com isso, a oferta de dólar é potencialmente maior.

Com a escolha de Fraga, perde espaço no governo a corrente que defendia a tese desenvolvimentista. Essa linha se insinuou com o vácuo criado nas últimas três semanas, quando o governo deixou de sinalizar com clareza a política econômica que seguiria.

A indústria recebeu bem a decisão do governo. O Partido dos Trabalhadores, sindicalistas e o governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), criticaram a indicação. "O Brasil tem um novo ministro da Fazenda, que é o Mr. Fischer (segundo na hierarquia do FMI, que está no Brasil), e um novo presidente do Banco Central, que é o dr. Soros", ironizou Itamar.


Administração da política cambial causa troca, diz Malan

Shirley Emerick e Vivaldo de Sousa
Da Agência Folha – Brasília

O ministro Pedro Malan (Fazenda) anunciou ontem que a substituição de Francisco Lopes por Armínio Fraga teve o objetivo de tornar o Banco Central mais forte para administrar a nova política cambial -que pressupõe livre flutuação do dólar, com intervenções eventuais do BC.

No comando do BC desde o último dia 13, Lopes, a rigor, só presidiu formalmente a instituição por cinco dias. Sua indicação foi aprovada pelo Senado no último dia 28 e a posse só ocorreria no próximo dia 10. Fraga assume para reforçar a ação do BC, cuja diretoria será reformulada.

Malan afirmou que o presidente lhe pediu a indicação de uma pessoa para ocupar a presidência do BC e o escolhido foi Fraga, ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC e que vinha trabalhando com o megainvestidor George Soros.

"Ele é um dos melhores economistas brasileiros e havia decidido voltar ao Brasil nos próximos quatro meses. Na verdade, já estava decidido que ele se incorporaria à equipe econômica tão logo ele voltasse ao país. O que nós estamos fazendo é antecipar em alguns meses a vinda dele para o governo'' disse Malan, para quem Fraga tem "total e absoluta afinidade'' com a equipe econômica.

O anúncio da mudança na direção do BC foi feito pela manhã, por meio de uma nota à imprensa seguida de uma entrevista do ministro. No texto, o Ministério da Fazenda justifica que a reformulação está sendo feita para reforçar a instituição por conta da mudança do regime cambial.

Dentro da reformulação está também a mudança de nomes de alguns dos atuais diretores. Malan disse que o novo presidente do BC discutirá as sugestões com Francisco Lopes e as encaminhará a ele e a FHC.

O ministro insistiu ainda, durante a entrevista, que a equipe econômica manterá a atual política. Ontem mesmo, Fraga já se incorporou ao governo como assessor especial do ministro da Fazenda. Nessa condição, ele participou das reuniões com a missão do FMI (Fundo Monetário Internacional).

A nomeação de Fraga como assessor especial já foi publicada na edição de ontem do "Diário Oficial'' da União. Assim, ele poderá participar da equipe econômica até que seu nome seja indicado e depois aprovado pelo Senado Federal para presidir o BC -cujo comando ficará, em caráter interino, com o diretor de Assuntos Internacionais, Demósthenes Madureira de Pinho Neto.

Cargos à disposição

Na versão apresentada por Malan, ele e Lopes colocaram os cargos à disposição do presidente Fernando Henrique Cardoso logo após a primeira mudança do regime cambial, no dia 13 de janeiro.

"Há vários dias, tanto eu quanto o presidente do BC colocamos nossos cargos à disposição do presidente da República, à luz do clima de tensões, turbulências e incertezas, diante da adoção primeira do regime que esteve em vigor por apenas dois dias'', disse, referindo-se ao teto de R$ 1,32 para o dólar.

Segundo Malan, os primeiros dias do câmbio flutuante, adotado a partir de 15 de janeiro, foram marcados por incertezas por causa da grande desvalorização da moeda -"flagrantes exageros'' que ocorreram particularmente na sexta-feira passada, quando o dólar chegou a ser cotado a R$ 2,15.

O ministro disse que FHC decidiu mantê-lo no ministério, mas aceitou a demissão de Lopes, que substituía Gustavo Franco, um dos pais intelectuais do Plano Real e contrário às mudanças no câmbio. "Formalizei esse pedido recentemente, e o presidente não aceitou e insiste na minha permanência no cargo. Como vocês sabem, eu sou um servidor público de carreira, nunca fui outra coisa nem pretendo ser'', disse.

Intervenção

Ontem, na primeira reunião da equipe com o vice-diretor-gerente do FMI, Stanley Fischer, um dos temas mais importantes foi a adoção de regras de intervenção do BC no mercado de câmbio. Especialista na área, Fraga deverá ter papel importante na definição dessas regras.

O principal objetivo da missão técnica do FMI é revisar algumas das metas previstas no acordo assinado no final do ano passado com o Fundo e que permitiu ao Brasil obter um empréstimo de US$ 41,5 bilhões. O governo já tomou US$ 9,3 bilhões desse total.

A reformulação do acordo é necessária para que o país possa sacar as demais parcelas do empréstimo. No momento, o governo trabalha para concluir a revisão dentro de 15 dais e, com isso, solicitar antecipadamente a liberação da segunda parcela do empréstimo, no valor de US$ 9 bilhões.


Troca fortalece Malan

Carlos Eduardo Lins da Silva
Da Agência Folha – Brasília

O ministro da Fazenda, Pedro Malan, é o grande vitorioso político na substituição de Francisco Lopes por Armínio Fraga Neto.

Sua posição no governo, abalada nos últimos 20 dias pelos tropeços do real, está agora consolidada. Não que Francisco Lopes e Malan fossem inimigos ou divergissem sobre política econômica. O que houve entre os dois foi um curto-circuito sobre como conduzir as operações de câmbio e as negociações com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Por exemplo, Lopes achava que não havia problemas no fato de a desvalorização do real diante do dólar disparar num primeiro momento (o "overshooting"), pois a recuperação também seria rápida.

Nos últimos quatro anos, devido à política de bandas cambiais, o Banco Central não precisava de uma mesa de câmbio agressiva. Foi esse o período em que Lopes esteve no banco. Ele não tinha experiência em mesa de operação.

Além disso, seu perfil era muito mais de formulador teórico do que de "caçador" de mercados. Na política de livre flutuação, Lopes não tinha requisitos para ser eficiente.

A crise de confiança do público e dos mercados ficou ostensiva na sexta-feira passada. Para restaurar a credibilidade, era indispensável mudar a equipe econômica.

A decisão de Fernando Henrique Cardoso de demitir Lopes e quase toda a diretoria do Banco Central e manter Malan na Fazenda tem a intenção de mostrar ao público que o presidente se decidiu pela política econômica mais ortodoxa, defendida por Malan, em oposição às teses de outros economistas.

Nas últimas semanas, FHC vinha mandando mensagens ambíguas sobre o que viria a fazer no futuro. O presidente deu sinais de que estava preparando opções defendidas pelos "desenvolvimentistas" do ministério, defensores de diminuição mais rápida e brusca das taxas de juros e, até, de alguma forma de controle cambial. Agora, FHC parece ter, pelo menos por enquanto, se definido.

A escolha de Fraga é outra vitória de Malan. Embora o futuro presidente do Banco Central seja um dos economistas preferidos de FHC, sua ligação com o ministro da Fazenda é antiga e notória.

Fraga foi aluno de Malan no Rio. Quando fazia seu PhD em Princeton (EUA), a tese de doutoramento de Malan (sobre a inflação brasileira) era um de seus principais pontos de referência teórica.

Malan foi um dos principais patrocinadores da ida de Fraga para a Diretoria de Assuntos Internacionais do Banco Central quando Marcílio Marques Moreira era ministro da Economia (1991-92).

Nesse período, Malan era o negociador da dívida externa do Brasil. Fraga trabalhava em contato bastante próximo com ele. Em Brasília, na semana passada, Fraga se hospedou na casa de Malan.

Lopes teve, nos últimos dias, algumas conversas com o ministro da Saúde, José Serra, o principal economista do governo com propostas diferentes das de Malan para o país e sempre considerado um de seus eventuais sucessores.

Mesmo que essas conversas não tivessem caráter conspiratório (e nada indica que tenham tido), elas ajudavam a fomentar a impressão de que FHC aprovava a convergência de forças no governo em torno de alternativas a Malan.

Essa impressão se reforçava pelo fato de que o presidente do Banco do Brasil, Andrea Calabi (aliado histórico de Serra), tinha, pela sua própria condição, acesso às decisões da mesa de câmbio do BC.

Agora, o presidente deu um apoio a Malan que, pelo menos por algum tempo, dissipa as dúvidas sobre seu grau de comprometimento efetivo com o ministro.

Além disso, Fraga também é um dos prediletos do presidente do Congresso, Antonio Carlos Magalhães, que, por causa de sua presença no time, vai redobrar o apoio a Malan e sua equipe.


Dólar desaba e fecha a R$ 1,75

Da Agência Folha – São Paulo

O dólar aprofundou, ontem, a queda iniciada na segunda-feira em relação ao real.

No câmbio comercial, a moeda fechou a R$ 1,75, com forte baixa de 8,4%. Com isso, a valorização acumulada do dólar desde a mudança da política cambial foi bem reduzida. No ápice da valorização, o dólar chegou a acumular alta de 73,41% na sexta-feira passada, quando a moeda fechou a R$ 2,10.

No fechamento de ontem, a valorização acumulada era bem inferior, de 44,51%. Pela média do BC, o dólar ficou em R$ 1,80, com desvalorização de 8,6% em relação à média anterior.

Dois foram os fatores que favoreceram a alta do real. A indicação do economista Armínio Fraga para a presidência do BC animou os operadores, que andavam decepcionados com a atuação de Francisco Lopes à frente da instituição.

A percepção é de que Fraga saberá atuar para reduzir a volatilidade das últimas semanas.

A decisão do governo de aumentar o limite de posições "vendidas" em dólar dos bancos, anunciada na segunda, ajudou a aumentar a oferta da moeda.

Alguns especialistas acreditam que, sem essa medida, o dólar cederia bem menos, fechando ao redor de R$ 1,85.

Aumentar o limite de posições "vendidas" significa dar maior liberdade para que os bancos vendam um dólar que ainda não possuem.

Esse limite foi ampliado de US$ 3,5 bilhões para US$ 55 bilhões, no conjunto de todas as instituições.

Essa posição "vendida" pode ser coberta pela obtenção de linhas de crédito em dólar no exterior ou pela compra de dólares no mercado futuro, por exemplo.

Conforme era previsto, a calmaria no câmbio permitiu que o governo mantivesse o juro do over -mercado de juros de um dia- em 39% ao ano, interrompendo a política de puxar a taxa em 1,5 ponto percentual ao dia.

No mercado futuro, a projeção de juro para fevereiro baixou de 52,28% para 46,66%.

A Bolsa de Valores de São Paulo fechou ontem em queda de 1,79%. Apesar disso, o desempenho das principais ações foi considerado positivo pelos operadores, já que a queda foi inferior à desvalorização do dólar no dia.

O índice Nikkei, da Bolsa de Valores de Tóquio, fechou em queda de 0,8%. O índice Dow Jones, da Bolsa de Valores de Nova York, caiu 0,77%. Em Londres, o índice Financial Times - 100 teve alta de 0,01%. Na Argentina, o índice Merval da Bolsa de Buenos Aires teve valorização de 1,01%. A taxa libor (prazo de seis meses) fechou a 4,87% ao ano.


Fraga já administrou desvalorização da moeda em 91

Chico Santos
Da Agência Folha – Rio

Esta não é a primeira conjuntura de desvalorização cambial que o carioca Armínio Fraga Neto, 41, vive como dirigente do Banco Central. Em novembro de 1991, na condição de diretor da área externa do banco, ele administrou uma desvalorização de aproximadamente 15%.

Administrou bem, segundo a visão de analistas daquele momento, a começar pelo então ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira. Segundo o ex-ministro, a gestão de Fraga permitiu que o dólar paralelo caísse de um ágio (sobrepreço) de 100% sobre o oficial para um deságio de 5%.

Na época, o governo elevou a taxa de juros real (acima da inflação) para cerca de 40% ao ano e conseguiu evitar que a inflação, já na casa dos 20% ao mês, escapasse completamente do controle.

De acordo com Moreira, a condução de Fraga permitiu que o Brasil tivesse sete meses seguidos de fluxo cambial positivo em US$ 2 bilhões ao mês, formando um "colchão" que deu ao país tranquilidade para atravessar a turbulência do processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello (1992).

Teria sido também esse "colchão", segundo Moreira, a base para que o Brasil formasse as reservas necessárias para criar o Plano Real lastreado em uma âncora cambial que sobreviveu até o dia 13 de janeiro passado.

A boa condução de Fraga é também ratificada pelo ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas, que não foi contemporâneo do novo presidente do BC na instituição.

Freitas considera Fraga um emérito operador e avalia que ele repetirá agora seu sucesso do passado, especialmente colocando os juros em um patamar definitivo, que dê segurança ao mercado em relação à política monetária do governo.

Já o editor da revista "Conjuntura Econômica", da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Lauro Vieira de Faria, não despreza o mérito de Fraga na mididesvalorização de 91, mas ressalta: "Naquela época era mais fácil. Foi só elevar um pouco o patamar da inflação e seguir em frente", disse.

Além de gestor da midi de 91, Fraga é lembrado na sua passagem pelo BC como o homem que intensificou o processo de desregulamentação dos fluxos de capitais estrangeiros no país e como uma das três pernas do triunvirato que conduziu a bem-sucedida renegociação da dívida externa brasileira.

As outras duas eram o atual ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o embaixador Jório Dauster, um dos nomes que foram cotados para assumir o recém-criado Ministério do Desenvolvimento.

O reencontro de Fraga com Malan é particularmente feliz para o ministro, na avaliação do banqueiro Luiz César Fernandes, do banco Pactual.

As idéias liberais de Malan ganham o reforço importante do homem que, por exemplo, criou o chamado anexo 4, que facilitou o ingresso de capital estrangeiro no mercado de capitais brasileiro.

O que é mérito para alguns é mau sinal para a economista e ex-deputada federal (PT) Maria da Conceição Tavares. Em repouso de uma recente operação, ela disparou no seu estilo cáustico: "Entregaram o galinheiro à raposa".

A crítica é tanto pela atuação liberalizante ao capital estrangeiro de Fraga como pela sua última colocação no mercado, nada menos que o posto de administrador do fundo de investimentos de George Soros, o megainvestidor húngaro naturalizado norte-americano.

Como operador de Soros, Fraga teria atuado em mercados que vieram sucessivamente sucumbindo a ataques especulativos internacionais, como o México, a Tailândia, a Coréia do Sul, a Indonésia, a Rússia e, muito provavelmente, o Brasil.

Para o economista José Márcio Camargo, que já colaborou na formulação de programas do PT, essa analogia com a história da raposa e do galinheiro "é uma visão inocente e desprovida de qualquer sentido".

Na sua opinião, é melhor ter ao lado alguém que já trabalhou para o inimigo e que sabe como agir em relação a ele.

Camargo, que foi professor de Fraga na PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) no início dos anos 80, ressalva que Soros não é necessariamente um inimigo do Brasil.

Foi também na PUC-RJ que Fraga teve aulas de economia com Francisco Lopes, o homem a quem agora substitui no BC.

Segundo a economista Elena Landau, amiga do novo presidente do BC desde os tempos do Colégio Santo Inácio, em Botafogo (zona sul do Rio), ambos eram admiradores fervorosos de Lopes. Landau chegou a ser assistente do ex-presidente do BC, na empresa Macrométrica.

Vindo de uma família tradicional de médicos -o pai, Francisco Fraga, foi um dos dermatologistas mais conceituados do Rio-, Fraga sempre quis ser economista e até convenceu a amiga Landau a abraçar a carreira, quando ela pensava em estudar matemática.

Considerado um aluno brilhante, Fraga já assistia a algumas cadeiras de mestrado quando ainda fazia seu bacharelado na PUC.

O doutorado foi feito na universidade de Princeton (EUA), onde sofreu influência do economista William Branson e se dedicou especialmente ao estudo de economia internacional.

O novo presidente do Banco Central é casado e tem dois filhos. É cunhado de outra recente aquisição do governo brasileiro, o economista José Carlos Osório, que acaba de assumir a diretoria da área de privatizações do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

No campo profissional, Fraga e Osório ostentam em comum o fato de terem passado pelo antigo Banco Garantia, recentemente comprado pelo Crédit Suisse First Boston.

Osório, especialista em investimentos, é considerado o organizador do escritório do Garantia em Nova York, onde Fraga se estabeleceu trabalhando para Soros.

Entre os amigos, Armínio Fraga Neto é considerado uma boa companhia, exímio contador de piadas. Torce pelo Fluminense, mas o futebol não é seu forte nos esportes. Quem o conhece de perto nos Estados Unidos afirma que ele é um exímio jogador de golfe.


Conheça o prefil do megainvestidor George Soros

Adriana Bruno
Da Agência Folha – São Paulo

Um dos homens mais ricos do mundo (com uma fortuna pessoal avaliada em US$ 2 bilhões), o megainvestidor George Soros administra cerca de US$ 20 bilhões em fundos, quantia superior ao PIB (Produto Interno Bruto) de muitos países, como Guatemala (US$ 14,48 bilhões), El Salvador (US$ 9,47 bilhões) e Honduras (US$ 3,93 bilhões) -dados de 97.

Também conhecido pela sua filantropia, destina a países do Leste Europeu, anualmente, cerca de US$ 300 milhões por meio da Soros Foundation, administrada por ele.

Quantia semelhante é destinada a programas de combate às drogas e de melhoria da qualidade de ensino em várias regiões dos Estados Unidos, país que escolheu para viver em 1956.

Nascido numa família judia de Budapeste (Hungria) em 1930, sobreviveu à perseguição nazista e migrou para a Inglaterra em 1947, onde estudou economia.

Mudou-se para Nova York (EUA) em 1956 e se naturalizou norte-americano. Nos Estados Unidos, pôde exercer seu pensamento liberal, sendo um ativo partidário da economia de mercado.

Em 1969, criou o Quantum, uma teia de fundos que negocia ações, títulos e commodities em diversos mercados mundiais. No ano passado, o fundo gerenciava mais de US$ 10 bilhões.

No total, os oito fundos administrados pela Soros Fund Management somam investimentos de US$ 21 bilhões e investem na maioria dos mercados do mundo.

O Quantum é um dos "hedge funds" (fundos de investimento de alto risco) com maior rentabilidade em todo o mundo -cerca de 20% no ano passado. Alguém que houvesse aplicado US$ 1.000 na fundação teria recebido até hoje mais de US$ 2 bilhões.

Soros mostrou-se um excelente apostador. Em setembro de 1992, apostou que a libra britânica cairia. Jogou US$ 10 bilhões.

O banco central britânico tentou proteger sua moeda, mas acabou jogando a toalha. A queda forçou a libra a sair do sistema monetário europeu. Soros ganhou US$ 1 bilhão e o epíteto de "o homem que quebrou o Banco da Inglaterra".

Mas o mago das finanças também comete erros. Em 1994, o Fundo Quantum apostou US$ 8 bilhões na queda do iene japonês. Perdeu US$ 600 milhões.

Embora houvesse predito a queda do rublo russo, no ano passado, também teve perdas que chegaram a US$ 2 bilhões com a crise no país, distribuídas por seus oito fundos.

Soros atua no Brasil desde 1987, por meio do Banco Pactual, que administra seus investimentos.

Soros tem participação indireta na incorporadora imobiliária Brazil Realty e no Centro Têxtil Internacional, além de operar com títulos de renda fixa e de ações por meio do fundo de investimentos Quantum.

O interesse do megainvestidor pela América Latina concentra-se também na Argentina, sendo considerado o maior latifundiário do país e dono de todos os shopping centers de Buenos Aires.

Em julho do ano passado, Soros comprou, por US$ 80 milhões, o último shopping que não estava em suas mãos, o Pátio Bullrich, considerado o mais luxuoso da capital argentina, com 10 mil metros quadrados, cem lojas e faturamento anual de cerca de US$ 120 milhões.

Num ato filantrópico polêmico, Soros doou, em agosto de 1997, US$ 1 milhão em agulhas para viciados em heroína e cocaína, que correm o risco de contrair Aids e outras doenças por compartilharem as mesmas seringas.

"Já fumei maconha, já cheirei, e gostei muito. Mas o prazer diminuía com o uso repetido", declarou na época.

Proporcionalmente a todo o dinheiro que possui, Soros vive com pouco luxo, dirigindo uma velha Mercedes, sem avião particular e até mesmo sem comprar roupas. Essa tarefa cabe à sua mulher.

É autor de alguns livros, entre eles "A Crise do Capitalismo Global" e "Soros Sobre Soros - Acima da Média", uma autobiografia em que o multimilionário se define como "um estadista sem Estado".

Seu mais recente projeto filantrópico, previsto para durar até o ano de 2001, é a doação de US$ 25 milhões para o tratamento de dependentes de drogas e o desenvolvimento econômico e social de Baltimore (EUA).

Para os que acusam sua filantropia de ocultar segundas intenções, Soros responde: "Acho que suas suspeitas são justificadas, porque não se deve confiar em pessoas como eu."


Fundo administrado por Fraga afundou

Marcelo Diego
Da Agência Folha – Nova York

O novo presidente indicado para o Banco Central, Armínio Fraga, tinha sido contratado pelo maior especulador do planeta, George Soros, para administrar uma carteira de investimentos na América Latina e nos países emergentes.

O fundo teve uma performance desastrada no ano passado e acabou tendo que ser fundido a outras carteiras de investimentos.

Fraga foi contratado em agosto de 1993 para o cargo de diretor-gerente do Soros Fund Management, no escritório de Nova York (EUA).

Ele era responsável pelo gerenciamento de fundos de alto risco e de toda sorte de investimentos nos países emergentes.

O grupo de Soros trabalha hoje com cerca de US$ 21,5 bilhões, segundo a própria assessoria de imprensa do grupo.

Fraga foi trabalhar com o Quantum Emerging Growth Fund (Fundo Quantum de Crescimento Emergente), lançado em 1992.

Seu salário não foi divulgado, mas ele apareceu na lista dos cem executivos mais bem pagos de Nova York ao final de 1997 (cinco outros brasileiros faziam parte do seleto grupo).

A lista só traz os nomes dos executivos que ganham mais de US$ 700 mil por ano.

Apostando em investimentos diversificados, principalmente no mercado asiático, Fraga conseguiu dar lucro para o investidor George Soros nos primeiros três anos. Ele teria recebido um bônus de US$ 25 milhões como participação nos lucros realizados.

No último ano, o fundo começou a ter problemas. Primeiro pela grande exposição aos mercados asiáticos e russo. Somente na Rússia, Soros perdeu US$ 2 bilhões.

Depois, por causa da crise de credibilidade que atingiu os "hedge funds" (fundos agressivos), após o colapso do Long-Term Capital Management, um dos mais conceituados do mercado, no ano passado.

Em 1998, o valor de estoque do Quantum Emerging Growth Fund fechou em US$ 1,5 bilhão, uma queda de 31% ao longo do ano.

Soros decidiu então juntar o fundo a outras carteiras de investimentos (como o Quantum Realty Fund), diminuindo o poder de Fraga dentro da organização.

Segundo um porta-voz do Soros Fund, a decisão de extinguir a autonomia do fundo não foi baseada em sua má performance, mas sim como uma opção para consolidar os investimentos oferecidos aos clientes.

Fraga teria pedido demissão a Soros no começo do mês. Até ontem, sua mensagem eletrônica (em português e inglês) ainda atendia na secretária eletrônica de seu escritório, localizado no 33º andar de um edifício empresarial em Nova York.

Entre seus colegas de trabalho, ele tinha o apelido de "patriota", porque sempre apoiava as medidas econômicas do governo federal e dizia que o país estava no caminho certo.

Apesar de trabalhar em Manhattan, Fraga morava em um subúrbio de Nova Jersey. Ele era membro da diretoria da Câmara de Comércio Brasil-EUA.

Fraga também era professor-adjunto de finanças internacionais da Universidade de Columbia. Ele substituía o titular Robert Johnson na sala 501 IAB. Entre os livros escolhidos pelos professores para orientar seus alunos estavam os do economista Paul Krugman e "World Economic Outlook", um compêndio de estatísticas organizadas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).


FHC diz que país voltará a crescer

William França
Da Agência Folha – Brasília

O porta-voz da Presidência, Sergio Amaral, disse ontem que o presidente Fernando Henrique Cardoso "tem a consciência de que, passado esse momento de transição'', o país terá se "libertado de duas hipotecas que vinham freando o crescimento do país'', que seriam o câmbio valorizado e uma situação fiscal que necessitava de correções.

A manutenção do valor do real em relação ao dólar, agora chamado de "hipoteca", foi uma das principais promessas da campanha reeleitoral de FHC.

Ao comentar o estado de espírito do presidente, após a segunda mudança no comando da economia, Amaral afirmou que FHC "está bem, atento e tem consciência de que está fazendo o bem para o país''.

Amaral rechaçou críticas sobre as ligações do presidente indicado para o Banco Central, Armínio Fraga, com o megainvestidor George Soros.

"Acho que é difícil nós irmos buscar um diretor ou presidente do Banco Central num consultório clínico ou num escritório de advocacia. Felizmente as pessoas mais competentes para desempenhar uma função na área financeira são aquelas que trabalham no mercado financeiro'', afirmou o porta-voz.

Amaral disse, várias vezes, que o país vive "um período de incertezas'' e que mudanças como as feitas ontem no comando do BC são uma mostra de que "o governo tem a obrigação de agir''. "Se o mercado muda, o governo tem de avaliar o que é melhor para o país.''

O porta-voz disse que a decisão de substituir Francisco Lopes por Armínio Fraga Neto foi tomada ontem, depois de ser avaliada por FHC durante o fim-de-semana.