“Aqui acabou, xô mano!”.
Nessa curta definição, no mais puro linguajar pantaneiro personificado pelo falar cuiabano, o fiscal Osvair Miranda, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), resume a movimentação de veículos na Transpantaneira e a redução das chuvas às margens da rodovia.
Lotado no posto fiscal da Sema, no Km 17, Miranda e seus colegas monitoram o quantitativo e o perfil dos que cruzam o portal de entrada ao Pantanal.
Mais que uma rodovia, a Transpantaneira é a melhor maneira para observar mudanças ocorridas no Pantanal nos últimos anos, e que, no pior dos cenários, poderia resultar em desertificação daquela que é a maior área alagável do planeta, segundo pesquisadores, ambientalistas e políticos.
Essas mudanças se tornaram mais expostas após os grandes incêndios que devastaram parte do Pantanal em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no segundo semestre de 2020.
Por duas razões, atualmente, a rodovia registra pequeno fluxo de veículos: a pescaria está seriamente comprometida pela escassez do peixe e a pandemia joga a pá de cal afugentando turistas.
Eduardo Gomes
As pontes são bons exemplos para se avaliar as mudanças em curso no Pantanal
O DIÁRIO percorreu a Transpantaneira no sábado (10).
A viagem de Poconé a Porto Jofre demorou quatro horas, em razão de cinco paradas para ouvir moradores.
Nesse período, 17 veículos transitaram em sentido contrário e cinco ultrapassaram o carro da reportagem.
Nenhum desses carros era ônibus com turistas.
No trajeto, não havia nenhum trecho com atoleiro, água sobre a pista ou poças d’água.
A poeira foi constante, como no período da estiagem.
Ao menos, 74 corixos que cruzam a rodovia secaram e nos demais é pequeno o volume de água.
A Transpantaneira tem 147 quilômetros de extensão e atravessa o município de Poconé, da cidade (distante 100 km de Cuiabá, no Alto Pantanal) a Porto Jofre, na divisa com Mato Grosso do Sul e próximo à Bolívia.
Tão plana quanto a extensão que cruza, a rodovia descortina em suas margens uma vastidão que some na linha do horizonte, sem nenhum morro ou elevação que reduza o alcance da visão de seus usuários.
Desde 1972, quando foi concluída e até 2018, a Transpantaneira tinha sazonalidades.
Eduardo Gomes
Desertificação é uma palavra muito dura para definir o Pantanal do amanhã, mas a situação preocupa
De maio a novembro, era um canudo de poeira pelo vaivém dos carros e boiadas.
De dezembro a abril, que é período de águas altas no Pantanal, a rodovia era inundada em muitos trechos, principalmente nos mais próximos a Porto Jofre; os corixos transbordavam e inundavam a pista encascalhada.
Em 2019, as chuvas foram menos intensas e, no ano seguinte, choveu abaixo da média e ainda ocorreram grandes incêndios que consumiram a vegetação matando animais.
O aguaceiro foi generoso nos primeiros meses desde ano de 2021, mas insuficiente para devolver a cota mais alta às baías, aos cursos internos d’água e aos poucos rios que deságuam no Paraguai e Cuiabá, que são os principais formadores do Pantanal Mato-grossense.
Desertificação é uma palavra muito dura para definir o Pantanal do amanhã, mesmo quando se trata apenas de perspectiva com alguns indicadores científicos, conforme cita Gustavo Figueiroa, do Instituto SOS Pantanal, em Campo Grande (MS), e práticos, a exemplo do senador liberal Wellington Fagundes e do deputado estadual sul-mato-grossense Laerte Tetila (PT).
Antes de mostrar o que ora acontece e o que poderá ocorrer na região, é preciso focalizar a Transpantaneira, a rodovia idealizada pelo então ministro dos Transportes, Mário Andreazza, não somente pela logística com a qual esperava criar, mas para incluir o Pantanal ao chamado “Milagre Brasileiro”.
TRANSPANTANEIRA – Esta rodovia seria parte do primeiro modal rodo-hidro-ferroviário brasileiro, mas somente avançou 147 km pelo município de Poconé, chegando à margem direita do rio Cuiabá.
Eduardo Gomes
Sem peixe não há pescaria, que é a grande motivação ao turismo nacional e internacional na região
Pelo caminho, 124 pontes pequenas e médias sobre corixos e rios mostram o grau de dificuldade que foi sua construção.
A obra foi cumprida na parte que seria remanescente mato-grossense, após a divisão territorial para a criação de Mato Grosso do Sul, instalado em 1977, mas não foi executada no trecho no vizinho Estado.
No primeiro momento, a meta com a Transpantaneira era a criação do multimodal pioneiro de transporte no Brasil interior, com três matrizes: ferroviária, da Capítal de São Paulo a Corumbá (MS); hidroviária, de Corumbá a Porto Jofre, no Baixo Pantanal, pelos rios Paraguai e seu afluente Cuiabá; e rodoviária, de Poconé a Cuiabá.
Num segundo passo, a ligação rodoviária se estenderia de Poconé a Corumbá, sendo alternativa para o transporte fluvial no trajeto.
O plano da construção era parte do Programa de Integração Nacional, idealizado pelo governo militar instalado em 1964.
Porém, por falta de visão do Governo Federal - financiador do projeto -, Brasília o inviabilizou.
Transpantaneira é a MT-060 entre Poconé e Porto Jofre, rodovia construída sobre aterro e que cruza incontáveis corixos.
Nesse trajeto, ela é Estrada-Parque e recebeu a denominação de Rodovia José Vicente Dorileo - Zelito Dorileo, por uma lei de autoria do deputado estadual Paulo Moura, sancionada em 21 de janeiro de 1999, pelo governador Dante de Oliveira.
A construção da Transpantaneira começou em 5 de setembro de 1972, quando Mato Grosso era governado por José Fragelli.
A obra foi executada pela Companhia de Desenvolvimento de Mato Grosso (Codemat), uma estatal presidida por Gabriel Müller e que, mais tarde, foi extinta.
Trabalharam sob a liderança de Gabriel Müller os engenheiros Enzo Perri, Hilton Campos (foi deputado estadual e prefeito de Juína), Kikuo Ninomiya Miguel (foi deputado estadual) e outros.
Eduardo Gomes
Com Fragelli governador, a construção da Transpantaneira começou em 5 de setembro de 1972
Em 1974, o Governo Federal inaugurou a ligação asfáltica de Cuiabá e Campo Grande (BR-163) e Goiânia (BR-364), via Rondonópolis.
Paralelamente a isso, a Transpantaneira foi concluída, mas perdeu importância pela natural opção pelo transporte rodoviário nas rodovias federais recém-construídas.
Ou seja, o Milagre Brasileiro aconteceu parcialmente no Pantanal.
Ao contrário das rodovias brasileiras, nas margens das quais surgem vilas e cidades, a Transpantaneira cruza uma área de grande vazio demográfico, por conta de seu mosaico fundiário formado por grandes fazendas voltadas à pecuária, que geram poucos empregos da porteira para dentro.
Não há uma vila sequer em seu trajeto.
Até 2018, à noite era intensa a movimentação de turistas na Transpantaneira, em carrocerias de caminhões de pousadas da região, para contemplação com potentes lanternas que, focadas nos jacarés espalhados pelos corixos e baías, proporcionavam um belo espetáculo, refletindo o brilho dos olhos daqueles répteis, como se formassem a iluminação de uma cidade.
Com a redução das chuvas e após os grandes incêndios florestais de 2020, as águas minguaram e sua fauna desapareceram.
SABEDORIA – Até 2015, havia apenas duas pontes de concreto, e agora elas chegam a um terço do total.
Usuários da rodovia colaboravam com a conservação dessas pontes.
Nas águas altas a usavam, mas nas águas baixas, quando alguns corixos secam, se desviavam por uma passagem paralela.
Com essa prática, a vida útil da ponte era maior.
As pontes são bons exemplos para se avaliar as mudanças em curso no Pantanal.
Abril é período das águas altas e, até recentemente, nessa época, os veículos cruzavam as pontes de madeira.
Agora, na maioria delas, é possível optar pelas passagens paralelas que ou estão secas ou se transformaram em filetes d’água.
A estiagem se aproxima. Não é preciso estudo científico para saber que, de agora até o final do ano, a tendência é a diminuição das águas no Pantanal.
Sem água não há peixe, o que causa o desequilíbrio ecológico, na medida em que quebra a cadeia alimentar dos jacarés, lontras, ariranhas, alguns pássaros e, até mesmo, da onça.
Sem peixe não há pescaria, que é a grande motivação ao turismo nacional e internacional, pelo fato de o Pantanal ser um dos principais destinos do turismo de pesca.
Sem regularidade de chuva, aumenta o risco de novos incêndios florestais, e isso assusta o presidente do Sindicato Rural de Poconé, Raul Santos Costa Neto, que ainda cura as cicatrizes de centenas de criadores que perderam bovinos, cercas, pastagens e currais no fogaréu de 2020.
Aparentemente, o ano de 2021 será de intensa seca no Pantanal, o que levará muitas propriedades a recorreram a perfuração de postos artesianos e a utilização de carro-pipa para garantir a água dos animais.
Possibilidade de enchentes neste ano está totalmente descartada.
Sem enchente, não haverá reposição das baías, corixos e do volume de água dos rios, porém, essa situação evitará que o Pantanal receba cargas poluidoras dos esgotos em Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres e outras cidades, resíduos das lavouras mecanizadas no chapadão e rejeitos de mineração.
Destino natural das águas de dezenas de municípios mato-grossenses, o Pantanal convive com o dilema: se a estiagem for prolongada, o fogo se torna perigoso inimigo; caso chova muito, sua superfície será contaminada com o esgoto e o agrotóxico arrastados pelos rios que o banham; e se a chuvarada for fraca, permanece a penúria de agora, no limbo ambiental em que se encontra.




